
- Este texto é um conto, portanto ficção.
No final de uma tarde abafada em São Carlos, enquanto as cigarras gritavam entre os galhos retorcidos do Parque do Kartódromo, o delegado Antunes recebia um envelope sem remetente. A caligrafia era antiga, rebuscada, feita com tinta que manchava o papel de um tom escuro, quase marrom. O laudo pericial, horas depois, confirmaria: era sangue humano. O mais perturbador? Tipo O negativo. Raro. E exatamente o tipo sanguíneo de Antunes.
Mas aquela carta não o ameaçava. Dizia apenas:
“De mim para você, um brinde ao início. Que a beleza da linguagem não morra com os homens.”
No dia seguinte, encontraram o corpo de uma bibliotecária aposentada, senhora Francisca, de 72 anos. Estava sentada em sua poltrona, como se estivesse lendo, mas os olhos abertos, esbugalhados, denunciavam a interrupção brutal de qualquer leitura. Ao lado do corpo, outra carta. Escrita com sangue — desta vez o dela — e o mesmo estilo literário.
A cidade inteira se revirou com o caso, e Antunes mergulhou na investigação com uma obstinação quase obsessiva. O assassino não deixava digitais, pegadas, digitais de teclado, nada. Era como se escrevesse suas cartas com o silêncio das décadas.
Cada nova morte — o sapateiro do Mercado Municipal, o professor de História da UFSCar, uma criança de 9 anos chamada Luca — trazia consigo uma nova missiva ensanguentada. Cada letra desenhada com uma paciência doentia, um traço caligráfico que lembrava os tempos em que se escrevia cartas de amor com penas de ganso e papel de linho.
Todos os crimes pareciam ecoar uma mesma mensagem: uma ode à escrita, à arte, e um desprezo absoluto pela era digital. O assassino desprezava o presente. Ele escrevia como se fosse o último escriba de um mundo que nunca existiu.
Foi uma viúva, moradora do bairro Castelo Branco, quem deu a primeira pista concreta. Durante uma tempestade, uma caixa de papelões velha voou de dentro do quintal de uma casa da Rua Emílio de Menezes. Dentro dela, havia papéis antigos, manchados de algo escuro. Cartas com rabiscos estranhos. Ela levou o achado à delegacia. Quando Antunes as leu, seu sangue gelou.
As cartas eram ensaios. Rascunhos. Treinos de caligrafia. Em algumas, ele testava assinaturas diferentes: “O Calígrafo”, “O Último Romântico”, “O que escreve com o que sobra”.
Todas as trilhas levavam a uma única casa, esquisita por si só: uma construção cinza, de muros altos e grades enferrujadas. Todos chamavam de “O Castelo Branco”, nome emprestado ao bairro. Era uma casa antiga, que ninguém sabia de quem era. Nunca havia barulho, visitas, luzes acesas. Só silêncio e, às vezes, uma música vinda de dentro — valsas.
Antunes foi até lá sozinho.
Bateu na porta. Ela se abriu devagar, como se esperasse por ele.
No interior, a casa era um museu do absurdo. Paredes cobertas de cartas escritas à mão, afixadas com pregos. Em algumas, o sangue já escorria como lágrimas secas. No centro da sala, um homem magro, vestindo um terno de veludo vinho, sentado diante de uma escrivaninha antiga. Escrevia com uma pena mergulhada num frasco de vidro vermelho.
Ele não se assustou com a arma de Antunes apontada para si.
— Eu sabia que viria, delegado… Escrevi essa parte ontem.
E apontou para uma carta dobrada em três, com o nome “Antunes” desenhado com extremo cuidado. Ele a abriu. Dizia:
“Você entrou. Você viu. Agora sabe que o que move o mundo não é a maldade — é a estética. E você, agora que viu, não pode sair sem deixar sua parte escrita.”
O homem se levantou e caminhou até Antunes. Seus olhos eram pálidos, seus passos leves como os de um dançarino. De repente, parou. Sorriu. E se atirou contra uma faca embutida na moldura da porta. O sangue jorrou com violência.
Antunes, em choque, correu para socorrê-lo. Mas o homem já não respirava.
A pena continuava em sua mão. Gotejava. E com um último movimento involuntário, o dedo do cadáver traçou no chão uma palavra:
“FIM?”
Antunes nunca mais foi o mesmo. Pedia silêncio onde havia barulho, e começou a escrever cartas, longas, belas, que nunca enviava. Às vezes, à noite, vizinhos dizem vê-lo à luz de velas, praticando caligrafia com tinta escura. Muito escura.
E desde aquela noite, nenhuma nova carta foi encontrada. Ou foi?
Talvez alguém esteja lendo esta agora.
Talvez ela esteja escrita com algo mais do que tinta.
Talvez, só talvez… você seja o próximo destinatário.









