João, o amigo que foi comigo aos bares de São Carlos e que o câncer levou

Algumas amizades nascem de um jeito tão simples que a gente nem percebe quando passam a ser parte da vida. Quando se dá conta, já estão misturadas nas nossas melhores memórias. João era assim. Não era apenas um amigo de infância em São Carlos — era daqueles companheiros que pareciam estar em todos os capítulos da vida.

Com ele, a cidade era maior.

Era com João que a gente ia ao cinema, muitas vezes mais pela aventura de sair de casa do que pelo filme em si. Era com ele que a gente pedalava sem destino pelas ruas, sentindo o vento no rosto e achando que o mundo era enorme e cheio de tempo pela frente. Aos domingos, às vezes aparecia um passeio qualquer, ou então uma parada para ver jogo do velho Grêmio São-carlense, daqueles que a gente assistia mais pela companhia do que pelo futebol.

João também estava nos bailinhos da juventude, naquelas noites em que a música parecia mais alta e o coração mais leve. Estava nas idas ao empório em frente da Praça Coronel Salles, onde sempre havia alguma conversa atravessada, uma risada inesperada ou um plano qualquer que provavelmente nunca sairia do papel.

E estava também no Café Concórdia e em outros bares da cidade, onde o tempo parecia passar mais devagar. A gente falava de tudo: política, sonhos, filmes, amores que começavam ou acabavam antes mesmo de virar história.

Houve também a fase das locadoras. Quem viveu sabe. Escolher uma fita de vídeo era quase um ritual. João era daqueles que ficava olhando as capas como se cada uma fosse uma promessa de aventura. Depois a gente voltava para casa, colocava a fita no vídeo-cassete — hoje peça de museu — e achava aquilo o auge da tecnologia. Hoje existe Netflix, streaming e mil opções. Mas nenhuma delas tem o cheiro das locadoras ou a alegria de decidir um filme com um amigo do lado.

O tempo passou, como sempre passa.

João foi estudar geologia. Era curioso com o mundo, com as pedras, com as camadas invisíveis da Terra. Depois veio a pós-graduação no exterior, uma conquista que todos nós acompanhávamos com orgulho. Ele voltou algum tempo depois. Parecia o mesmo João, com o mesmo olhar tranquilo, a mesma maneira calma de falar.

Mas havia algo que ele guardava em silêncio.

João estava doente. Câncer. E, como era do seu jeito, tentou esconder o quanto pôde. Talvez para não preocupar ninguém. Talvez porque algumas batalhas a gente enfrenta mais em silêncio do que em palavras.

Ontem, dia 5, João partiu.

Ainda tive a chance de vê-lo por vídeo chamada. Falamos um pouco, daquele jeito simples de sempre. Quem olha de fora talvez não perceba o valor desses momentos, mas quem tem um amigo de verdade entende: às vezes poucas palavras dizem tudo.

Ele acabou falecendo em São Paulo.

A notícia caiu como uma pedra no peito.

Uma tristeza imensa, dessas que não encontram explicação fácil. A sensação estranha de que alguém que sempre esteve ali, em tantos momentos da vida, simplesmente deixou de ocupar seu lugar no mundo.

Hoje ficou o silêncio.

A mãe dele, com a delicadeza de quem também carrega uma dor enorme, me pediu que em breve eu vá buscar algumas coisas nossas que ainda estão no quarto de João. Coisas da nossa juventude, imagino. Talvez alguma lembrança esquecida, talvez alguma fotografia, talvez algum pedaço de um tempo que já não volta.

Vai ser difícil abrir aquela porta.

Porque ali dentro, entre livros, objetos e memórias, vai estar a prova de que um amigo partiu.

João se foi.

Mas ficou nas ruas que percorremos de bicicleta, nos filmes alugados de última hora, nas conversas sem pressa nos bares da cidade, nos domingos de futebol e nas risadas que ecoam dentro da memória.

Algumas amizades não acabam.

Elas apenas passam a morar dentro da gente.