Morre o radialista Romeu Contiero, uma das melhores pessoas que conheci!

Adeus, amigo!

 

Quando comecei a trabalhar na rádio São Carlos entrava no ar às 7 horas com o jornal que levava o nome da emissora, ainda sediada na 9 de Julho. Mas antes de mim ele sempre estava lá. Eu chegava e via aquele senhor de cabelo branco operando a mesa de som sempre com uma bota nos pés e umas camisas estampadas. Nos primeiros dias, a gente pouco se falou, mas depois começamos a conversar bastante e uma longa amizade nasceu.

Era Romeu Contiero, ícone do rádio do interior de SP, violeiro de mão cheia, amigo de lendas da música raiz como Belmonte e Amaraí, Tião Carreiro e Pardinho, Liu e Léo e outros. Romeu formou dupla com seu irmão Lupércio por anos e também foi um grande compositor. Não era possível encontra-lo e não pedir para que ele cantasse um pedacinho da famosa: “Não faça mais assim, amigo Claudionor!” Poxa vida, hein Romeu? Por que você foi fazer isso conosco hoje?

Romeu era uma alma doce, poucos sabiam que por trás daquela cara brava tinha um cidadão gente boa demais que amava coisas simples e sempre me falava: “Você vai chácara (onde ele morava) que nós vamos tomar uma (pinguinha) com nó de cachorro e “sassafrás”. E eu fui! Estive lá com minha esposa, fizemos churrasco, tocamos viola e solidificamos nossa amizade. O velho Romeu adorava minhas colunas nos Torpedos do Primeira Página e quando eu metia a ripa em algum político ele parava o seu programa e dançava catira no ar e a gente só escutava o estralar de sua bota!

Aliás, Romeu era tão bagunceiro que quando a gente abria o jornal às 7 horas iniciávamos com a Marcha Imperial de Star Wars e todo dia ele saía do estúdio andando igual um soldado para nos sacanear, não tinha como não rir das doideiras que ele fazia.

Mais uma peripécia do Romeu era nos ensinar com seu vocabulário peculiar. Quando um negócio não dava certo, ele sempre dizia: “Isso é coisa mandada!!”

Essa expressão, a “coisa mandada”, foi patenteada. Pertence ao Romeu, mas ele me emprestou e disse que eu poderia usá-la em qualquer escrito onde trabalhasse e assim se fez. O Romeu foi um verdadeiro pai para quem ainda era novo nessa profissão, porque simplesmente ele gostava da gente, se envolvia nas brincadeiras e era, sobretudo, um homem do campo, mas com sutilezas que poucos percebiam.

Romeu Contiero é um gigante da cultura popular de São Carlos, ele nasceu em 1940, e merece todas as homenagens possíveis, pois representou muito bem o que a cultura sertaneja passava para a sociedade, quem o achava carrancudo não o conhecia verdadeiramente, ali estava um homem bom, um cidadão gentil.

Romeu também era advogado e sempre brincava comigo dizendo que tinha muitos companheiros na cidade: “Ah Renato, se balançar a árvore na praça da Catedral cai uns cinco advogados!”

Não tem como não se emocionar ao lembrar do Romeu Contiero, das coisas que ele representa e da simplicidade que ele nos ensinou. A sua partida empobrece um pouco mais a cidade e deixa o setor cultural ainda mais combalido porque com sua inteligência Romeu soube valorizar as tradições.

Como ele mesmo me dizia: “Renato! Pare de ser safado como um boizão!”

Hoje sou eu quem digo, com lágrimas nos olhos: “Adeus, meu amigo boizão! Nunca vou esquecer você! Um dia nos veremos!”

Não faça mais assim, amigo Claudionor…

 

Renato Chimirri, agora, o dono da expressão “Coisa Mandada!”