Médico conta como é tratar de pacientes com COVID-19 internados na UTI em São Carlos

Médico falou com o São Carlos em Rede

O médico intensivista Marcus Bizzarro conversou com a reportagem do São Carlos em Rede sobre a pandemia de COVID-19 na cidade, bem como passou aos leitores suas impressões sobre este que é um dos momentos mais complicados da história do município, do Brasil e do resto do mundo. Acompanhe os principais trechos:

 

São Carlos em Rede- Como intensivista, qual a sua impressão sobre a COVID-19, o que você observa quando cuida de um paciente?

Marcus Bizzarro- Como intensivista temos muitas informações sobre a evolução dos pacientes em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). São pacientes que tem um tempo de internação mais prolongado do que o habitual, mesmo em comparação com pacientes que tem Síndrome Respiratória Aguda Grave causada por outras doenças, a COVID-19 é diferenciada em função dessa permanência maior na UTI, porém fora esse período de internação as outras complicações de um tempo prolongado na UTI aparecem e precisamos, por exemplo, usar medicamentos para controle de pressão, pelo menos 30% acabam com insuficiência renal precisando de hemodiálise, esse paciente carece de muitos cuidados e de uma equipe preparada e habituada a cuidar de pessoas em estado crítico. Um aspecto importante é a comunicação com os pacientes e suas famílias, normalmente a pessoa que recebe o contato sobre o internado está contaminado em quarentena na sua casa e tem seu ente querido acamado, por isso precisamos manter o contato por meio de telefone e outras formas de comunicação, sem o contato pessoal e isso é muito angustiante para a família e para nós médicos e acredito que este seja o aspecto mais duro de todos para os intensivistas hoje em dia, pois recebemos um paciente que ficará 100% sob nossos cuidados e sem acesso de sua família, então se faz fundamental uma relação de confiança grande. Trabalhamos sempre nesse sentido e com muito apoio e integração de nossa equipe de profissionais.

 

São Carlos em Rede- Como médico, você acredita que voltaremos a ter uma vida normal depois da pandemia? Você  acha que isso ainda vai demorar muito?

Marcus Bizzarro- Olha, como médico acredito que enquanto não houver vacina não teremos uma vida normal, especialmente do ponto de vista dos hábitos voltarem a ser como antes. Já está acontecendo uma mudança no comportamento das pessoas perante às relações pessoais e de afeto, teremos pacientes curados da fase crítica do COVID-19, mas que terão sequelas dessas internações como a já citada insuficiência renal ou uma capacidade pulmonar diferente, eles poderão precisar usar oxigênio por algum tempo em casa, enfim, achar que a nossa será normal é impossível nesse momento.

 

São Carlos em Rede- Você tem medo de se contaminar com o vírus? Quais seus cuidados para poder trabalhar?

Marcus Bizzarro- Tenho receio de me contaminar com o vírus, mas em qualquer lugar. Falo sempre para minha esposa e os meus filhos sobre essa situação de lidar com os pacientes, mas posso assegurar que estou num ambiente privilegiado, pois trabalho no hospital da UNIMED onde tenho acesso a todos os equipamentos de proteção individual e o ambiente é rigidamente controlado. O risco que tenho de contrair o vírus é na rua, dentro do hospital o risco, com esse local de trabalho extremamente preparado é baixo, tanto que lidamos há mais de um mês com pacientes contaminados pela COVID e não tivemos nenhum profissional que tivesse adquirido o vírus. O receio tem que ser o tempo todo, pois ele aumenta nossos cuidados como usar a máscara, higienizar as mãos com grande frequência, tenho medo de ficar doente, não há dúvida, sou parte do grupo de risco, eu vi os pacientes doentes, mas tomando as precauções necessárias não há porque ficar com paranoia. Existem as formas de precaução, basta fazer.

 

Qual a sua avaliação sobre a política de flexibilização adotada pelo Governo do Estado em plena curva ascendente dos casos?

Marcus Bizzarro- Na minha opinião, a flexibilização veio ainda num momento ruim, para mim essa decisão foi precoce, temos números diferentes entre o interior e capital de São Paulo, no entanto, o Estado de São Paulo e São Carlos estão padecendo pela falta de um governo central, acredito que o governador de SP seguiu as orientações técnicas no momento em que foi preciso, aqui em São Carlos em determinados momentos tivemos um isolamento social precoce e até o mês passado colhemos um bom reflexo disso, mas como os governos estadual e municipal por conta da falta de apoio do governo federal não tinham mais como conter os danos sociais e econômico houve essa flexibilização, isso é compreensível, mas não era o desejável. Estou apreensivo neste momento com a situação de São Carlos, hoje os leitos de UTI da Santa Casa estão lotados (a entrevista foi na quarta, dia 10), temos alguns leitos a mais apenas no Hospital Universitário e isso nos causa apreensão, pois como falei os pacientes precisam de internações prolongadas e o sistema entra em colapso facilmente caso não existam medidas integradas em todas as esferas de poder.

 

Por Renato Chimirri