
Na tribuna da Câmara Municipal de São Carlos, no dia de ontem, 5, a senhora Rosa Maria da Silva, mãe de Naira Victoria que recentemente foi assassinada em São Paulo de maneira brutal, contou o drama que uma pessoa trans passa. “Eu poderia estar falando do assassinato de mais uma trans, mas vou falar da vida minha filha e do que nós passamos desde à sua infância”, afirmou.
Rosa disse que Naira enfrentou diversas situações complicadas: “Descaso, desprezo, às costas viradas para nós, eu falo nós, porque sentimos na pele, falo nós, porque não preciso ser trans para sentir o que uma pessoa passa, basta ser humano! Mas por ser mãe de uma trans, sei muito bem o que nós passamos!”
Uma das dificuldades narradas por Rosa recaiu na questão da saúde. “Para ir a um médico, enfrentamos dificuldades, não é assim: a pessoa é trans e vai se vestir de mulher e acabou e ela vai enfrentar o mundo bringando! A pessoa precisa lutar contra ela mesmo para entender o que está acontecendo”, diz.
Rosa disse que tinha muito medo quando Naira foi para SP. “O meu medo de mãe se concretizou, pois sabemos que uma trans vive, em sua maioria, até os 35 anos, ou porque se matam ou são assassinadas”, ponderou. “Elas se matam por que? Por que é bonito? Não! Elas se matam por desespero, por não ter um caminho, minha filha tinha todo o apoio de família, mas não tinha como ela ficar só dentro de casa com o amor da família, meu amor de mãe! Essa situação que falam de aceitação, eu não tenho que aceitar! Aqui é uma pessoa, é a minha filha que foi esfaqueada por maldade! Quero que vocês que tem filhos se coloquem em meu lugar: imagine seus filhos dentro de um caixão?! Você nunca mais vai poder ver teu filho ou filha e abraçá-lo e dizer que o ama!”
Rosa afirmou que Naira era sua melhor amiga e que foi obrigada a ir para SP ver o corpo da filha dilacerado. “Quem é pai, quem é mãe, não veja uma pessoa trans, veja uma pessoa que tem todos os seus direitos. Direito de ir e vir, de estar em algum lugar, de querer sem quem é, elas não são vistas assim, eu caminhei com minha filha em cada fase e tudo o que tivemos que fazer, foi feito brigando! E somos julgadas como as encrenqueiras!”, recorda.
A mãe de Naira foi além: “Minha filha ainda teve que escutar: olha que rapagão, hein?! Vocês não entendem o que é para uma menina linda dessas ir para a rua e não ser respeitada, ter que ir num hospital e ver risadinhas, eu estava junto! Nunca a abandonei! Estou aqui pedindo não aos vereadores, mas sim aos seres humanos: olhem mais por nós! Estou numa força aqui, que você não imaginam! Eu já estou no inferno, mas vou além por justiça, pela minha filha! Virei aqui quantas vezes for necessário! Por justiça, pela Naira Victoria! Só eu sei a falta que a minha filha faz e não é justo as pessoas falarem que “ela procurou”. Peço respeito, vamos mudar as leis, eu imploro como uma mãe de uma linda menina que foi assassinada! Minha melhor amiga!”
Rosa saiu da tribuna aplaudida. Mas o que ela quer mesmo é respeito e justiça para todas as pessoas deste mundo!
Veja vídeo do depoimento de Rosa que começa no minuto 24:

Por Renato Chimirri
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