
Há músicas que a gente escuta. Outras, a gente sente. E existem aquelas que, por alguma razão misteriosa, conseguem abrir uma porta no tempo e nos devolver, por alguns minutos, a uma época em que a vida parecia mais leve, os sonhos eram maiores e a juventude tinha a doce arrogância de acreditar que seria eterna.
L’Amour Toujours, de Gigi D’Agostino, é uma dessas músicas.
Bastam os primeiros acordes para alguma coisa acontecer dentro da gente. Não é apenas uma lembrança. É uma sensação. É como se, de repente, estivéssemos novamente naquela noite de sábado, cercados de amigos, com o coração cheio de expectativas e a certeza de que ainda havia muito mundo pela frente.
A música começa, os olhos se fecham e o tempo recua.
Lá estamos nós. Mais jovens. Talvez mais ingênuos. Certamente mais despreocupados. O relógio não tinha tanta importância, o domingo parecia distante e ninguém queria saber a que horas a festa terminaria.
Havia uma liberdade que hoje parece difícil de explicar. Não porque o mundo fosse perfeito, mas porque ainda não conhecíamos todas as suas imperfeições.
A vida acontecia sem que sentíssemos a necessidade de registrá-la. Não havia celulares apontados para o palco, vídeos para publicar ou fotografias para provar que tínhamos sido felizes. Simplesmente éramos.
Dançávamos porque a música era boa. Abraçávamos os amigos porque estavam ali. Apaixonávamo-nos sem pensar nas consequências. E, quando aquela melodia começava a tocar, parecia que alguma coisa extraordinária estava prestes a acontecer.
Talvez fosse um beijo. Talvez uma paixão que duraria apenas algumas semanas. Talvez uma amizade que sobreviveria às décadas. Ou talvez não acontecesse absolutamente nada, além da própria felicidade de estar vivo.
E isso bastava.
O curioso é que L’Amour Toujours não envelheceu. Nós envelhecemos.
Os cabelos mudaram, os rostos ganharam marcas, algumas pessoas desapareceram dos nossos caminhos e outras partiram para sempre. As responsabilidades chegaram, os boletos também, e aquela juventude despreocupada foi dando lugar à vida adulta, com suas urgências, seus compromissos e suas inevitáveis despedidas.
Mas a música permaneceu.
E quando Gigi D’Agostino faz aquela melodia crescer, alguma coisa dentro do peito também cresce. É uma alegria misturada com saudade. Uma vontade de sorrir e, ao mesmo tempo, de chorar por tudo aquilo que passou depressa demais.
Porque a saudade não é apenas das pessoas ou dos lugares. Muitas vezes, é de quem nós éramos.
Sentimos falta daquele rapaz que acreditava ter todo o tempo do mundo. Daquela menina que dançava sem imaginar as dificuldades que enfrentaria. Dos amigos reunidos numa pista de dança, sem perceber que um dia aquela turma inteira talvez nunca mais estivesse junta.
Ninguém avisou que estávamos vivendo momentos que, décadas depois, seriam preciosos.
Ninguém disse que aquela poderia ser uma das últimas noites em que todos estariam ali.
E talvez tenha sido melhor assim. Se soubéssemos, teríamos passado a noite tentando guardar cada segundo, em vez de simplesmente vivê-lo.
Hoje, quando L’Amour Toujours toca, a gente entende uma coisa que a juventude não conseguia compreender: a felicidade raramente anuncia sua chegada. Ela simplesmente acontece. E só muito tempo depois percebemos o tamanho que teve.
Aquela noite acabou. A discoteca fechou. As luzes se acenderam. Cada um seguiu seu caminho.
Mas existe um lugar onde a festa continua.
Um lugar onde os amigos ainda estão reunidos, os amores ainda são possíveis, os joelhos não doem, o coração não conhece tantas cicatrizes e o futuro continua sendo uma promessa maravilhosa.
Esse lugar se chama memória.
E Gigi D’Agostino, com alguns acordes, parece conhecer exatamente o caminho para chegar até lá.
Talvez seja por isso que L’Amour Toujours aqueça tanto o coração.
Porque, durante alguns minutos, não importa quantos anos se passaram.
Somos jovens outra vez.
E aquela noite, finalmente, nunca termina.






