Lugar de escuta

Atentado chocou o Brasil/Imprensa do Povo/Divulgação

A expressão ‘lugar de fala’ tem sido muito corriqueira, muito frequente. Esse lugar é compreendido como um situar-se, saber que espaço ocupa, para então falar e posicionar-se. Os espaços são vários. Um exemplo: um homem trabalha numa empresa, tem uma família, tem filhos, tem pais já idosos e, como lazer, joga bola com amigos. Ele é um só? Não, ao longo do dia, ele ‘veste’ vários papéis sociais. E suas falas irão se modificar conforme a situação vivida: ele falará de uma forma com os filhos, de outra forma com o chefe da seção da empresa, de outra forma com seus pais e, de outra, ainda, com seus parceiros de bola. Ele será considerado um falante eficiente se conseguir se adequar às situações e às pessoas, comunicando-se e fazendo-se entender. Mas o lugar de fala tem carregado outro sentido, digamos, menos tranquilo: a pessoa passa por episódios de opressão, de desrespeito, nos quais é preciso se afirmar. Exemplificando: mulheres têm de ter, de conquistar, seu lugar de fala para denunciar que estão ganhando menos do que os homens numa mesma função, que são objetificadas e alvos de assédio, que são vítimas de violência doméstica… e tantas outros descompassos.

                Para a estudiosa – semioticista − Clotilde Perez, ‘lugar de fala’ é uma posição a partir da qual a pessoa se coloca e se apresenta no mundo. Quem é, de onde vem, como sua trajetória se fez, quais valores a movem. Resumindo: qual é sua história e seus desdobramentos. Mostra como funcionam sua bússola e sua ampulheta.

                Falei de Semiótica, uma ciência que lida com algo essencial: os signos São tantos e tantos, a humanidade os emprega fartamente no dia a dia, conferindo a algo um significado, um valor ou um sentido. Exemplo: o semáforo orienta o trânsito, mas seria somente um jogo de cores se não fosse antes convencionado, aprendido, o que cada cor indica, significa.

                Há também os chamados índices, que apontam para os respectivos significados. Destes índices, advêm os indícios. Médicos e Profissionais de Saúde têm um conhecimento específico e sabem, depois de muito estudo e empenho, compreender bem os indícios, os sinais, das condições dos pacientes. E há uma ajuda preciosa: os sintomas que os pacientes relatam, como dor, tontura, ardume, enjoo… Estes são de caráter subjetivo e contribuem para fechar o diagnóstico.

 E, finalmente – neste texto, porque é um assunto cativante, de prismas infinitos −, o signo verbal. Sim, a fala e a escrita. Cada povo apreendeu seus significados e os representou com palavras. Ou ainda com gestos, na cada vez mais conhecida LIBRAS, a língua de surdos-mudos.

                Mas, por que essa introdução falando de comunicação, essa ênfase nos signos? Porque tudo isso envolve aprendizado, tempo. E vou falar da infância, fase em que ‘não deu tempo, ainda’ para o domínio da comunicação. Esse saber demanda tempo, é construído aos poucos, num acumular-se de pequenos saberes, no dia a dia.

                Na espécie humana, a dependência dos bebês para a sobrevivência é a que mais se alonga dentre as espécies, com estudos apontando um período de cerca de cinco anos. Nós nos impressionamos com o nascimento de bebês girafas, quando as mães os empurram para ficarem em pé e já andarem. E conseguem.

E nossas crianças? Estamos sendo frequentemente informados de atrocidades contra elas. Juntando sua enorme dependência, biologicamente determinada, e seu pouco – e, aos poucos, construído – domínio da comunicação, como ficam seus lugares de fala?

                Elas precisam de proteção e cabe aos adultos oferecer-lhes todas as condições para um desenvolvimento saudável. Temos, enfim, de nos empenhar e sermos lugares de escuta das crianças. Uma juíza afirmou, uma vez, que, de todas as iniquidades impingidas, as maiores vítimas são as crianças, porque elas não têm escapatória, elas não têm voz.

                Assim, temos de aprender a ouvi-las, mesmo que as frases sejam curtas e aparentemente sem significado. Ninguém fala à toa, até um simples ‘Bom dia’ guarda uma finalidade. E temos de aprender também os sinais não verbais que as crianças tentam passar, interpretando-os, como uma inquietude, uma retração, um tom diferente ao falar.

Dois irmãos, segundo denúncias, eram maltratados pelo pai e pela madrasta. Conselho Tutelar em ação! Tirou-os do espaço de opressão. Passa um tempo e o mesmo Conselho Tutelar − em Inação! – devolve os meninos para o ‘lar’ canhestro. Chamou muito a atenção, na época, o apelo desesperado deles para não voltarem. O final deles foi trágico e definitivo. Cadê o lugar de escuta? Bússola apontando para uma direção fatídica e uma ampulheta precocemente interrompida.

