‘No princípio, era o verbo’… até começarem a confusão

Quadro pintado pela Julia

Gosto da expressão ‘cada um com seu cada qual’. Parece estranha, beira o nonsense, mas a maioria entende. Se for para extrair-lhe o significado, seria ‘cada coisa, cada pessoa, em seu lugar’. Mas não fica tudo muito engessado, sem espaço para manobra, para questionamento, para reviravoltas?

Depende. Ultimamente, tem se percebido um entremear-se de campos semânticos. O que é isso? O campo semântico é aquele conjunto de significados pertencentes a um tema, um assunto. Exemplos? No mundo animal canino, cabem adestramento, adoção, fidelidade, proteção, braveza, ataque, peripécias… E por aí seguem várias palavras afins.

Na arte, esse é um recurso fantástico. Quem já ouviu o lindíssimo samba ‘Enredo do meu samba’ de Dona Ivone Lara e Jorge Aragão? Termina com os versos ‘Findou o carnaval / Nas cinzas pude perceber / Na apuração perdi você’. Há um encontro dos campos semânticos do amor e do carnaval. Falam de uma relação amorosa que não foi levada muito a sério por um dos dois e que acabou. Eles contam esse desenlace como se fosse a apuração das notas de uma escola de samba. Falam de alegoria, de adereço, de aplauso… tudo entremeado com o discurso amoroso. Gênios.

Tudo bem até aqui. Há muitos outros exemplos de campos semânticos se misturando e resultando em textos – poéticos ou não – muito interessantes e elucidativos.

Contudo, há campos que não se misturam ou que, pelo menos, não deveriam se misturar.

Começamos nossa conversa falando do campo semântico do animal. Sim, os animais são seres especiais, criaturas divinas em sua beleza, graça, inteligência…e tantos outros atributos. Mas são animais irracionais, não são seres humanos.

Faz um tempo, uma socialite carioca fez uma festa de aniversário para sua cachorrinha. Um tanto risível. Daí, foi ficando escancarado: a cachorrinha teve bolo, as convidadas da dona da cachorrinha trouxeram seus pets, todos muito bem vestidos e enfeitados. E cantaram ‘Parabéns’!!!  A música, superconhecida, cantada em ‘Au-au’. E houve presentes para anivers-au-au-riante: correntinhas de ouro e trajes para os corpitchos, por exemplo.

Como é que é? Estendendo a exótica festa, o tratamento para os cães: ‘Minha filhinha está contente!’, ‘Meu bebê não ia perder essa festa de jeito nenhum!’, ‘Meu tesouro não está linda com essa coroinha dourada?’. Para mim, o melhor da festa foi quando os pets, ‘esquecendo-se’ de sua porção humana e requintada, destroçaram o bolo – tão lindo! –, em segundos, e fizeram uma balbúrdia nos sofás e tapetes – tão caros! –, bagunçando tudo.

Esses campos semânticos não se misturam: o animal e o bebê, o animal e a criança. Os animais e os humanos podem – e devem, sim – ter uma linda convivência. E, a partir do momento em que adotamos um animal, é mais do que um dever tratá-lo muito bem, dar carinho, não deixar que nada lhe falte, como a comida, a água, o abrigo, a assistência na saúde… Mas avançar nesses cuidados, tratando-os como pessoas, a mim soa preocupante. Há lacunas a serem preenchidas. Um dono de uma loja para pets comentou que não é raro muitos donos e donas de pets deixarem por volta de dois mil reais por mês na loja, adquirindo ração, brinquedinhos, adornos…

Não é uma questão – como Duardo Dusek canta, no polêmico verso ‘Troque seu cachorro por uma criança pobre.’ – de substituir com o que gastar. Se a pessoa quiser contribuir para entidades – e há muitas! – com tempo, dinheiro, campanhas, será muito salutar para quem recebe e para ela. Mas se não houver uma genuína motivação, há de se canalizar essa energia frívola para algo realmente importante, como, por exemplo, requalificar uma praça abandonada.

