
O cruzamento da Avenida São Carlos com a Rua 13 de Maio sempre foi um daqueles lugares onde a cidade parece testar a paciência de seus moradores. Carros, motos, buzinas, pressa e distrações dividem o mesmo espaço numa dança improvisada que, às vezes, termina mal.
Na tarde desta sexta-feira, o roteiro começou como tantos outros acidentes urbanos. Um acidente no referido cruzamento: carro x moto, carro na 13. Uma motociclista seguia seu caminho. O encontro entre os dois aconteceu em questão de segundos e o resultado foi o inevitável: o choque, a queda e a dor.
Mas a história poderia terminar aí, como mais uma ocorrência registrada nos relatórios do dia. Não terminou.
Quando a motociclista caiu, seus pertences se espalharam pelo asfalto. Entre eles, uma simples sacola com material pessoal. Enquanto algumas pessoas corriam para ajudar, outras observavam preocupadas e o Samu era acionado, surgiu um personagem inesperado, daqueles que parecem saídos de um enredo absurdo.
No meio da confusão, entre a solidariedade de quem prestava socorro e a aflição da vítima caída no chão, alguém enxergou uma oportunidade. Não uma oportunidade de ajudar. Não uma oportunidade de fazer o bem. Uma oportunidade de furtar.
Aproveitando-se do cenário de dor e vulnerabilidade, o indivíduo pegou a sacola e desapareceu como quem recolhe um prêmio esquecido na calçada. Foi embora levando roupas que talvez não valessem muito dinheiro, mas que certamente pertenciam a alguém que, naquele momento, tinha preocupações bem maiores do que perder objetos.
É curioso como acidentes revelam diferentes versões da natureza humana. Há quem pare para amparar. Há quem organize o trânsito. Há quem chame a ambulância. E há quem veja uma pessoa caída e pense apenas no que pode levar embora.
A motociclista seguiu para atendimento médico, cercada por profissionais que cumpriam seu dever e por cidadãos que demonstraram empatia. Já o indivíduo da sacola seguiu outro caminho, carregando consigo algo mais pesado que as roupas furtadas: a demonstração de que a falta de humanidade pode surgir justamente quando ela é mais necessária.
No fim das contas, o acidente produziu duas colisões. A primeira, entre um carro e uma motocicleta e o nosso péssimo trânsito. A segunda, talvez mais triste, entre a solidariedade e o oportunismo. A primeira deixou ferimentos que os médicos podem tratar. A segunda expôs uma ferida social para a qual ainda não existe curativo simples.






