Livro-reportagem sobre a tragédia de Mariana, em Minas Gerais

A tragédia de Mariana, em Minas Gerais no dia 5 de novembro de 2015, comoveu a jornalista equatoriana Sabrina Duque. Para ela, o desastre não recebeu a tal importância pelos meios de comunicação, apesar da magnitude dos acontecimentos, por isso, ela escreveu um livro de crônicas.

Em entrevista ao ‘Pensar’, a escritora equatoriana fala do desafio em relatar um Brasil além do eixo Rio-São Paulo: Creio que este outro Brasil segue sendo pouco conhecido e o país, aos olhos de um estrangeiro médio, não passa de um cartão-postal, um país homogêneo, festeiro, futebolista”. Além disso, ela falou da convivência com os moradores de Bento Rodrigues e da dificuldade dos países latino-americanos em criar leis mais rígidas para evitar que ocorram novos desastres.

Conforme Sabrina o interesse surgiu quando o seu orientador estava em Mariana. O professor morava lá e tinha falado com tanto carinho da cidade: “na minha cabeça era um lugar idílico”. Após saber sobre a tragédia  ela passou um ano e meio lendo as notícias sobre o tema e viajou até a cidade, conta: “Viajei a Mariana para investigar, conversar, visitar as ruínas e tentar entender o que estava se passando com as pessoas naquele momento e contrastar essa realidade com as lembranças do que havia sido suas vidas antes do desastre”.

Perguntada sobre as histórias dos personagens terem revelado a ela: “Muitas coisas. Sobre o ser humano e sobre o planeta. A dor de perder uma vida inteira, ainda que permanecendo vivo; a coragem de recomeçar, ainda quando se está nos últimos anos da vida; a importância do cuidado com o meio ambiente.”.

Segue um trecho do primeiro capítulo de ‘Lama’, ainda inédito no Brasil

Capa do livro Lama, de Sabrina Duque.

“As piores tragédias da indústria da mineração se leem como um ensaio sobre a claustrofobia. Na maior parte dos casos são histórias sobre homens aprisionados sob a superfície, mineiros aos quais podemos imaginar em uma caverna escura e úmida, rezando para que o socorro chegue antes que lhes acabe o oxigênio ou que desmorone o túnel. Mas, o acidente mais grave da história da mineração no planeta ocorreu sob um sol brilhante, com um céu límpido, quando uma enorme corrente de lama atravessou montanhas e, aproveitando-se do leito dos rios, cobriu duas cidades em menos de três horas para se derramar, dias mais tarde, no oceano Atlântico, depois de arrastar pessoas e vacas, porcos, cavalos, cachorros, gatos, galinhas, patos, peixes, sapos, pássaros, larvas e milhares de espécies vegetais endêmicas de dois estados brasileiros: Minas Gerais e Espírito Santo. (…) Os rios morrem em longas agonias, depois de décadas de maltrato, como o Ganges na Índia, abrumado de cadáveres em decomposição, ou o Salween, no sudoeste asiático, repleto de metais pesados e abandonado pelos peixes. Quando um rio chega ao ponto em que não há mais peixes, mais algas, mais nada, passou tantos anos apodrecendo que há tempos era visto como um cadáver em vida. O rio Doce teve morte súbita”.