Há cem anos, São Carlos já teve epidemia parecida com a COVID-19 e registrou 141 mortes

Gripe Espanhola matou muita gente/Reprodução Revista Fapesp


Neste artigo, o leitor poderá ver como as epidemias atingiram São Carlos no séculos 19 e 20 por meio da ótica do professor Julio Roberto Osio da Fundação Pró-Memória.

A varíola, 1874-1875

São Carlos foi atingida por epidemias logo nos primórdios de sua história, o primeiro surto epidêmico que a atingiu foi o de varíola.

Nos anos 1874 e 1875 a situação foi realmente séria, mais pelo pânico que provocou na população do que pelo número de mortes efetivadas, pois grande parte dos habitantes do meio urbano deixou a Vila de São Carlos do Pinhal movida pelo medo. A povoação era uma vila desde 1865, e só se tornou cidade anos depois, em 1880.

Entre as fontes documentais do município no século XIX, há uma carta da Câmara Municipal dirigida ao governador da província de São Paulo, João Theodoro Xavier, que expressa bem a situação da população são-carlense na época, onde transparece o seu medo do contágio, que já se espalhava entre os moradores, e a notícia de sua fuga do meio urbano para o meio rural tentando evitar o pior. Vejamos um trecho desse documento:

A Câmara Municipal da Vila de São Carlos do Pinhal entendeu que o melhor meio de cumprir os seus deveres era aplicar o saldo existente em seus cofres em benefício do Município, cuja população se acha tomada de pânico terror com o aparecimento da epidemia da varíola, que já tem produzido algumas vítimas. […]

Para prevenir, porém, qualquer eventualidade resolveu ela em sessão extraordinária de hoje levar o fato ao conhecimento de V. Exa. pedindo um auxílio pelo menos de um conto a dois contos de reis, pelo meio que a V. Exa. Parecer mais conveniente. […]

É tal o terror que a epidemia tem causado que a quase totalidade da população tem abandonado a Vila retirando-se para os sítios. […]

Esta Câmara se acha possuída do melhor desejo de bem servir o Município, mas é evidente que seus esforços serão impotentes se, contra a sua expectativa, V. Exa. Não auxiliá-la com as medidas indicadas.

Paço da Câmara Municipal, 14 de Fevereiro de 1875.

Como se pode ver, a Câmara Municipal pede recursos ao governo da Província de São Paulo para evitar o pior e poder, sendo atendida, enfrentar a situação.

Houve outros momentos em que a varíola reapareceu, como em 1879 e 1892, mas ao que parece, não há muitos documentos a respeito disso, tudo indica que não foram episódios muito fortes.

Diga-se, de passagem, que as províncias no Brasil só se tornaram estados depois da proclamação da República, e que as câmaras exerciam os poderes legislativo e executivo nos municípios.

A febre amarela, 1894-1898

Vinte anos depois dos primeiros casos de varíola no município, cujo surto epidêmico foi de certa importância, pelo menos assustou a população entre 1874 e 1875, os são- carlenses foram assolados por uma outra epidemia: a de febre amarela.

Apesar das providências sanitárias empreendidas pelo poder municipal – que desde 1890 vinha tomando medidas saneadoras com o estabelecimento de um novo código de posturas municipais, mais severo, com regras de higiene e saúde e preocupações com a limpeza pública, mesmo assim, efetivamente –, as condições sanitárias continuaram precárias, e há denúncias nos jornais de 1893 a respeito do estado lastimável de ruas em locais próximos do centro urbano.

Em 1894 o cemitério Nossa Senhora do Carmo registrou um óbito causado pela febre amarela, e a partir daí o crescimento da doença foi se acentuando, passando por 9 óbitos em 1895, 246 óbitos em 1896, decrescendo para 133 óbitos no ano seguinte, mas crescendo assustadoramente para 487 óbitos em 1898, perfazendo um total de 873 óbitos. E, finalmente, em 1899 e 1900 o número de óbitos por febre amarela caiu para zero, pondo fim a essa epidemia.

Com uma população em torno de 15.000 habitantes na época, pode-se ver que foi outro momento muito difícil para o município.

O Hospital de Isolamento e a Santa Casa de Misericórdia

Ao longo dessas décadas, e desde a epidemia de varíola de 1874-1875, São Carlos elaborou regras de convívio social, nos códigos de postura, e criou instituições que dessem conta da prevenção e do cuidado com as doenças que apareciam no município.

