
Numa tarde amena de outono em São Carlos. A praça do Mercado Municipal, entre a avenida São Carlos e as ruas Episcopal e Geminiano Costa, fervilhava de gente. O vai e vem de pessoas carregando sacolas, ônibus passando, buzinas, o cheiro de frutas maduras vindo das barracas dentro do prédio. Ali, entre árvores e bancos gastos pelo tempo, um homem de barba branca e olhar sereno sentava-se, como quem observa o mundo passar com paciência de quem já viu muito.
Seu nome era Carlos Alberto, mas poucos sabiam. Vestia roupas simples, um chapéu de aba curta e uma mochila puída encostada ao lado. Havia um certo magnetismo naquele homem. Quem passava por ali, sem entender bem por quê, parava para escutar o que ele tinha a dizer.
Naquele quinta-feira Santa, pertinho da Páscoa, um grupo pequeno se formou ao seu redor: uma senhora que esperava o ônibus, um rapaz que saía do trabalho, duas crianças curiosas e um vendedor de pipoca que resolveu fazer uma pausa.
Carlos Alberto, com a voz mansa, começou a falar como quem conta um segredo antigo.
— Sabem… quando eu era jovem, acreditava que a Páscoa era só ovo de chocolate e bacalhau no domingo. Depois, a vida me mostrou que era mais do que isso. Um dia, decidi andar pelo mundo. Queria ver com meus próprios olhos como as pessoas comemoravam o Natal, o Ano Novo e a Páscoa em cada canto. E o que descobri é que cada lugar tem seu costume, sua ceia, sua roupa, sua música. Mas há algo que nunca muda…
Ele fez uma pausa e olhou em volta, como se medisse o coração de cada um.
— …o desejo de recomeçar. A Páscoa, meus amigos, é sobre isso. Não importa se você está na Itália, no interior de Pernambuco ou aqui na praça do Mercado. É sobre morrer por dentro pra nascer de novo. É sobre perdoar, largar os pesos, voltar pra casa, mesmo que essa casa esteja dentro de você.
As crianças olharam para ele com os olhos arregalados. A senhora suspirou fundo. O vendedor de pipoca baixou os olhos, pensativo.
— Andarilho, o senhor não tem família? — perguntou o rapaz, curioso.
Carlos Alberto sorriu.
— Tenho, sim. Mas ela é espalhada pelo mundo. Já comi peixe seco no norte, arroz com amêndoas no sul, panetone em pleno calor do sertão. Aprendi que a melhor ceia é aquela em que você compartilha. Nem que seja uma palavra, um silêncio, um abraço.
A tarde foi se desmanchando devagar. A sombra das árvores crescia, e o burburinho da praça continuava. Carlos Alberto se levantou, pegou sua mochila e ajeitou o chapéu.
— Agora vou ali, na rodoviária. Quem sabe chego em tempo de ver a Páscoa nascer em outro canto. Mas sempre volto. Sempre volto. Porque essa praça… é um pedacinho de tudo que vi no mundo.
E saiu andando com passos lentos, misturando-se aos sons da cidade. Os que ficaram sentados no banco o seguiram com os olhos até ele desaparecer entre a multidão.
Naquele fim de tarde, ninguém comprou chocolate. Mas muitos foram pra casa com o coração um pouco mais leve. Porque, afinal, como dissera o andarilho, a Páscoa não está nos ovos, mas no que a gente decide deixar morrer — pra poder nascer de novo.
E dizem, por aí, que Carlos Alberto sempre volta. Sempre numa véspera. Sempre com algo novo para contar.
Baseado no relato de um internauta.









