
No último dia 26 de fevereiro, Anacleide Assunção Costa Aguiar tornou-se a primeira mulher indígena a defender mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Anacleide, cujo nome indígena é Diakarapó, é do Povo Dessana, do Alto Rio Negro, do município de São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas. Pedagoga pela UFSCar, ela tem desenvolvido pesquisas e publicações no âmbito da Educação das Relações Étnico-Raciais, particularmente no estudo das metodologias e epistemologias indígenas na área da Educação.
Ela também integra o “Núcleo de Ação Libertadora Decolonial e Estudos de Indiagem Abiayala” (NALDEIA), grupo de pesquisa vinculado ao Centro de Culturas Indígenas (CCI) da UFSCar e coordenado por Luiz Gonçalves Junior, docente do Departamento de Educação Física e Motricidade Humana (DEFMH) da UFSCar.
Anacleide defendeu a dissertação intitulada “A prática social do brincar entre crianças indígenas e não indígenas no Colégio de Aplicação da UFSCar: processos educativos interculturais na Educação Infantil”, com orientação da professora Denise Aparecida Corrêa, do Departamento de Educação Física da Unesp (campus de Bauru) e do PPGE/UFSCar. A pesquisa contou com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Para Anacleide, a conclusão no curso de mestrado em Educação na UFSCar “significou uma conquista coletiva. Representa a presença, a resistência e o protagonismo dos povos indígenas na universidade pública. É também um marco simbólico para outras mulheres indígenas que desejam ingressar e permanecer na pós-graduação”.
Antes dela, em 2017, Lennon Ferreira Corezomaé, do Povo Balatiponé-Umutina, foi o primeiro indígena a concluir o mestrado no mesmo Programa (confira em https://bit.ly/4ue2IUY).
Anacleide conta que as políticas de ações afirmativas da UFSCar foram fundamentais para garantir acesso e permanência na pós-graduação. “Elas ampliam oportunidades e possibilitam que sujeitos historicamente excluídos ocupem espaços acadêmicos, produzindo conhecimentos a partir de suas próprias perspectivas e experiências”.
Além da conquista no mestrado, Anacleide já ingressou no curso de doutorado do PPGE, “sinal de sua dedicação aos estudos e engajamento político-social com as lutas e epistemologias indígenas”, avalia o coordenador do NALDEIA.
Como surgiu o tema da pesquisa?
“O tema”, conta a pesquisadora indígena, “surgiu a partir da minha experiência no Colégio de Aplicação da (CAU) da UFSCar, que à época era denominado Unidade de Atendimento à Criança (UAC) da UFSCar. Durante o estágio obrigatório realizado em 2021 e o estágio voluntário em 2022, tive a oportunidade de conhecer e acompanhar mais de perto a rotina, a organização e as práticas pedagógicas da instituição, o que contribuiu de forma significativa para a consolidação do meu olhar crítico e investigativo. Posteriormente, como educadora indígena no Colégio de Aplicação, as vivências cotidianas com crianças indígenas e não indígenas na Educação Infantil aprofundaram ainda mais minhas inquietações. A observação das interações, das brincadeiras e das trocas culturais despertou o interesse em compreender o brincar como prática social e como espaço de construção de processos educativos interculturais”.
Objetivo e metodologia
A dissertação de mestrado de Anacleide teve como objetivo central identificar e compreender os processos educativos decorrentes da prática social do brincar a partir de uma intervenção, no Colégio de Aplicação da UFSCar, pautada nas histórias, brincadeiras, danças, artefatos e manifestações artísticas de diferentes povos indígenas entre crianças indígenas e não indígenas no contexto escolar da Educação Infantil.
Como instrumento de coleta de dados foram utilizadas rodas de conversa, registros em notas de campo e uma metodologia genuinamente indígena, denominada Tehêy (Pescaria de Conhecimentos), criada por Dona Liça Pataxoop, educadora e liderança do povo Pataxó, de Minas Gerais.
A Pescaria de Conhecimentos consiste em uma coleta (pesca) de conhecimentos por meio de desenhos simbólicos representativos do tema de estudo e em contexto com a cultura dos povos originários, desenhos estes feitos coletivamente pelas crianças participantes da intervenção, desde a compreensão deles sobre os temas tratados.
Resultados
“Um dos pontos mais surpreendentes”, conforme relatam a mestra em Educação e sua orientadora Denise Corrêa, “foi perceber como o brincar constitui um potente território para o diálogo entre diferentes referências culturais no espaço escolar, possibilitando processos educativos interculturais e de afirmação da identidade indígena. Observamos entre as crianças indígenas, o fortalecimento do pertencimento às suas origens identitárias, ao passo que entre as crianças não indígenas, o reconhecimento e a valorização dos conhecimentos dos diferentes povos indígenas”.
Os resultados da investigação apontaram que o brincar se configurou como prática social, educativa e intercultural, capaz de promover cooperação, criatividade, respeito às diferenças, fortalecimento de identidades e vínculos de pertencimento. Ademais, a pesquisa mostrou que o brincar, no contexto escolar, pode ser espaço de diálogo intercultural e de valorização das epistemologias indígenas, contribuindo para uma educação democrática, inclusiva e decolonial.
Desafios
Os principais desafios para o desenvolvimento do estudo, segundo a autora e sua orientadora, “envolveram articular os referenciais teóricos-metodológicos e as epistemologias indígenas no espaço acadêmico, além de enfrentar as demandas emocionais e institucionais de pesquisar um espaço do qual também faço parte profissionalmente. Outro desafio foi evidenciar o brincar como prática social legítima de produção de conhecimento”.
Mais informações
A dissertação está em processo de revisão e estará disponível em breve no Repositório UFSCar.
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