
Pesquisa financiada pela FAPESP analisará 28 pontos do município e usará inteligência artificial e georreferenciamento para transformar dados do esgoto em ferramenta de prevenção em saúde pública
O esgoto de São Carlos poderá funcionar como uma espécie de sistema de alerta para a saúde pública. Um projeto científico com aproximadamente R$ 10 milhões em investimentos da FAPESP pretende monitorar amostras de esgoto e água em 28 pontos do município para identificar patógenos, contaminantes e sinais que possam ajudar a antecipar possíveis surtos de doenças.
O projeto Saúde Hidrossanitária e Qualidade de Vida (SHQV) foi apresentado na quinta-feira (27), durante o São Carlos Experience 2026, pela professora Fernanda de Freitas Aníbal, do Departamento de Morfologia e Patologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e pelo professor e assessor especial do prefeito, José Galizia Tundisi.
A iniciativa faz parte dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) e reúne FAPESP, UFSCar, USP, Embrapa Instrumentação, Prefeitura de São Carlos e SAAE.
Esgoto será analisado em diferentes regiões de São Carlos
Lançado em outubro de 2025, o SHQV pretende transformar informações encontradas no esgoto e na água em dados que possam auxiliar políticas de saúde pública preventiva.
Ao todo, serão monitoradas 25 localidades municipais e três distritais, somando 28 pontos.
A distribuição permitirá uma leitura regionalizada dos dados e poderá ajudar pesquisadores a compreender diferenças entre determinadas áreas do município.
As amostras serão analisadas em busca de vírus, bactérias, pesticidas e outros contaminantes e indicadores relacionados à saúde da população.
Inteligência artificial ajudará na análise
Uma das características do projeto será a integração de diferentes tecnologias. Os dados coletados serão processados com inteligência artificial e georreferenciamento, formando um grande banco de informações.
Segundo a professora Fernanda de Freitas Aníbal, a equipe trabalha no desenvolvimento de uma plataforma de sensores capaz de identificar diferentes substâncias e agentes presentes nas amostras.
“A ideia é que possamos identificar, no esgoto, informações relacionadas às doenças, aos medicamentos utilizados, à presença de drogas ilícitas e também a possíveis contaminantes, como pesticidas presentes nos alimentos consumidos. Tudo isso vai gerar um grande banco de dados, que será analisado com o uso de inteligência artificial, integrando essas informações por meio de georreferenciamento”, explicou.
Monitoramento pode antecipar sinais de doenças
A expectativa dos pesquisadores é que o sistema possa identificar alterações antes que determinados problemas de saúde pública sejam percebidos de maneira mais ampla na população.
Fernanda lembra que o princípio já demonstrou sua importância durante a pandemia de Covid-19.
“É uma forma de antecipar possíveis problemas de saúde pública. Por exemplo, antes mesmo de uma doença se manifestar na população, podemos identificar seus sinais no esgoto. Foi o que aconteceu com os fragmentos do vírus da Covid-19, que puderam ser detectados antes mesmo de algumas pessoas apresentarem sintomas”, afirmou.
O objetivo não é utilizar o esgoto para realizar diagnósticos individuais, mas produzir informações epidemiológicas e ambientais coletivas, capazes de auxiliar a compreensão do cenário sanitário de diferentes regiões.
Projeto pretende produzir informações regionalizadas
Para José Galizia Tundisi, o monitoramento abre uma nova possibilidade para avaliar indicadores de saúde pública em São Carlos.
“Esse projeto é único no Brasil, porque vai permitir que possamos avaliar os índices de saúde pública a partir de uma base mais avançada, utilizando o monitoramento do esgoto. Como as doenças presentes no município acabam chegando ao esgoto da população, podemos utilizar essas informações para avaliar a ocorrência dessas doenças não apenas de forma geral, mas também por bairros”, disse.
A regionalização é justamente um dos pontos centrais do projeto. Ao combinar os resultados das amostras com georreferenciamento, os pesquisadores poderão observar padrões espaciais e acompanhar alterações nos indicadores monitorados.
São Carlos terá novo índice de saúde hidrossanitária
Outro resultado previsto é a criação do Índice Municipal de Saúde Hidrossanitária Ampliado (IMSaHS-A).
O indicador deverá integrar os dados produzidos pelo monitoramento e oferecer uma ferramenta para avaliar conjuntamente aspectos ambientais e relacionados à saúde pública no município.
A pesquisa recebe aproximadamente R$ 10 milhões da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Participam do trabalho a UFSCar, a USP, por meio do Instituto de Química e da área de Computação, e a Embrapa Instrumentação. A Prefeitura de São Carlos participa da iniciativa por meio da relação com o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE).
A combinação de monitoramento ambiental, sensores, georreferenciamento e inteligência artificial poderá transformar o esgoto em uma importante fonte de informações para pesquisadores e gestores públicos, permitindo acompanhar indicadores sanitários e, principalmente, identificar antecipadamente alterações que mereçam atenção da saúde pública em São Carlos.
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