Coluna Alternativa A: Entre o mito e a história

Pelé, o Rei na Copa de 70

●  Por Glauco Keller Villas Boas

Lembro-me de, certa vez, ouvir o Romário dizer que ele foi o maior jogador brasileiro. Referia-se ao fato de que Pelé foi o maior atleta. Pepe costuma dizer que ele é o maior artilheiro do Santos, pois “Pelé é OVNI, UFO ou sei lá o quê. Humano é que não é.”

José Roberto Torero, cronista e roteirista do filme “Boleiros” e santista declarado afirma que Pelé jogou em um momento de transição das transmissões radiofônicas para à TV ou, seja, para as imagens.

Assim, parte das jogadas do craque puderam ser documentadas para dar credibilidade aos seus feitos. Outra parte, porém, não foi nem ao menos fotografada, o que levou o imaginário popular a incrementar, aumentar e até inventar histórias do maior herói do futebol mundial. Exemplo disso é o antológico gol feito na Rua Javari, no estádio juventino, na Mooca. Gol esse que tem placa, descrição verbal e animação criada por computador, mas nenhuma imagem ou vídeo.

Polêmico e celebridade fora dos gramados, Pelé foi muito cobrado por algumas declarações e posições políticas. Teve seu auge aliado à ditadura militar, tornou-se Ministro dos Esportes e deu nome a uma Lei questionada até hoje no universo futebolístico. Namorou a Xuxa, compôs canções, fez filmes com Os Trapalhões e soube aproveitar seus anos pós-futebol como poucos atletas de sua época o fizeram.

Para o esporte bretão, entretanto, é evidente que não haveria futebol tal qual o conhecemos sem o Pelé. Edson foi revolucionário, genial, único, marcante. Completo.

Assim, temos que, simplesmente, agradecer por tudo o que Pelé fez pelo esporte, ao transformar em arte e poesia um jogo de futebol e, em seus 80 anos, não há forma melhor de homenageá-lo do que contar um de seus tantos causos.  Esse ouvi  do escritor Victor Kingma.

Muitas histórias são contadas sobre o Rei do Futebol e essa, dizem, aconteceu no início dos anos 60: Pelé estava no início de carreira, e sua fama, a cada dia, corria o mundo.

Sua imagem, entretanto, ainda não era tão conhecida, até porque, eram raras as transmissões pela TV.

O Santos, no auge, e aproveitando o prestígio de seu menino prodígio, excursionava atrás dos dólares, pelos lugares mais longínquos do planeta.

Num desses amistosos pelo velho mundo, visando confundir a marcação adversária, cada dia mais rigorosa em cima de sua estrela maior, num jogo contra a Seleção da Polônia, o técnico Lula resolveu trocar as camisas de metade do time, que tinha ainda: Dorval, Mengalvio, Coutinho, Lima etc. Fim do primeiro tempo: Santos arrasador 3×0.

Decepcionado, o capitão do time adversário tentava explicar para os repórteres locais o fracasso da tática exaustivamente treinada durante toda a semana para conter o gênio da bola:

Fizemos o que o técnico mandou e ficamos o tempo todo em cima do camisa 10, mas craque mesmo é aquele moleque que joga com a 7 e que tem a mania de socar o ar a cada gol. Já meteu 3.

Missão cumprida, Pelé, que era presença obrigatória nos amistosos para garantir a cota, não voltaria para o segundo tempo, já se poupando para o próximo compromisso.

Dorval, o valente ponta-direita que atuou com a camisa 10, também não retornaria ao jogo após o intervalo. Ficou no vestiário em tratamento, com as canelas esfoladas pelos pontapés da defesa adversária.

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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