Ícone do site São Carlos em Rede

Nunca estamos preparados para perder ninguém

A morte é um daqueles assuntos que evitamos como quem muda de calçada para não cruzar com um velho desafeto. Fingimos que ela está sempre distante, que só acontece com os outros, que ainda temos tempo. Tempo para dizer o que não foi dito, para pedir perdão, para dar aquele abraço que ficou para depois. Só que a verdade, dura como um sino dobrando ao longe, é que nunca estamos preparados para perder ninguém.

Não importa se foi algo repentino ou esperado, se a pessoa já estava cansada ou cheia de planos. A perda vem como uma maré escura, arrastando tudo — as certezas, as palavras mal resolvidas, as fotos na estante. E ficamos ali, tentando compreender o que significa o silêncio onde antes havia voz, presença, riso.

A morte nos obriga a encarar a fragilidade que tanto negamos. Nos tira o chão, mas também nos coloca frente a frente com aquilo que realmente importa. Nos dias seguintes à perda, quando a dor ainda pulsa como um machucado fresco, percebemos o quanto somos pequenos diante da finitude. E o quanto somos tolos por não viver com mais verdade, com mais presença.

Publicidade

A gente corre, acumula, adia. Espera o momento certo que nunca chega. Mas e se a única certeza que temos — a de que tudo termina — fosse, na verdade, um convite? Um lembrete para amar mais profundamente, falar com mais sinceridade, olhar nos olhos e dizer: “Eu estou aqui. Eu te amo. Eu me importo.”

A morte é um mistério que nos cala, mas também pode ser uma mestra silenciosa. Ela nos ensina, com brutal delicadeza, que o agora é tudo o que temos. Que a vida, com suas imperfeições e milagres cotidianos, é um presente frágil demais para ser desperdiçado.

Não, nunca estamos preparados para perder ninguém. Mas talvez possamos estar mais presentes para os que amamos, enquanto ainda é tempo. Talvez possamos transformar a consciência da morte em um compromisso com a vida — com o cuidado, com a escuta, com o afeto.

Porque no fim, quando o inevitável chegar, o que vai ficar é o quanto fomos inteiros. E que, apesar da dor da ausência, o amor — esse sim — continua vivendo em nós.

R. C.

Sair da versão mobile