Lenda Urbana: A casa amaldiçoada da rua Major em São Carlos

Velas no meio da área

ESSA É UMA OBRA DE FICÇÃO

 

Eram 23h59 quando seu celular tocou o despertador. Uma luz entrecortada invadia seu quarto numa casa antiga na rua Major José Ignácio, logo depois do Bar Vitória. Ele tinha vindo de Pindamonhangaba para São Carlos, cursou Psicologia na UFSCar e resolveu ficar. Abriu um consultório na região da Santa Casa e já tinha uma rotina estabelecida: casa-consultório e vice-versa. Foi acordado por aquele despertar inesperado do celular. “Não programei nada, o que aconteceu?”, disse Adalberto ainda com muito sono e bocejando.

 

Sentou na cama, pegou o celular e viu ele havia sido programado para despertar às 23h59 da quinta, 12 de setembro de 2019.  Levantou e foi até a cozinha tomar um copo de água gelada, afinal fazia muito calor e a noite tinha um luar cheio e claro.

 

Abriu a geladeira, encheu o copo e começou a beber. “Ah, que água fresca!”

 

Nesse momento percebeu pela porta da sala que era de vidro que na área de sua casa havia uma luz que não era habitual. Ficou medo, mas resolveu abrir a porta, pois era muito estranho aquela claridade, afinal somente a luz de segurança acendia à noite por causa de um sensor de barreira.

 

Foi até a área e a única coisa que podia fazer era abrir a boca. Olhou para o lugar e achou tudo muito estranho, haviam velas distribuídas meticulosamente em formato de cruz, todas acesas no piso. A primeira impressão é que poderia ser uma peça, alguém querendo lhe aplicar um golpe, uma sacanagem de amigos (ele tinha vários bastante espirituosos e capazes dessas coisas), mas quando olhou para a parede viu que havia uma escrita com um líquido vermelho que, para seu azar, até poderia ser sangue.

 

Pensou em chamar a polícia, mas ainda estava convencido que era uma brincadeira apenas para assusta-lo e foi ler o escrito da parede. Letras tortas, mal feitas, escreveram a seguinte frase: “Saia da minha casa!”

 

Adalberto continuou olhando para tudo e resolveu subir a escadinha que dava na sala e, talvez por instinto, começou a acender todas as luzes da residência. Seus pelos estavam arrepiados, ele tinha sua fé, mas naquele momento temia, não sabia se era uma zoeira, se era real, se estava presenciado um contato com o outro mundo.

 

Ele entrou na cozinha, pegou mais água e se sentou, ainda queria refletir sobras as velas acesas e em formato de cruz. Deu mais uma “golada” na água e escutou um barulho. Do nada, as portas do seus armários antigos (móveis velhos eram sua paixão) se abriram e suas louças começaram a voar pelo cômodo. Pratos, chaleiras, tigelas, coisas que havia ganhado de sua  mãe lá de Pinda se quebravam sozinhas na parede. Pronto!  Adalberto tinha a certeza que havia um contato imediato com o outro mundo. Durante o ataque se escondeu embaixo da mesa, tentou sair da sala, mas a porta se fechou, por isso correu para baixo do móvel e ficou observando seus pratos se quebrarem.

 

Quando a barulheira parou, Adalberto resolveu sair. Ergueu a toalha para dar uma espiada e viu que do escorredor de pratos que estava em sua pia facas e garfos ganharam vida e vieram sua direção. Rapidamente, ele se escondeu novamente embaixo da mesa e viu sua toalha ser arrancada. Seus garfos e facas todos ficaram espetados no assoalho de madeira que a casa antiga tinha.

 

Adalberto percebeu uma bandeja no chão, a pegou e começou a usá-la de escudo, mas não foi atacado, ele tentou correr para a porta da cozinha, mas quando colocou a mão na maçaneta ela estava quente como o fogo do inferno, não conseguia sequer encostar na peça de metal.

 

A ideia? Quebrar um vidro e pular pela janela antiga. O amassador de feijão serviu para bater no vidro, ele se espatifou e quando Adalberto subiu na pia para tentar ganhar o quintal viu que ele havia sido tomado por aquela planta chamada Coroa de Cristo, ou seja, se ele pulasse ali iria ficar todo machucado. “Mas como isso, meu quintal nunca teve essa planta, apenas grama e o limoeiro que fica lá no fundo!”

 

Encurralado, Adalberto sentiu uma luz vermelha com fumaça sair de sua geladeira, a porta batida como se fosse uma boca falando com ele, tudo o que estava dentro foi jogado para o chão, o psicólogo não sabia o que fazer e se lembrou que já era sexta-feira.

 

Pegou seu celular e viu uma mensagem de whatsapp de um número sugestivo: 666. O que dizia? “Hoje você morre, doutor!”

