São Carlos pretende dar um passo importante para transformar a enorme quantidade de informações mantidas pela Prefeitura em uma ferramenta capaz de melhorar serviços públicos, reduzir burocracias e ajudar na tomada de decisões em áreas como saúde, educação, medicamentos e planejamento urbano.
O caminho para isso passa pelo IntegraSanca: Conectando Dados, Transformando São Carlos, projeto apresentado nesta quinta-feira (27), durante o 3º São Carlos Experience, pela pesquisadora Cristina Aguiar, da USP, e pelo secretário adjunto de Cidade Inteligente da Prefeitura de São Carlos, Cristiano Pedrino.
A iniciativa pretende integrar diferentes bases de dados municipais que atualmente funcionam em sistemas distintos. Na prática, a proposta é permitir que informações hoje espalhadas pela administração pública possam conversar entre si e ajudar a Prefeitura a compreender melhor as necessidades da população.
O projeto envolve R$ 9,85 milhões em recursos, sendo R$ 9,6 milhões financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e outros R$ 250 mil aportados pela Prefeitura de São Carlos.
IntegraSanca reúne pesquisadores de várias universidades
A dimensão acadêmica do projeto chama atenção. A equipe reúne 18 docentes, além de 29 profissionais de apoio técnico e administrativo e 62 bolsistas, entre pesquisadores de pós-doutorado, doutorado, mestrado e iniciação científica.
Participam pesquisadores ligados a instituições como USP, UFSCar, ITA, UFAL e UFMG.
Segundo Cristina Aguiar, professora do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP) e pesquisadora principal responsável pela área de gestão de dados e integração, colocar todas essas informações para funcionar de maneira integrada está longe de ser uma tarefa simples.
“É um trabalho extremamente difícil, desafiador, tem vários aspectos que precisam ser considerados”, afirmou.
Por que integrar os dados da Prefeitura de São Carlos?
Um dos problemas está justamente na maneira como as informações são registradas.
Uma mesma pessoa pode, por exemplo, aparecer com informações ou endereços diferentes em sistemas municipais distintos. Antes de utilizar esses registros para subsidiar políticas públicas, será necessário identificar inconsistências e garantir a confiabilidade das informações.
“A gente está trabalhando com vários tipos de dados, esses tipos de dados são diferentes, eles têm informações diferentes armazenadas neles”, explicou Cristina.
Esse processo é fundamental porque uma decisão pública baseada em informações incorretas pode produzir resultados igualmente equivocados.
Quanto mais confiável for a base, maior será a possibilidade de a Prefeitura utilizar os dados para descobrir onde um determinado serviço público é mais necessário.
Saúde, escolas, imóveis e medicamentos estão entre prioridades
Entre os sistemas considerados prioritários para integração estão bases importantes para o cotidiano dos moradores de São Carlos.
Segundo Cristiano Pedrino, estão nesse grupo o e-SUS, utilizado para informações relacionadas a atendimentos de saúde, vacinações, consultas e visitas domiciliares, e os sistemas da Educação, que concentram registros relacionados a escolas, estudantes, professores e desempenho escolar.
Também entram no projeto o Cadastro Imobiliário, com informações sobre terrenos, imóveis e tributos; o ERP municipal, utilizado em áreas como recursos humanos, compras e contabilidade; o sistema de dispensação de medicamentos das farmácias públicas e informações de mapeamento urbano utilizadas, entre outras finalidades, para aprovação de projetos.
Quase 28% dos sistemas estão obsoletos ou abandonados
Um dos dados apresentados durante o São Carlos Experience ajuda a dimensionar o desafio tecnológico existente dentro da administração municipal.
De acordo com Pedrino, atualmente 41,6% dos sistemas utilizados pela Prefeitura de São Carlos são geridos internamente pela área de Tecnologia da Informação.
Outros 30,7% são sistemas externos ou hospedados em nuvem.
O dado que mais chama atenção, porém, está no restante: 27,7% dos sistemas foram classificados como obsoletos ou abandonados.
O cenário reforça, segundo a apresentação, a necessidade de modernização tecnológica e integração das ferramentas utilizadas pelas diferentes áreas da Prefeitura.
IntegraSanca poderá ajudar a definir onde São Carlos precisa de uma UPA
É justamente quando os dados deixam os computadores e começam a interferir nas decisões públicas que o IntegraSanca poderá ser percebido pela população.
Cristina Aguiar citou exemplos bastante concretos.
Com informações integradas sobre população, localização e demanda pelos serviços de saúde, seria possível ajudar a identificar qual região de São Carlos apresenta maior necessidade de uma nova UPA.
O mesmo princípio poderia ser utilizado para avaliar onde existe maior demanda por médicos, quais unidades necessitam de determinados medicamentos ou quais regiões da cidade apresentam necessidade de ampliação da rede educacional.