Nos documentos da Câmara Municipal, pedindo recursos ao governo provincial, já citados aqui, há menções a um hospital de isolamento criado para dar conta do surto varioloso, e há também o pedido do juiz municipal de então reforçando o que disse a Câmara. Vejamos as palavras da Câmara e as do juiz.

A instalação de um hospital retirado da povoação, o serviço pago a diversos enfermeiros, sempre exigentes, e outras despesas de igual natureza têm sido satisfeitas pelo seu cofre, que se acha quase exaurido.

(Paço da Câmara Municipal, 14 de fevereiro de 1875)

O pânico, porém, da população é imenso, e as consequências seriam funestas se não fossem as providências tomadas pela Câmara Municipal, criando um hospital longe da Vila, sustentado pelo seu cofre, e pelos donativos particulares, e nomeado uma Comissão que dirigisse o mesmo hospital. É tudo o que se poderia exigir dos modestos recursos de uma Povoação mas antes é grato lembrar que tanto os Membros da Comissão, como os dois médicos existentes Doutores Antonio Rodrigues Cajado e Carlos Fleichmam, se têm prestado gratuitamente o primeiro socorrendo aos doentes atacados na Vila, o segundo aos que são conduzidos para o hospital.

(São Carlos do Pinhal, 22 de março de 1875. Domingos Mendonça, Juiz Municipal de S. Carlos)

A precariedade das condições sanitárias não apenas da Vila de São Carlos mas de todo o Estado de São Paulo, que viu a sua população crescer muito com o fim da escravidão e o crescimento da imigração europeia para a lavoura cafeeira, tornou-se uma preocupação dos governos paulista e brasileiro que procuraram criar condições para a superação de tal estado de coisas.

Além do hospital de isolamento já criado, chamado depois de Lazareto Municipal, foi fundada em 1891, e inaugurada em 1899, a Santa Casa de Misericórdia de São Carlos, instituição que já vinha funcionando sem muita regularidade e agora se efetivava.

O que se tem então, com o funcionamento regular da Santa Casa, é uma instituição permanente e de postura profissional, superando a atuação momentânea e esporádica que se realizava na cidade.

Vê-se, assim, surgir nas décadas de 1880 e 1890 um processo acelerado de urbanização que aos poucos foi superando a precariedade de uma cidade que emergira do meio rural, onde vigiam condições de vida voltadas para extensas regiões com pequenas densidades populacionais. A concentração populacional proporcionada pelo meio urbano mudava substancialmente o convívio social, daí a necessidade de novas formas de organização social.

A “gripe espanhola”, 1918

Primeiramente, é preciso esclarecer a adjetivação dada à pandemia de 1918, que passou a ser chamada de “gripe espanhola”. Segundo estudiosos do assunto, como W. I. B. Beveridge, a denominação surgiu na Inglaterra, em fins de abril de 1918, e baseou-se em dados errados que situavam um grande número de óbitos na Espanha.

Kaplan e Webster, por sua vez, afirmam que essa denominação “gripe espanhola” teria surgido e sido consagrada pelos meios de comunicação de países envolvidos na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A censura desses países proibiam as notícias sobre a incidência de gripe nas suas tropas e atribuíam o grande número de mortes de causa gripal a países inimigos ou a países neutros, como era o caso da Espanha.

Portanto, a partir dessas observações sobre tais tendenciosidades, conclui-se que a denominação “gripe espanhola” é totalmente imprópria, mas que ficou consagrada, e essa pandemia é assim conhecida até hoje.

A gripe espanhola chegou a São Carlos, e fez as suas primeiras vítimas, segundo os registros de óbitos do

cemitério Nossa Senhora do Carmo, em setembro de 1918, e segundo dados da Delegacia de Saúde em outubro do mesmo ano, quando já havia irrompido a pandemia na cidade.

Os dados do cemitério Nossa Senhora do Carmo apontam 367 óbitos de setembro a dezembro de 1918, sendo 145 óbitos por gripe, lembrando que 71 registros de óbitos aparecem nos livros sem a indicação da causa da morte. Já o relatório elaborado por Álvaro de Souza Sanches, delegado de saúde em São Carlos, publicado em 1920, diz o seguinte:

De 21 de Outubro a 31 de Dezembro de 1918:

2.202 casos de gripe na cidade: 141 óbitos na cidade e fazendas do distrito.

