O amor que começou em São Carlos e entrou para a eternidade

São Carlos, anos 90. O Colégio Álvaro Guião era um microcosmo de vidas que se cruzavam, histórias que se iniciavam e outras que pareciam destinadas a nunca se completar. Entre os corredores da escola, Duda Panakedes e Lorena Mirtolino viviam uma daquelas histórias que, por mais que o tempo tentasse apagar, permanecia viva em algum lugar além do alcance das mãos.

Duda, com seu jeito descontraído e sorriso fácil, era o tipo de pessoa que iluminava qualquer ambiente. Lorena, por sua vez, era a menina de olhos profundos e sonhos grandes, que carregava consigo uma determinação que a fazia parecer maior do que o mundo ao seu redor. Eles se conheceram no segundo ano do ensino médio, em uma aula de literatura. O professor havia pedido que lessem Romeu e Julieta, e, enquanto a turma discutia o amor proibido entre os dois personagens, Duda e Lorena trocaram olhares que pareciam dizer mais do que qualquer palavra poderia expressar.

Mas, assim como na obra de Shakespeare, o amor deles não era bem-vindo. As famílias Panakedes e Mirtolino carregavam uma rixa antiga, cujas origens ninguém sabia ao certo, mas que era alimentada por décadas de desentendimentos e mágoas. O que começara como uma disputa por terras no passado transformara-se em um abismo intransponível entre as duas famílias. E, no meio desse abismo, Duda e Lorena tentaram, em vão, construir uma ponte.

Os encontros eram secretos, os olhares eram disfarçados, e os sentimentos eram guardados a sete chaves. Até que, um dia, a pressão familiar e o peso da realidade os separaram. Lorena, determinada a seguir seus sonhos, mudou-se para Curitiba após se formar em direito. Lá, construiu uma carreira sólida, casou-se, teve dois filhos e, anos depois, viu seu casamento desmoronar. A vida seguiu, mas o coração dela nunca esqueceu o menino de São Carlos que um dia lhe roubou o sorriso.

Duda, por sua vez, permaneceu na cidade natal. Trabalhou, cuidou da família, mas nunca se casou. Aqueles que o conheciam diziam que ele carregava uma melancolia nos olhos, como se algo — ou alguém — lhe faltasse. O tempo passou, e as famílias Panakedes e Mirtolino continuaram distantes, como se o ódio entre elas fosse mais forte do que qualquer tentativa de reconciliação.

Até que, em um dia comum, Lorena falava com sua mãe por vídeo chamada. A conversa girava em torno de trivialidades, até que a mãe, quase sem querer, soltou: “Você se lembra do Duda Panakedes? Ele está internado na Santa Casa. Câncer. Dizem que o caso é grave.”

O coração de Lorena parou. As memórias inundaram sua mente como uma enxurrada: os sorrisos trocados no colégio, os encontros escondidos, o amor que nunca pôde ser. Sem pensar duas vezes, ela arrumou uma mala, pegou o primeiro voo para Ribeirão Preto e, de lá, seguiu de carro até São Carlos. O trajeto parecia interminável, mas nada a impediria de ver Duda. Nem o tempo, nem a distância, nem a rixa familiar que um dia os separou.

Quando chegou ao hospital, o sol já se punha, tingindo o céu de tons alaranjados. Lorena correu em direção à entrada, o coração batendo forte no peito. Foi então que viu Bárbara, irmã de Duda, sentada em um banco próximo à porta. Ela chorava silenciosamente, e, ao ver Lorena, balançou a cabeça, os olhos cheios de lágrimas.

“Ele partiu há poucos minutos”, disse Bárbara, a voz embargada. “Eu sabia que você viria. Ele sempre falava de você.”

Lorena sentiu o chão desaparecer sob seus pés. As lágrimas escorreram pelo seu rosto enquanto ela se apoiava na parede, tentando processar a dor que agora a consumia. Duda se fora, e com ele levava o amor que nunca pôde ser vivido plenamente.

Naquela noite, Lorena sentou-se no banco ao lado de Bárbara, e as duas mulheres, unidas por um amor que transcendeu até mesmo a morte, choraram juntas. A rixa familiar, que um dia as separou, parecia insignificante diante da dor que agora compartilhavam.

E, enquanto o céu escurecia, Lorena olhou para as estrelas e sussurrou: “Até logo, Duda. Um dia nos encontraremos novamente, e nada nos separará.”

O amor de Duda e Lorena foi impossível em vida, mas, naquele momento, ela percebeu que algumas histórias não terminam com a morte. Elas simplesmente se transformam, tornando-se eternas.

Esta é uma obra de ficção.