 

Adalberto pulou da pia para o chão, saiu correndo e levou a portinha sanfonada que separava a cozinha da sala no peito. Chegou no outro cômodo e lá as velas que estavam na área haviam se transformado em grandes labaredas e a fumaça começava a tomar conta de sua casa.

 

Ligou 193, não dava linha. Ligou para a namorada Juliana e não conseguia falar. O fogo começou a invadir a sala, a comer seu tapete, suas cortinas, a queimar seus eletrônicos e Adalberto olhou para a escada que ia para o segundo andar e de repente visualizou uma moça ruiva, com uma camisola branca sorrindo para ele. “Quem é você?  O que está acontecendo? O que estou fazendo aqui?”

 

A moça correu, Adalberto foi atrás, nem ligou que saiu chamuscado do fogo. Sua ideia era achar a moça e pular do segundo andar para a rua com ou sem fogo. Entrou no seu quarto e a jovem estava calmamente sentada em frente de uma penteadeira que nunca fez parte da mobília do psicólogo escovando seu próprio cabelo. Quando Adalberto olhou para a imagem da jovem refletida no espelho, uma luz fortíssima entrou no quarto e depois disso ele viu o reflexo de uma mulher enforcada no espelho.

 

A doce jovem apenas lhe olhou, tinha olhos vivos, mas uma cor pálida, uma camisola branca, alva como a neve e um cabelo de fogo. “Me ajude, vamos todos morrer aqui!”

 

Quando disse morrer, Adalberto notou que ela parou de se escovar. A jovem se virou e começou a falar: “Ora, ora, ora, temos um ´Xeroque Holmes´ aqui? Como morrer? Já morremos amigo, eu morri em 1929, neste local aí onde está você! Tirei minha vida, era vítima de um pai que judiava de mim, que não me deixou estudar e que disse que filha sua era apenas para cuidar da casa e lhe dar netos! Fui egoísta, fui sim! Mas acabei com meu sofrimento, só que estou presa aqui e preciso que alguém vá à minha sepultura numa sexta-feira 13 e reze um rosário para minha alma se libertar! Você seria capaz?”

 

Suando frio Adalberto, sentia o cheiro do fogo e da fumaça entrando no quarto e não acreditava que ouvia aquilo da jovem. Mas como estava numa situação extremamente delicada resolveu dar seu sim. “Irei, faço qualquer coisa para sair daqui, agora vamos pular pela janela!”

 

A ruiva se levantou  calmamente e foi até Adalberto, segurou suas mãos, ignorou a fumaça e lhe deu um beijo. Quando seu lábio foi tocado pela ruiva, Adalberto sentiu como se tudo estivesse rodando, como se um veneno corresse por seu corpo e do nada despertou. “Mas que raio aconteceu!?”

 

Estava em sua cama, completamente suado e foi acordado pelo seu despertador. Ainda era quinta, 23h59, do dia 12 de setembro. Ao seu lado estava um terço, igual aquele que era de sua avó Pina e não o azul que sua mãe havia lhe dado.

 

Na sexta 13, logo cedinho, não foi ao consultório, depois de uma noite em claro e de beber quase uma garrafa de pinga de Salinas sozinho, Adalberto, de ressaca, foi à Fundação Pró-Memória ver se havia algum registro sobre a casa e ele descobriu que ali havia morado a família Werner e que os fatos contados pela jovem Jesuíta Werner eram verdadeiros. Seu pai, um famoso industrial, não se conformou com o suicídio da filha e simplesmente se matou tomando veneno de rato, mas antes disso ele envenenou toda a família. A casa onde Adalberto morava era deles, mas nos anos 60 havia sido comprada por proprietários que hoje residem em SP e sempre a alugam.

 

Registros sobre esse tipo de manifestação de outros casos como seu? Adalberto não achou nenhum.

 

Inconformado com tudo, ele foi até o cemitério Nossa Senhora do Carmo, procurou pela sepultura de Jesuíta Werner e a encontrou. A morte da garota se deu aos 18 anos no dia 13 de setembro de 1929.

 

Sem rezar pesadamente há algum tempo, Adalberto abriu o celular, achou o rosário e fez sua oração. Saiu do cemitério em paz. Tomou um café na padaria e resolveu tirar o dia de folga.

 

Foi para a sua casa e quando chegou viu que realmente não havia nada desarrumado. Resolveu regar a grama e o limoeiro que estavam no quintal e quando abriu a porta encontrou uma surpresa: uma lindo pé com rosas vermelhas havia nascido ali misteriosamente e o perfume das flores entrava diretamente em sua cozinha.

 

Por Renato Chimirri

 

Imagem de Katie Phillips por Pixabay