Há outra confusão de campos semânticos mais problemática, a meu ver. O campo semântico da patologia, que é usado para situações corriqueiras, para emitir opiniões. Assim, há notícia no jornal dizendo que a situação está esquizofrênica. Se perguntar ao jornalista o que ele sabe sobre essa doença, ele provavelmente ficará um pouco perdido, pois ele não é especialista, ele só ouviu falar. Outra opinião vazia é dizer que uma pessoa parece autista. Quem apresenta o quadro do espectro autista não parece ter, porque ele realmente tem traços autistas. Mas quem assim opinou também ouviu falar.

Há um fator interessante no comportamento de quem usa esses termos: muitos querem se arvorar em entendidos, que falam ‘difícil’, que dominam o léxico, o jargão médico… Ledo engano. Eles somente ouviram falar e repetem, usando equivocadamente termos da patologia para definir um fato ou um comportamento.

Sabe por que há um disparate? Porque o esquizofrênico, o autista, o retardado… eles não têm escolha, eles são assim, eles nasceram assim ou adquiriram essa condição. E dizer que um grande corrupto, por exemplo, tem um comportamento esquizofrênico, por desviar dinheiro sem levar em conta o mal que causa, é um equívoco e uma injustiça, porque ele sabe o que está fazendo. Ele escolheu ser assim.

Acho que, de todos os termos, o mais usado é ‘retardado’, para qualquer pessoa que cometa qualquer deslize. E é usado em tom de crítica, como um xingamento, um deboche, mesmo. Confesso que sinto um mal-estar. Daí, quando dou um toque para a pessoa não falar daquele jeito, ela já se adianta para me pedir desculpas. Sim, tenho uma filha linda, talentosa, inteligente… e que tem Síndrome de Down (SD). Mas há um detalhe: o meu incômodo com esses termos vem desde que eu era criança. Se dou um toque, é para a pessoa melhorar como ser humano, ser mais empática, mais respeitosa, mais educada, não é por causa da deficiência intelectual de minha filha. E é muito interessante perceber que essa expressão passa de geração para geração, como se normal fosse. Não há um ‘Espera um pouco, essa palavra é adequada?’.

E tenho muito a agradecer a meu pai, que sempre foi muito atento às palavras, ensinando o que sabia, pesquisando se não tinha certeza. E, acima de tudo, ele tinha uma educação exemplar, sempre preocupado em não magoar ninguém. Era conhecido por ser muito observador e quieto. É, se não há algo que contribua, que construa, por que falar?

Uma cena de minha infância: “Pai, o que significa ‘efêmero’?”. E ele: ‘Como está na frase? Leia a frase para mim.’ E eu lia. Daí, ele me explicava, sempre preocupado com o contexto. E ele não sabia que ensinava muito mais que o vocábulo. Ele me ensinava a querer saber o entorno, o porquê, e, principalmente, a respeitar o outro. Sigo tentando. E o outro é diferente, é diverso de mim. Qual o problema?  

Não é preciso ser um especialista em Saúde para perceber que alguém tem uma característica diferente. Ninguém é obrigado a saber se a diferença é uma consequência genética, ambiental ou mesmo decorrente de um erro médico. É importante, sim, saber que a pessoa é do jeito que é e que ela não escolheu ser assim. Respeitar é o mínimo que se espera. Banalizar as deficiências chamando uma situação ou uma pessoa de esquizofrênica, autista ou retardada, por exemplo, é um desrespeito, além de demonstrar uma séria deficiência: a falta de gentileza, a ausência de delicadeza. Há um vácuo na empatia.

Em tempo: a ilustração deste texto é um quadro de minha filha.

Zelinda Martins, 57 anos, Odontóloga não atuante, Mestre em Língua Portuguesa e Revisora de textos em Português. Observadora do mundo.

Imagem: Quadro pintado pela Julia.