A partir desta quinta-feira, 1º de outubro, uma câmera instalada na Rodovia Washington Luís (SP-310), em São Carlos, terá a ajuda da Inteligência Artificial para identificar possíveis infrações cometidas por motoristas. O sistema será capaz de auxiliar na detecção do uso de celular ao volante e da falta do cinto de segurança. A novidade, porém, abre uma discussão que vai muito além da rodovia: esse tipo de tecnologia deveria ser utilizado também nas ruas e avenidas das cidades?
Os equipamentos entram em funcionamento no km 236 da SP-310, nos sentidos norte e sul, em uma passarela na região do Jockey Clube.
As câmeras registram imagens em alta resolução de veículos em movimento e utilizam tecnologia para auxiliar na identificação de possíveis infrações.
Há, porém, uma diferença importante: não é simplesmente uma Inteligência Artificial decidindo sozinha quem será multado.
A Ecovias Noroeste Paulista é responsável pelos equipamentos, infraestrutura e manutenção do sistema. A análise das imagens fica sob responsabilidade da Polícia Militar Rodoviária (PMRv), que verifica se efetivamente ocorreu uma infração e, quando for o caso, realiza a autuação.
A concessionária não aplica multas.
Uma câmera capaz de identificar comportamentos dentro do veículo
A utilização da Inteligência Artificial pode mudar significativamente a capacidade de fiscalização no trânsito.
Durante décadas, verificar se alguém estava utilizando o celular ou deixando de usar o cinto dependia principalmente da presença e da observação de um policial ou agente.
Agora, câmeras instaladas em pontos estratégicos conseguem registrar veículos em movimento e sistemas computacionais podem auxiliar na identificação dessas situações.
Experiências semelhantes já estão sendo adotadas em outras rodovias brasileiras. A Polícia Rodoviária Federal, por exemplo, utiliza câmeras inteligentes capazes de identificar possíveis casos de motoristas sem cinto de segurança ou utilizando celular.
A tendência levanta uma questão inevitável: se funciona nas rodovias, essa tecnologia deveria chegar também às avenidas das cidades?
E se a Inteligência Artificial chegar às ruas de São Carlos?
Imagine equipamentos semelhantes instalados nas principais avenidas e cruzamentos de São Carlos.
Além dos sistemas utilizados atualmente para fiscalização de velocidade, avanço de sinal e outras infrações, câmeras inteligentes poderiam aumentar a capacidade de identificar determinados comportamentos sem que um agente estivesse fisicamente ao lado do veículo.
Do ponto de vista tecnológico, a fiscalização de trânsito caminha para um cenário cada vez mais automatizado e conectado.
Mas essa evolução também abre espaço para uma discussão que precisa envolver a sociedade.
Qual deve ser o limite da fiscalização por câmeras?
Uma Inteligência Artificial deve apenas selecionar imagens suspeitas para análise humana?
As cidades deveriam utilizar esse recurso em larga escala ou apenas em pontos considerados críticos?
Por quanto tempo as imagens deveriam permanecer armazenadas?
Quem poderia ter acesso aos registros?
Como garantir transparência sobre o funcionamento desses sistemas?
E como o motorista poderia contestar uma eventual identificação equivocada?
São perguntas que ganham importância à medida que a tecnologia avança.
Fiscalização por videomonitoramento já existe no Brasil
O uso de câmeras na fiscalização de trânsito não é uma novidade criada pela Inteligência Artificial.
A regulamentação brasileira já contempla a fiscalização por videomonitoramento, permitindo que determinadas infrações sejam constatadas remotamente dentro das regras estabelecidas pelos órgãos de trânsito.
A Inteligência Artificial acrescenta uma nova camada ao sistema: a capacidade de analisar grandes quantidades de imagens e apontar situações que merecem verificação.
No caso da câmera instalada na SP-310 em São Carlos, a tecnologia auxilia na fiscalização, enquanto a análise e a eventual autuação permanecem sob responsabilidade da Polícia Militar Rodoviária.
Mais segurança ou fiscalização excessiva?
É justamente neste ponto que começa o debate.
De um lado, sistemas inteligentes podem ampliar a capacidade de identificar comportamentos perigosos mesmo em locais onde não existe um policial permanentemente posicionado.
Também existe o possível efeito preventivo. Um motorista que sabe que determinada via possui equipamentos capazes de identificar o uso do celular pode pensar duas vezes antes de pegar o aparelho enquanto dirige.
Do outro lado, a expansão de uma rede de câmeras capazes de analisar comportamentos pode provocar questionamentos sobre privacidade, armazenamento de imagens, transparência, possibilidade de erros e direito de defesa.
Existe ainda uma discussão administrativa: onde instalar os equipamentos, quais infrações fiscalizar, quanto investir e quais critérios utilizar para definir os pontos monitorados.
A tecnologia oferece a ferramenta. A discussão sobre como e até onde utilizá-la pertence à sociedade.
Celular ao volante é infração gravíssima
Independentemente da discussão sobre a forma de fiscalização, as duas condutas que serão monitoradas na Washington Luís já são infrações previstas na legislação brasileira.
Utilizar celular enquanto dirige é infração gravíssima, com multa de R$ 293,47 e sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
A falta do cinto de segurança é infração grave, com multa de R$ 195,23 e cinco pontos na CNH.
Segundo dados da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), digitar uma mensagem mantém o motorista, em média, 4,5 segundos sem olhar para a pista. A 80 km/h, isso representa quase 100 metros percorridos sem atenção.
Ainda segundo a entidade, o uso do cinto nos bancos dianteiros pode reduzir entre 45% e 60% o risco de morte em acidentes. No banco traseiro, a redução varia de 44% a 75%.
Trecho entre São Carlos e Ibaté registrou 218 sinistros
A implantação da nova tecnologia ocorre em um trecho movimentado da Washington Luís.
Segundo levantamento da Ecovias Noroeste Paulista, o segmento entre os quilômetros 230 e 249, abrangendo São Carlos e Ibaté, registrou 218 sinistros entre janeiro e agosto de 2026.
As colisões traseiras permaneceram como o tipo mais frequente. Foram 191 ocorrências nos primeiros oito meses deste ano, ante 193 no mesmo período de 2025.
Segundo a concessionária e a Polícia Militar Rodoviária, o objetivo da nova tecnologia é ampliar a fiscalização, prevenir comportamentos de risco e contribuir para a segurança viária.
São Carlos abre uma discussão que pode chegar às cidades
Nesta quinta-feira, uma câmera instalada sobre a Washington Luís começa a utilizar Inteligência Artificial para auxiliar na identificação de duas situações bastante específicas: celular ao volante e falta do cinto de segurança.
Mas a tecnologia coloca diante de São Carlos e de outras cidades uma questão muito maior.
Se sistemas de Inteligência Artificial conseguem auxiliar policiais na identificação de comportamentos de risco em uma rodovia, deveriam ser utilizados também nas principais avenidas das cidades?
Mais fiscalização poderia contribuir para diminuir infrações e acidentes?
Ou uma rede cada vez maior de câmeras capazes de analisar o comportamento dos motoristas representaria um nível de monitoramento que parte da sociedade consideraria excessivo?
O São Carlos em Rede não pretende responder essa pergunta pelo leitor.
A proposta é justamente abrir o debate.
E você: é a favor ou contra o uso de câmeras com Inteligência Artificial para auxiliar na fiscalização de trânsito também nas ruas e avenidas de São Carlos?
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