É interessante citar, justamente neste momento que passamos pela pandemia do corona vírus em 2020, um pouco mais de um século depois da pandemia da “gripe espanhola”, o que diz esse relatório da Delegacia de Saúde sobre as medidas tomadas em São Carlos, naquela ocasião, para evitar o avanço da doença no município, principalmente no meio urbano. Vejamos.

Em conferência que tivemos no dia 21 de Outubro de 1918, logo após a irrupção da pandemia, com os srs. dr. Delegado de Polícia, dr. Eurico de Souza Pereira, Inspetor Médico Escolar, e cap. Elias Augusto de Camargo Salles, Prefeito Municipal, foram resolvidas as seguintes medidas, que tiveram imediata execução: distribuição de boletins e inserção em jornais das instruções expedidas pela Diretoria Geral do Serviço Sanitário; criação de hospitais e postos de socorro; nomeação de uma pessoa encarregada de fiscalizar o fornecimento de gêneros alimentícios e serviços das farmácias; suspensão dos ofícios religiosos à noite e encomendações fúnebres na Catedral; suspensão das aulas dos estabelecimentos de ensino particulares; suspensão do funcionamento das casas de diversões e exercícios das sociedades esportivas; proibição da venda de gelados nas ruas e confeitarias; fechamento das casas comerciais às dezoito horas; diminuição das horas de serviço e proibição da venda de ingressos à gare da estação local; providências sobre o serviço de enterramentos no cemitério municipal.

Durante o período da epidemia funcionaram dois hospitais para gripados, tendo sido instalado um no antigo hospital de isolamento, sito no bairro da Vila Pureza, e outro no edifício da Escola Modelo (atualmente Grupo Escolar), sito à rua Alexandrina.

Num prédio pertencente à Câmara Municipal, sito à rua Conde do Pinhal, funcionou o “Posto de Socorro”, que distribuía gêneros alimentícios, socorros médicos e remédios aos gripados pobres.

Levando-se em conta as condições sanitárias da época, e os esforços para o seu saneamento, o que esse mesmo relatório expõe ao mostrar a atuação em São Carlos da recém-criada Delegacia de Saúde, em data já apontada (maio de 1918), constatamos que essas medidas adotadas no combate à pandemia da chamada “gripe espanhola” foram positivas, dado que em quatro ou cinco meses a doença foi controlada. O que mostra que

devemos estudar e guardar as nossas experiências nesses episódios a fim de nos resguardarmos de males vindouros, para que eventos futuros não nos peguem desguarnecidos como agora acontece com a Covid-19.

Uma grande e dramática lição está sendo aprendida em todo o mundo, um aprendizado doloroso, o que vai demandar a criação de uma rede de instituições nacionais e internacionais para articulações de combate a epidemias e pandemias em qualquer lugar do planeta. Como a situação que estamos vivenciando: uma epidemia localizada na China que virou uma feroz pandemia, um vírus que continua se alastrando sem que saibamos ainda qual é a sua verdadeira natureza.

Comentário

Gripe espanhola”

Oliver Sacks, o neurologista inglês, falecido em 2015, em sua biografia Sempre em movimento: uma vida, faz comentários sobre a “gripe espanhola” e fala em 20 milhões de mortos como resultado dessa pandemia. Atualmente, devido a pandemia do Corona vírus/Covid-19, algumas reportagens falaram em 40 ou 50 milhões de mortos naquela pandemia. É preciso conferir esses números, que me parecem demasiados, sou mais os 20 milhões do Oliver, mas o certo é verificar todas essas fontes e analisar os estudos que as elaboraram. Há também muitas reportagens que falam o que lhes dá na telha, o que não é o caso do Oliver Sacks, um cientista sério, com uma obra importante.

As informações de W. I. B. Beveridge, Kaplan e Webster foram tiradas de um estudo feito por Cláudio Bertolli Filho: Epidemia e sociedade. USP, 1986.

A saúde pública em São Carlos

No apanhado que fizemos acima sobre São Carlos e suas epidemias nos baseamos em um estudo que fizemos em 1991. Foi um trabalho acadêmico sobre o período histórico de 1850 a 1920, terminado quando a Delegacia de Saúde de São Carlos publicou o seu relatório de 1920 e, segundo o nosso objetivo nesse estudo, encerrou um período de ações esporádicas e desarticuladas na área da saúde pública são-carlense.

Autoria: Prof. Júlio Roberto Osio da Divisão de Pesquisa e Divulgação Fundação Pró-Memória de São Carlos