Hoje nos calamos para não amar…

Eu gosto tanto de você

Que até prefiro esconder

Deixo assim, ficar

Subentendido (Lulu Santos em Apenas mais uma de Amor)

 

A certeza que temos hoje é que o amor não é contínuo e nem sempre pode acontecer como planejamos. O amor surge, ele nasce, cresce como uma planta depois que uma semente foi jogada em um campo qualquer. É clichê falar isso, não é? Mas o amor é isso, um clichê gostoso que torna até o mais impávido coração numa morada quentinha para outra pessoa.

Nem sempre é possível amar plenamente e talvez aí esteja um dos segredos da infelicidade do ser humano, pois estamos presos a valores e costumes que nos impedem de deixar qualquer situação para simplesmente nos entregar ao ato de amar sem medida outra pessoa. Porque é amar é isso, fazer a loucura, jogar tudo para o alto e começar uma vida nova. Mas onde está a coragem que precisamos para fazer isso em todos os momentos em que sentimos essa necessidade? Ela não vem, não aparece, fica escondida em um lugar de onde não será possível retirá-la.

Hoje o mundo ama quieto, você já parou para pensar em quantas pessoas amam outras, porém não falam nada ou não demonstram? Ou então tentam de forma sutil evidenciar o que sentem porque simplesmente não pode “sentir”?!? Esse é o mistério! Sentir! A pessoa quando ama ela sente (e muito), ela perde o sono, passa os dias pensando, analisando, entretanto não pode, não deve, não faz, porque a sociedade não quer, porque seria um escândalo, afinal sua zona de conforto lhe garante uma estabilidade que esse sentimento do cão que lhe toma conta todas as noites não consegue lhe dar.

É isso! O amor não dá nada, o amor tira, arranca, destrói lá no âmago, no profundo do ser, dentro daquele lugar mais oculto. O amor dilacera, ela mói nossas expectativas e nos apresenta situações onde precisaremos de força tal como Hércules em seus 12 trabalhos para conseguirmos êxito. Todavia, onde está nossa audácia para amar? Hoje, ela não existe mais, ninguém ama abertamente, amamos em silêncio porque nos prendemos às amarras institucionais do dia a dia e assim não somos transparentes conosco e nem com os outros. Amamos pela metade, sentimos pela metade, somos quase nada, quando, na verdade, poderíamos ser tudo ou pelo menos partícipes da construção de uma vida mais feliz ao lado de quem se ama.

O amor cobra, o amor machuca, o amor exige, ele pede que você se entregue, que viva intensamente e que deixe seu eu morrer em prol de uma nova situação. Mas não se iluda, porque parece que a humanidade provou ao longo do tempo que o amor não é eterno, mas efêmero ou as vezes caprichoso e nos coloca diante de um espelho confuso de escolhas com as quais não estamos acostumados a conviver e é neste ato que passamos para outro ainda mais confuso.

Não sabemos deixar para amar melhor, não sabemos romper, não aguentamos a pressão que isso pode causar, ainda nos preocupamos mais com os outros do que com a nossa própria felicidade, pois amar (verdadeiramente) se transformou no século XXI em um sentimento oculto que não temos mais condições de sentir a todo instante.

Amar é complicado, é dolorido, no entanto é o único porto seguro para uma noite feliz de sono.

O próprio Lulu Santos encerrou sua música com versos que valem a pena refletir:

Se amanhã não for nada disso

Caberá só a mim esquecer

E eu vou sobreviver (eu sei que vai doer!)

O que eu ganho, o que eu perco

Ninguém precisa saber

 

Texto de Rodrigo Abrantes, professor de biologia.

Imagem de klimkin por Pixabay