Uma menina de seis anos é maltratada pela mãe e pela companheira da mãe. É salva, mas não deu mais tempo. Cabe uma reflexão: o que faz de uma mulher uma mãe? Parir? De forma alguma. O que torna uma mulher uma mãe é o cuidado que tem com seu ou sua bebê, acompanhando atentamente seu desenvolvimento ao longo do tempo, amparando, ensinando, protegendo, tentando preparar o filho e a filha para o mundo. Bússola órfã, ampulheta partida.

                Um menino cai do nono andar de um prédio. Estava sozinho? Não. Mas a qualidade da atenção da pessoa responsável por ele foi, no mínimo, pífia, beirando o desumano. Ela não entendeu que ele estava deslumbrado com uma novidade e não viu a necessidade de pegá-lo firmemente pelo braço e oferecer-lhe uma atividade atrativa, segura. Abandonou-o. Para piorar, há um possível viés de racismo. E a mãe fiou-se em que ele estaria bem. Bússola apontando para o duro chão, ampulheta que não escoa mais.

                Crianças, principalmente cariocas, têm perdido a vida atingidas por balas perdidas. Há tiroteios e as balas ‘acham’ suas vítimas. O barulho dos embates faz com que entrem todos em casa. Mas até ali as balas ‘acham’. E são colocadas as fotos das crianças vítimas, todas sorridentes, sonhos tolhidos, e pais, mães, todos desnorteados. Mãos atadas, pois quem deve proteger muitas vezes é quem fere. É tragédia que se anuncia ao longe, em estampidos. Bússola com a agulha feito biruta ao vento, ampulhetas espatifadas.   

             Um menino de quatro anos chega morto no hospital, trazido por uma mãe meio esquisita, deslumbrada com seus preenchimentos labiais, seu cabelo impecável… O padrasto do menino, junto, apressado com a burocracia do hospital, do IML. Aí, tinha… Sim, os indícios de que falei: não eram sinais de uma queda singela da cama, mas de contundentes golpes. Mas notem que o menino falou e deu sinais – enjoo, vômito, recusa… − que o padrasto, o ‘tio’, batia, apertava, dava pernadas… E falou para seu pai, sua mãe, sua babá… Que angústia deve ter sentido por não ser entendido e não ser afastado do violento padrasto e da cúmplice amalucada, sua mãe. Bússola frívola e ampulheta com areias de purpurina.

                 E, aparvalhados, temos notícias de Santa Catarina, da cidade de Saudades. Há pontos a serem esclarecidos. Provavelmente, alguém vai considerar o assassino uma pessoa com problemas mentais. Há um porém, muito bem explicado pela Psiquiatria Forense: o planejamento do ato tira-lhe a qualidade de surto psicótico, no sentido de algo pontual, crítico, agudizado. Ele planejou. Comprou os instrumentos de ferir por meio eletrônico. Há pessoas más.

                Falei de símbolos concretos, por meio de cores, sons, gestos, sinais… que são passíveis de serem percebidos, entendidos e interpretados. Mas há nebulosas, como este último caso. Ninguém imaginou que aquilo fosse possível de acontecer, pois foi algo realmente inacreditável.

                 Voltemos à rede necessária, essencial, de proteção às crianças. Elas têm um grau de vulnerabilidade tão alto que situações escabrosas como estas têm de ser colocadas como possibilidade, há de se antecipá-las. Assim foi no Rio de Janeiro, no bairro Realengo, quando um ex-aluno foi fazer uma ‘palestra’. Ou em São Paulo, naquela escola em que também ex-alunos desferiram golpes mortais. Eles se valeram de certa ‘camaradagem’: ‘Olha só, que beleza, ex-alunos vêm visitar a escola…’. Também, em Saudades, cidade de dez mil habitantes, o assassino se valeu do ‘Aqui, todo mundo conhece todo mundo…’. Temos de, infelizmente, para o bem de nossas crianças, desconfiar antes.  Temos de cultivar lugares de escuta, praticando-os. Temos de colocar nossas crianças em fortalezas seguras. Não, nada sufocante, mas com controle sério e rigoroso de entrada, permanência e saída. E por quê? Como a frase de um programa voltado para a infância alerta: vidas não têm preço ou custo. Vidas têm valor.

                 Temos, enfim, de entender os sinais que as crianças dão e aprender que há também silêncios ensurdecedores nas situações nebulosas. Para que Saudades seja apenas o nome de uma cidade e não o sentimento doído dos que ficam, daqueles que não souberam escutar suas crianças, que não desconfiaram dos silêncios ou que, impotentes, não puderam se antecipar a tragédias.

                Em tempo: há heróis e heroínas que se interpõem às crianças, protegendo-as e morrendo por elas. Daí, não há silêncio: há um acorde angelical de valentia, coragem e entrega que ecoa até o infinito.

Zelinda Martins, 56 anos, Odontóloga não atuante, Mestre em Língua Portuguesa e Revisora de textos em Português. Observadora do mundo.