
Durante mais de três décadas, enquanto o mundo mudava diante das telas, uma mulher decidiu não apenas assistir à história, mas guardá-la. Marion Stokes (1929–2012), bibliotecária, ativista e arquivista norte-americana, dedicou a vida a um projeto tão silencioso quanto extraordinário: gravar ininterruptamente a programação da televisão dos Estados Unidos.
A iniciativa começou em 1979 e só terminou com sua morte, em 2012. Movida pela desconfiança na mídia tradicional e pelo desejo de preservar registros que, segundo ela, poderiam ser distorcidos ou simplesmente apagados com o tempo, Marion montou um verdadeiro sistema de vigilância doméstica da história. Em alguns períodos, chegou a utilizar até oito aparelhos de TV e videocassetes funcionando 24 horas por dia, captando noticiários sem interrupção.
Ao longo dos anos, ela acumulou mais de 70 mil fitas VHS e Betamax, o que pode representar cerca de 800 mil horas de gravações. O acervo reúne mais de 30 anos de cobertura jornalística, incluindo eventos marcantes como a crise dos reféns no Irã, a queda do Muro de Berlim, eleições presidenciais e os ataques de 11 de setembro de 2001.
Especialistas acreditam que Marion Stokes tenha criado o maior arquivo pessoal de notícias de televisão do mundo. Sua intenção não era apenas armazenar imagens, mas preservar versões originais dos fatos, permitindo comparações futuras sobre como a mídia moldou a percepção pública ao longo do tempo.
Após a morte de Marion, todo o material foi doado ao Internet Archive, organização sem fins lucrativos responsável por preservar conteúdos digitais. Desde então, o acervo passa por um longo processo de digitalização, com o objetivo de disponibilizar as gravações gratuitamente ao público, beneficiando pesquisadores, historiadores e jornalistas.
A história e a dedicação quase obsessiva de Marion ganharam reconhecimento internacional com o documentário “Recorder: The Marion Stokes Project”, lançado em 2019, que apresenta os bastidores de sua vida e a dimensão do legado deixado.
Hoje, a coleção de Marion Stokes é vista como uma cápsula do tempo inestimável, um retrato fiel de como a televisão narrou — e influenciou — a história contemporânea durante mais de três décadas.
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