
O crime da família Almeida nunca foi resolvido. Dizem que há casos sem explicação, mas este não era apenas um mistério — era um enigma que zombava da lógica. Todos os seis membros da família estavam mortos, cada um com um único tiro na testa, dispostos na sala como se tivessem adormecido de olhos abertos. Nenhuma evidência de arrombamento, nada revirado, nada roubado. Apenas aquela frase escrita no teto:
“Sem dó nem piedade.”
O delegado Antunes coçou o queixo ao ler as palavras gotejantes de tinta vermelha, que pareciam frescas, como se tivessem sido escritas segundos antes de sua chegada. Mas algo o incomodava. A tinta escorria para cima, como se a gravidade tivesse se curvado dentro daquela casa.
Os vizinhos diziam que a família Almeida era boa gente. O pai, Manuel, engenheiro dedicado. A mãe, Teresa, uma mulher de sorriso doce. As crianças, sempre educadas. Nenhuma briga, nenhum inimigo, nenhuma sombra sobre a vida deles. Mas estavam mortos.
Foi na delegacia que o primeiro fato inexplicável aconteceu. As fotografias tiradas no local do crime eram inúteis. Não havia corpos nelas. A sala, a mobília, o teto com a frase terrível — tudo estava ali. Mas os corpos tinham desaparecido.
No dia seguinte, mais estranho ainda: os peritos voltaram à casa para novas análises. E encontraram a porta aberta. Dentro, a sala estava impecável, sem sinais de sangue ou violência. O teto branco, sem frase alguma. As cadeiras estavam no lugar, os quadros na parede. Nenhum corpo. Nenhum vestígio de que um crime havia sido cometido ali.
“Mas eu vi! Eu estive aqui!”, gritou o delegado Antunes, apontando para onde os corpos deveriam estar. O perito olhou para ele com um misto de pena e medo.
“Delegado… que crime?”
Antunes sentiu um arrepio subir pela espinha. Correu até os arquivos do caso na delegacia. Não havia nada. Nenhuma foto, nenhum boletim de ocorrência. Nenhum registro da família Almeida. Nenhum documento provando que algum dia sequer existiram.
Os vizinhos também não lembravam deles.
A rua onde moravam? Não havia nenhuma casa naquele endereço. Apenas um terreno baldio, tomado pelo mato.
Naquela noite, sozinho em casa, Antunes ouviu um barulho na cozinha. Pegou a arma e avançou devagar. Encontrou a mesa posta para seis pessoas. Pratos de porcelana, talheres alinhados, velas acesas.
No teto, as palavras haviam voltado. Mas agora, diziam outra coisa:
“Se lembra de nós, voltaremos.”
O delegado nunca mais foi visto.
Este é um CONTO de ficção. Nada do que está escrito é verdade.








