Entenda o que é uma pandemia e as diferenças entre surto, epidemia e endemia

A diretora do Laboratório de Virologia do Instituto Butantan, Viviane Fongaro Botosso

Desde o final de 2019, a palavra “pandemia” se tornou comum no nosso dia a dia. Mas você sabe o que ela significa? E o que a diferencia de outras expressões que também indicam a proliferação de doenças, como surto, epidemia e endemia?

Uma enfermidade se torna uma pandemia quando atinge níveis mundiais, ou seja, quando determinado agente se dissemina em diversos países ou continentes, usualmente afetando um grande número de pessoas. Quem define quando uma doença se torna esse tipo de ameaça global é a Organização Mundial da Saúde (OMS). Uma pandemia pode começar como um surto ou epidemia; ou seja, surtos, pandemias e epidemias têm a mesma origem – o que muda é a escala da disseminação da doença.

Um surto ocorre quando há aumento localizado do número de casos de uma doença. “É possível ocorrer um surto de uma doença até dentro de um hospital, causado, por exemplo, por uma infecção hospitalar”, explica a diretora do Laboratório de Virologia do Instituto Butantan, Viviane Fongaro Botosso. Uma epidemia, por sua vez, se dá quando ocorre um aumento no número de casos de uma doença em diversas regiões, estados ou cidades, porém sem atingir níveis globais. “Em 1974, houve uma epidemia de meningite, pois teve um aumento muito grande no número de casos, mas localizados aqui no Brasil”, completou Viviane. E uma endemia ocorre quando a doença é recorrente na região, mas não há um aumento significativo no número de casos e a população convive com ela. A dengue tem caráter endêmico no Brasil, porque ocorre durante o verão em certas regiões. 

Os primeiros relatos de casos de SARS-CoV-2 surgiram no fim de 2019 na cidade de Wuhan, na China. Em março de 2020, o vírus já havia se disseminado globalmente, levando a OMS a declarar a pandemia. Outro exemplo de pandemia bastante conhecido é a gripe espanhola, que afetou o mundo em 1918 e matou de 30 a 50 milhões de pessoas. A doença se disseminou globalmente principalmente devido à movimentação de tropas durante a 1ª Guerra Mundial.

As ações humanas e as pandemias

Há diversas formas de um vírus encontrar o ser humano, dando início a uma doença que até então não afetava pessoas (como é o caso da Covid-19). Uma delas é causada pela degradação do meio ambiente. 

Um exemplo: existem doenças que só atingem animais. A partir do contato constante entre animais e seres humanos, muitas vezes provocado pela destruição de habitats naturais, um vírus (que, às vezes, nem sabíamos que existia) pode infectar uma pessoa por acidente, ocasionando doença. Inicialmente, esse vírus pode não ter a capacidade de se transmitir entre seres humanos e se estabelecer na população. Mas ele pode achar uma forma de se adaptar a receptores humanos, reconhecê-los e, com isso, aprender a se replicar com eficiência. Quando este novo vírus encontra uma população que nunca teve contato com ele e não tem anticorpos para combatê-lo, consegue se proliferar com mais facilidade, favorecendo sua transmissão para outras pessoas e ocasionando surtos, epidemias ou pandemias.

Diversos fatores fazem com que uma doença se estabeleça em uma sociedade: facilidade de transmissão, patogenicidade (o que determina se um organismo é capaz de causar doença em um hospedeiro), e até as mutações dos micro-organismos. “Os outros coronavírus humanos, SARS-CoV [vírus causador da Síndrome Respiratória Aguda Grave] e MERS [Síndrome Respiratória do Oriente Médio] não tinham essa capacidade de se transmitir entre humanos tão bem como o SARS-CoV-2”, explica Viviane. Além disso, ambos apresentavam sintomas mais rapidamente, permitindo que os pacientes fossem isolados prontamente, limitando a disseminação e favorecendo o controle da doença.   

Alguns micro-organismos têm a capacidade de sofrer variações conforme sobrevivem na população, como é o caso das novas cepas do SARS-CoV-2 – muitas delas mais agressivas que a versão original do vírus.

Como combater

Existem formas de combater as doenças infecciosas enquanto a vacina ainda não está disponível, desde que se conheça o agente e como ele é transmitido. O SARS-CoV-2 se propaga por gotículas espalhadas por pessoas doentes; por isso, recomenda-se o uso de máscara, distanciamento social e higienização constante das mãos.

A ciência também desempenha um papel essencial na identificação da história natural da doença e das formas de tratamento e prevenção, na divulgação de dados junto aos órgãos governamentais. “A ampla divulgação para a população sobre como se prevenir, o número de casos e a evolução das doenças, as medidas a serem tomadas, o que piorou e o que melhorou, enfim, tudo o que possa orientar a conduta correta das pessoas é muito importante”, afirma Viviane.

A melhor forma de se prevenir contra doenças infecciosas é a vacinação. Quando as pessoas deixam de se vacinar, podem levar às chamadas “falhas vacinais” e, assim, doenças que eram consideradas eliminadas podem voltar. Em 2019, com o ressurgimento de casos de sarampo causados pela reintrodução do vírus no Brasil, aliado ao aumento do número de pessoas suscetíveis por não estarem vacinadas, o país perdeu o certificado de erradicação do sarampo que havia recebido em 2016 da Organização Pan Americana de Saúde (OPAS/OMS).

Portanto, tomar uma vacina não é apenas um cuidado individual. É um ato de saúde coletivo: quanto maior o número de pessoas imunizadas, maior a possibilidade de se eliminar a circulação do agente e, com isso, preservar vidas.

Do Butantan