Dados demográficos poderiam indicar, por exemplo, bairros com maior concentração de crianças em idade escolar e auxiliar no planejamento sobre onde novas escolas são necessárias.
“É um retorno direto para a população, para facilitar a vida populacional”, afirmou Cristina.
Dados mostram quase 30% de faltas em agendamentos da saúde
Um dos exemplos apresentados durante a palestra envolve um problema que afeta diretamente quem depende do sistema público de saúde: as faltas em consultas e procedimentos previamente agendados.
Dados preliminares apresentados pela equipe, referentes a um período de três meses, apontam 157.182 agendamentos registrados no sistema municipal de saúde.
A taxa de comparecimento foi de 55,2%, enquanto o índice de absenteísmo chegou a 29,9%.
Isso significa que, nesse recorte analisado, praticamente três em cada dez agendamentos resultaram em falta.
Além do impacto sobre o funcionamento das unidades, o problema pode contribuir para aumentar o tempo de espera de outros pacientes.
Sistema poderá lembrar paciente de consulta
Uma das possibilidades discutidas no IntegraSanca é utilizar tecnologia para atacar justamente esse tipo de problema.
Com bases devidamente integradas e respeitando as regras de privacidade, sistemas poderiam permitir, por exemplo, notificações automáticas para lembrar o cidadão sobre uma consulta médica previamente agendada.
A expectativa é que medidas dessa natureza possam reduzir o número de faltas e melhorar o aproveitamento das vagas disponíveis.
“Vai ser um projeto desafiador, mas que a gente espera que tenha um retorno rápido. Algumas coisas a gente pode fazer mais rapidamente, nem todas, mas muitas a longo prazo”, explicou Cristina.
Segundo ela, a transformação deverá ocorrer gradualmente.
“Aos poucos, o cidadão pode ir percebendo que, pouco a pouco, vai melhorando os serviços que a Prefeitura vai oferecendo.”
LGPD e segurança dos dados estão entre principais desafios
A integração de informações municipais também levanta uma questão fundamental: quem poderá acessar os dados dos moradores?
O projeto precisará cumprir a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e adotar mecanismos capazes de proteger informações pessoais e, principalmente, dados considerados sensíveis.
“Nós temos que nos preocupar com segurança”, ressaltou Cristina.
A equipe aponta como desafios a interoperabilidade entre sistemas utilizados por diferentes secretarias, segurança da informação, conformidade com a LGPD, integração de bases para desburocratizar processos internos e utilização das informações para decisões baseadas em evidências.
A própria qualidade dos dados fornecidos pelos cidadãos também será importante. Informações atualizadas e corretamente preenchidas aumentam a capacidade de o poder público compreender as demandas existentes em cada região.
“É uma filosofia que muda tanto dados, sistema, cidadão e assim por diante”, resumiu a pesquisadora.
Inteligência artificial faz parte do IntegraSanca
O projeto está organizado em seis grandes eixos: integração de dados, inteligência artificial, segurança e privacidade, capacitação de recursos humanos, inclusão e acessibilidade e fortalecimento do ecossistema de inovação local.
Além das universidades diretamente envolvidas, a iniciativa prevê articulação entre Prefeitura, academia, empresas e sociedade civil.
A rede inclui instituições como USP, UFSCar, ITA, UFAL, UFMG e IFSP, além de organizações ligadas ao ecossistema científico e tecnológico, entre elas a Embrapa e o Parque Tecnológico de São Carlos (ParqTec).
Quem coordena o projeto
A liderança científica do IntegraSanca é da professora Kalinka Branco, pesquisadora responsável perante a Fapesp e responsável pela área de cibersegurança.
Também integram a liderança científica Cristina Aguiar, na área de gestão e integração de dados; Adenilso Simão, em Engenharia de Software; e Ricardo Cerri, em Inteligência Artificial.
Pela Prefeitura de São Carlos, o projeto é conduzido por Cristiano Pedrino, responsável pela área de Tecnologia e Dados, com apoio de Anderson Escarabelo e da secretária municipal de Gestão Pública e Integração Governamental, Laurie Lubek.
Mais do que concentrar informações em uma única plataforma, o desafio do IntegraSanca será fazer com que dados que hoje estão espalhados pela estrutura municipal se transformem em decisões capazes de chegar à vida real.
Se funcionar como planejado, a tecnologia poderá ajudar São Carlos a responder perguntas que fazem parte do cotidiano da administração pública: onde faltam médicos, onde uma nova unidade de saúde é necessária, quais bairros demandam escolas, onde medicamentos são mais procurados e como reduzir filas e desperdícios.
É nesse ponto que milhões de registros armazenados em sistemas públicos deixam de ser apenas números e passam a ter uma finalidade muito mais concreta: melhorar os serviços utilizados diariamente pelos moradores de São Carlos.
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