
Por Cirilo Braga
Pela internet me chega a notícia do falecimento hoje do estimado padre Dilermando Cozatti, que conheci há cerca de 20 anos, quando ele atuou na obra salesiana em São Carlos. Partiu aos 82 anos, em Piracicaba, vítima de lesões sofridas em uma queda doméstica.
Sua passagem por São Carlos foi breve, porém inesquecível. Carismático, o padre encantava a todos, desde as suas homilias “sem filtro” às atitudes de um sacerdote inquieto, que exercia o ministério pastoral em tempo integral.
Que Deus receba em sua glória este seu fiel soldado, a quem dediquei a seguinte crônica, intitulada “Um missionário incomum”, publicada no jornal Primeira Página em abril de 2007:
Silêncio na igreja. Nem parece a missa das crianças. Os olhares estão fixos na figura do padre, que esmiúça as parábolas bíblicas, cria as suas próprias e as explica muito diretamente. Fala com clareza. Dá exemplos concretos.
Conta que mandou polir e engraxar o relógio da igreja, que continua parado. Uma pequena peça avariada o impede de funcionar e inutiliza o relógio. Metáfora para a vida do cristão, com o ensinamento de que o perdão é essencial quanto a pequena peça do pêndulo do relógio. Sem ele não é possível funcionar.
Menino que perdeu o pai morto por raio, encontrou no sacerdote o amparo amigo; o professor que faleceu em plena missa das 18h recebeu dele as suas preces; idem o amigo que faleceu em Campinas, antigo seminarista a quem estimulava a ser padre, no “Projeto Catacumba”, na Unicamp.
Poderia guardar para si ou para as lides clericais o conhecimento de doutor em Teologia e Educação, mas como o pescador que convida a muitos outros para subir ao barco, compartilha com os paroquianos nas aulas de Teologia que são oferecidas às segundas feiras. Novidade tanto quanto o apelo para que pais de crianças recém batizadas sigam freqüentando as missas.
As lembranças do passado como orientador de meninos carentes na paróquia da Sé na Capital e os trabalhos fecundos realizados em Londrina e em Piracicaba permeiam as homilias. Não um longo sermão, mas pequenas falas intercaladas entre as leituras, para que os fiéis reflitam. Sem rodeios nem eufemismos. Sem papas na língua para a pregação da fé nos moldes do Papa.
A mãe que o queria médico lhe disse: “Quer ser padre vá, mas tenha juízo”. Lá se vão quase 36 anos de ministério sacerdotal, de pregação radical contra o aborto e de defesa da família. Nesse ponto um soldado fidelíssimo do exército de Bento XVI. Se lhe perguntam: “Tudo bem, padre?” A resposta é: “Tudo ótimo, vivo na graça de Deus”.
Se a mídia e “um montão de gente” fazem soprar aos ventos do rebanho o canto de sereia da negação dos valores da igreja, dizendo-os em descompasso com a modernidade, o padre se informa sobre tudo para mostrar o “outro lado”. O lado da perspectiva religiosa. Sem fugir dos assuntos mais agudos, brandindo argumentos contundentes, que podem, sim, ser questionados, mas ninguém permanece indiferente diante deles.
Nada de pedir dinheiro no púlpito: no lugar disto, soluções simples como recomendar que as crianças toquem chocalhos para acompanhar os cânticos. Ficam entretidas e ao mesmo tempo se envolvem com a celebração. Sem esse recurso na missa noturna de uma capela, criou um espaço para que os pequenos permaneçam enquanto os pais rezem.
Quem vai à igreja nota o entusiasmo do pessoal da catequese, que durante as celebrações é convidado a subir ao altar, lê com desenvoltura os textos evangélicos e encara o contato com a Igreja como uma parte importante do dia. Não, não é chato nem irrelevante ter uma religião e tomar parte dela. Beber do cálice das palavras tão escassas na rotina cotidiana.
Não falta a emoção que frequentemente surpreende a todos, como o relato de pais que apresentaram o menino que sobreviveu à UTI de um hospital como um milagre de Nossa Senhora no dia a ela dedicado.
Quem achar que é muito comum, talvez precise saber que esse religioso acostumou-se a presenciar milagres e provas da intervenção divina nos acontecimentos da vida; especializou-se em projetos sociais com crianças abandonadas que lhe rendeu tese de Mestrado em Israel e ajudou legiões de pessoas a descobrirem o caminho longe das drogas.
O padre tocou pandeiro ao receber o título de “Cidadão Honorário de Piracicaba” em outubro do ano passado, por onde passa planta uma semente de trabalho, de modo que existe uma floresta de saudades na esteira dos caminhos que percorre.
O poeta piracicabano Lino Vitti o definiu como “um missionário incomum” saudando a multiplicidade das ações que desenvolve e o fato de vê-lo sempre “de mangas arregaçadas, num afã generoso e atarefado, em busca das falhas e desinteresses de um mundo ingrato que esquece facilmente a pessoa humana, a intangibilidade dos espíritos, o amor em todas as suas manifestações ao próximo, bem próximo aliás, porque este está presente nas ruas, nas praças, nas favelas, na vizinhança de todos e de cada um”.
Não há como não assinar embaixo esses dizeres, ao concluir que São Carlos ganhou um presente quando na paróquia de Nossa Senhora Auxiliadora, dos Salesianos, chegou não faz muito tempo o novo pároco.
Seu nome: Dilermando Luiz Cozatti. Sacerdote desde o dia em que nasceu.








