
Dizem que na Vila Nery há um espírito que bate no rosto das pessoas que abrem sua janela na madrugada.
Algumas pessoas mais antigas contam que era comum se dizer no bairro que não se deveria abrir a janela depois que todo mundo tivesse dormido.
Num esforço de reportagem conseguimos conversar com uma senhora, aqui vamos chamar de Dona Celina, hoje com 70 anos, que diz que ter levado um tapaço numa dessas noites frias dos anos 60 em São Carlos. “Lembro que fazia muito frio, uma noite de julho, ano de 63, havia chegado de uma festa!”
Celina conta que naquela noite participou do aniversário de sua prima Suzana que aconteceu numa casa da 7 de Setembro. “Meu pai foi quem me levou ao aniversário da Suzaninha, isso era umas 18h30, ficamos na festa até perto das 21h30, estávamos entre amigos e amigas, além dos parentes”, disse.
Ela diz que depois seu pai foi embora sua tia assumiu o compromisso de deixa-la em casa. “Minha tia me levou como o combinado, quando cheguei meu pai estava com minha mãe e meu irmão Alfredo na sala, eu entrei, eles se despediram da minha tia e todos fomos dormir, tinha aula cedinho no outro dia”, conta.
Naquela época, Celina conta que os invernos eram muito rigorosos e que ao entrar no quarto sentiu um ar gelado e que lembrou de uma conversa que havia ocorrido a festa. “Diziam que era para você não abrir a janela e ir espiar depois das 22h porque você se arriscava a tomar um tapa na cara de alguma força sobrenatural, que as almas não nos perdoariam, achei bobeira”, diz.
Questionamos Celina se ela teve a coragem de fazer isso, visto que São Carlos tem diversas lendas urbanas como a Menina que dançou com o Diabo, o Corpo Seco e muitas outras que mesma disse que conhecia e ela na hora recordou: “Foi só colocar o pijama que sai correndo e fiquei uns cinco minutos olhando pela janela e ouvindo o vento batendo forte nas folhas, coloquei a mão na janela, pensei, pensei e corri o trinco, quando abri, foi aquele tapa, tomei uma espécie de soco, até sentei na cama! Chorei!”
Celina recorda que deu um grito e que todo mundo da casa foi até seu quarto e que seu rosto ficou completamente marcado pelo tapa. “Estava vermelho, ficou uma marca, meu pai que era um homem muito ativo saiu no quintal com um farolete para procurar quem havia me agredido, mas nada achou, um frio maldito! Contei para a minha prima Suzana o que havia acontecido e ela não acreditou, falou que eu estava mentindo, queria que existissem as tais câmeras como hoje e isso teria sido gravado”, diz.
Ela explica que hoje durante à noite não abre mais janelas e para a saciar a nossa curiosidade descobrimos que na região do Campo do Ruy havia um cemitério, contamos isso para Dona Celina e confirmou a história. “Eu sabia disso, para mim foi alguma alma penada, gozado que algumas outras pessoas daquela época contam que também levaram tabefes ao abrir a janela de suas casas e o costume de se falar isso entre as pessoas começou”, contou.
Sobre cemitérios, descobrimos que o Nossa Senhora do Carmo foi inaugurado em 1890, ele foi o terceiro da cidade e o mais antigo em atividade, hoje com estimativa de 30 mil sepulturas e 200 mil pessoas enterradas. Antes dele, São Carlos já teve dois outros espaços, um no terreno onde hoje está a Igreja São Benedito e outro na Vila Nery, atual Campo do Ruy, conforme relatamos.
O fato é que contar mais essa lenda são-carlense é sempre gratificante. Quem souber de outras, entre em contato com o site.
Por Renato Chimirri









