Não há como nomear a dor de se perder um filho

Há palavras para quase tudo. Para quem perde o pai ou a mãe, a língua criou um nome: órfão. Para quem perde o marido ou a esposa, outro: viúvo. A vida, na sua dura lógica, parece se organizar até nas dores — dá rótulos, coloca nomes, tenta enquadrar. Mas quando um filho se vai, não existe palavra que dê conta. E talvez seja porque nenhuma boca conseguiria pronunciá-la sem se rasgar por dentro.

Não há nome, porque não há medida. A dor de um pai que enterra o próprio filho não cabe em dicionário, nem em explicação. É um silêncio que grita, um vazio que preenche todos os cantos da casa. Onde antes havia passos, vozes, risadas, agora sobra um eco que dói.

Neste instante, o coração se rebela contra a lógica da vida. O tempo perde o ritmo, os dias parecem mais longos e as noites, intermináveis. O peito insiste em perguntar: por quê? Mas não há resposta, apenas o consolo de acreditar que Deus o recebe, que há braços maiores que os nossos, capazes de acolher aquilo que nós, humanos, não conseguimos.

Resta à família, ao pai, aos amigos, o desafio de continuar. Não porque a dor passe — ela não passa — mas porque o amor ensina que, de algum modo, o filho segue existindo em cada memória, em cada lembrança, em cada gesto herdado.

Hoje não há palavra que nomeie essa ausência. Mas há o silêncio respeitoso, há o abraço apertado, há o “meus pêsames” dito com lágrimas nos olhos. E há a prece que pede a Deus: ameniza, Senhor, a dor dessa família.