O Castelo Branco, em São Carlos, é um bairro cheio e causos e lá vivia uma jovem chamada Kelly. Seus olhos verdes, profundos como lagos esquecidos, pareciam enxergar além do mundo visível. Kelly não era como as outras garotas da sua idade. Enquanto suas amigas se preocupavam com festas, estudos e romances, Kelly carregava um segredo que a isolava: ela via espíritos.
Desde pequena, Kelly percebia que algo era diferente. Vultos surgiam nos cantos de seus olhos, sussurros ecoavam em seus ouvidos quando ninguém mais estava por perto. No início, ela tentou ignorar, achando que eram apenas frutos de sua imaginação. Mas, aos poucos, os fenômenos se intensificaram. Ela começou a ter premonições — visões rápidas e perturbadoras de eventos que ainda estavam por acontecer. Um dia, ela viu o cachorro da vizinha sendo atropelado horas antes de o acidente ocorrer. Outra vez, previu que a professora de matemática faltaria à aula, e assim foi.
Seus amigos, inicialmente curiosos, começaram a se afastar. Kelly tentou esconder seus dons, mas era difícil. Certa vez, durante uma festa, ela viu o espírito de uma mulher chorando no canto da sala. Sem querer, Kelly murmurou: “Ela está aqui…”. Todos olharam para ela, assustados. A festa acabou mais cedo naquele dia.
O bairro Castelo Branco, com suas ruas tranquilas e casas modestas, parecia um lugar comum, mas para Kelly era um portal. Os espíritos a seguiam, pedindo ajuda, contando histórias de vidas interrompidas. Alguns eram gentis, outros aterrorizantes. Kelly tentava ajudar, mas o peso de suas visões a consumia. Ela não sabia se seus dons eram uma bênção ou uma maldição.
Certa noite, enquanto caminhava sozinha pelas ruas desertas do bairro, Kelly teve uma premonição diferente. Desta vez, não era sobre alguém próximo, mas sobre ela mesma. Viu-se diante de um espelho antigo, em uma casa abandonada na rua das Rosária Caruso. No reflexo, seu rosto estava pálido, seus olhos vazios, e atrás dela, uma figura sombria se aproximava. A visão a deixou gelada.
Intrigada e temerosa, Kelly decidiu investigar. No dia seguinte, ela foi até a mesma rua e encontrou a casa abandonada. A porta estava entreaberta, como se a esperasse. Dentro, o ar era pesado, e o silêncio era cortado apenas pelo som de seus passos. No canto da sala, estava o espelho da sua visão. Era grande, emoldurado por madeira escura, com detalhes que pareciam se mover sob a luz fraca.
Kelly se aproximou, sentindo uma força invisível puxá-la. Quando olhou para o espelho, viu não apenas seu reflexo, mas também os espíritos que a seguiam. Eles estavam ali, atrás dela, dezenas deles, com rostos tristes, raivosos, desesperados. E então, a figura sombria da sua premonição apareceu. Era uma mulher de cabelos longos e negros, com olhos que brilhavam como brasas. Ela estendeu a mão, como se quisesse tocar Kelly através do vidro.
— Você é a ponte — sussurrou a figura, sua voz ecoando na mente de Kelly. — Você pode nos libertar.
Kelly sentiu uma onda de energia percorrer seu corpo. De repente, entendeu. Seus dons não eram apenas para ver ou prever, mas para ajudar aqueles que estavam presos entre os mundos. Ela era uma mediadora, uma guia para os espíritos perdidos.
A partir daquele dia, Kelly começou a aceitar seu dom. Aprendeu a controlar suas visões, a se proteger das energias negativas e a ajudar os espíritos a encontrarem paz. Seus amigos, aos poucos, voltaram a se aproximar, agora com respeito e admiração. O bairro Castelo Branco continuou o mesmo, mas para Kelly, ele nunca mais foi apenas um lugar comum. Era seu reino, seu portal, seu espelho entre dois mundos.
E assim, Kelly seguiu sua vida, equilibrando-se entre o visível e o invisível, sabendo que, por mais assustador que fosse, seu dom tinha um propósito. E, às vezes, quando olhava para o espelho, ela via não apenas seu reflexo, mas também o brilho de quem havia encontrado seu lugar no mundo — e além dele.
Este conto é uma obra de ficção
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