O Amor Virtual que terminou em tragédia

Esta é uma obra ficção*

As coisas para Ana não se encaixavam fazia um tempo. Seu candidato não tinha sido eleito, a faculdade estava cada vez mais difícil e o namoro não estava indo muito bem.

Ana era namorada de Gerson, um mecânico de aeronaves muito trabalhador, mas bem ciumento e bastante inflexível. A moçoila sempre dizia que apesar dos hábitos pouco comuns de Gerson como tentar impedí-la de fazer qualquer coisa, pois era muito ciumento, o rapaz lhe dava a atenção necessária.

Mas como sabemos, de atenção e intenção o inferno está cheio. Era uma quarta-feira depois das 21 horas quando Gerson ligou. Ana estava sentada no quarto fixando os olhos num texto para a prova de sociologia quando atendeu:

– Quê? Você quer ir comer um lanche hoje? Ah, Gerson não vai dar. Tenho que ler um texto para a prova de amanhã cedo. Aliás, você não permitiu que eu fosse no grupo de estudo a tarde e agora estou aqui queimando a cabeça.

– Já disse que seu ciúme doentio será a sua ruína, mas você não aprende!

Ana desligou o telefone, descartou o namorado e notou que apesar de faltarem duas páginas para o final, o seu sono era maior. A garota quase dormiu em cima dos papéis.

Reunindo as últimas forças, levantou e escovou os dentes. Foi para a cama e dormiu um sono feliz. Feliz? Eram quase três da manhã quando Ana acordou. Os olhos estalaram e ficavam olhando para o teto, todos na casa já tinham adormecido, mas Ana continuava acordada.

Sem sono, a menina que era uma conhecida dorminhoca, foi para a escrivaninha e ligou o computador. Leu notícias, olhou seu blogue e fez uma coisa que não lhe era habitual: entrou no chat de um grande provedor de internet.

Seu nickname na sala era Frida. Gostava desse nome, pois achava que lembrava uma bruxinha. Falou com alguns, descartou outros e começou a desenvolver um “papo-cabeça” com um tal de Recife.

Recife era do balacobaco como costuma dizer a mãe de Ana. Estilo galã, impressionou Ana com citações, poesias, músicas e conseguiu, depois de muito custo, o msn e o e-mail da garota, sob a promessa de que não se esqueceria dela durante um mês inteiro.

Ana se encontrou com o sono depois de conversar com Recife. Ficou mais aliviada, talvez o tempo “perdido” no chat tivesse lhe retirado o estresse que a prova do outro dia havido embutido em sua cabeça. Ah,claro que o engraçado e galanteador Recife também tinha ajudado, mas Ana sempre pensava: “Imagina, esse tá tão longe!”

A prova chegou. Ana tentou se dar bem. O professor, numa manhã de raro bom humor, permitiu a consulta, e com isso os alunos da UFSCar tiveram uma chance maior de obter uma nota satisfatória. Depois do teste, a moça ligou seu laptop e foi verificar os e-mails e não é que logo pela manhã tinha um e-mail de um tal de Anderson?

Era uma poesia de Vinícius, chamada Minha Namorada. O galã já queria impressionar logo de cara e conseguiu. Ana só pensava: “Meu Deus, o homem é doido!” No outro dia, Drummond, depois Neruda e outros monstros sagrados da poesia brasileira e mundial. Até que faltando um dia para completar um mês de sua promessa, Anderson mandou a poesia e um cartão virtual. O coração de Ana passou a pular, Gerson já não fazia tanto sentido, mas ele era a realidade, cada vez mais distante, contudo ainda estava lá. O que fazer? Mandar Gerson embora de uma hora para a outra e acabar com um relacionamento que já tinha inclusive o reconhecimento de sua família? Era uma situação gravíssima para um coração frágil como o de Ana. Gerson não era seu herói, era ciumento, mas esteve com ela em momentos dos mais difíceis. Sinuca de bico: esse era o quadro.

II

Ao mesmo tempo em que Ana sofria por uma nova paixão, Anderson do outro lado do Brasil vivia um novo amor. Olhava diariamente, por muito tempo, a foto que a garota havia lhe mandado por e-mail. Os olhos alegres, a face rubra e o sorriso aconchegante deixam “Recife” cada vez mais apaixonado a ponto de atitudes que nem ele mesmo acreditaria.

Recife, apesar de tentar ser galanteador com Ana, era um tímido. Escrevia seus sentimentos num diário para guardar à posteridade. Dizia que com Ana tinha encontrado alguém que o compreendesse, que talvez o amasse do jeito que ele realmente era, com suas neuroses, anseios, devaneios e também (algumas, como ele mesmo dizia) virtudes.

Numa manhã quando não havia aula na faculdade, Recife resolveu fazer uma caminhada pela praia de Boa Viagem e num desses rompantes que somente boas vibrações podem nos despertar esculpiu na areia uma mulher que ele achava que se parecia com Ana.

Suas mãos pouco habilidosas com aquele material tentou reconstruir o sorriso doce da moça na praia. Tudo foi registrado graças ao seu celular. Na mesma noite a obra de arte atravessou fronteiras e foi parar em São Paulo, mais precisamente em São Carlos, na caixa postal de Ana. Além das fotos, Recife mandou a letra da música mais nova de Roberto Carlos. Foi o tiro certo para ganhar o coração daquela mulher. Diz a letra:

Essa cara sou eu

O cara que pensa em você toda a hora

Que conta os segundos se você demora

Que está todo o tempo querendo te ver

Porque já não sabe ficar sem você

E no meio da noite te chama

Pra dizer que te ama

Esse cara sou eu

O cara que pega você pelo braço

Esbarra em quem for que interrompa seus passos

Que está do seu lado pro que der e vier

O herói esperado por toda mulher

Por você ele encara o perigo

Seu melhor amigo

Esse cara sou eu

O cara que ama você do seu jeito

Que depois do amor você se deita em seu peito

Te acaricia os cabelos, te fala de amor

Te fala outras coisas, te causa calor

De manhã você acorda feliz

Num sorriso que diz

Que esse cara sou eu

Esse cara sou eu

Eu sou o cara certo pra você

Que te faz feliz e que te adora

Que enxuga seu pranto quando você chora

Esse cara sou eu

Esse cara sou eu

O cara que sempre te espera sorrindo

Que abre a porta do carro quando você vem vindo

Te beija na boca, te abraça feliz

Apaixonado te olha e te diz

Que sentiu sua falta e reclama

Ele te ama

Esse cara sou eu…

III

O sorriso de Ana na mesa do café era de atabalhoador. Roberto Carlos havia acendido mais uma paixão. Dona Laura enquanto colocava o pão na mesa foi logo perguntando:

– De onde vem tanto sorriso?

Ana coçou a cabeça e apenas disse que estava feliz. Não quis dar asas para a curiosidade de sua mãe, mas literalmente estava em outra dimensão. Diante de uma situação pouco inusitada, Ana resolveu abrir seu coração para Gerson. A dor seria grande, mas para ela era o mais certo a fazer.

Foram cinco anos de namoro, incontáveis alegrias e muitas brigas. Foi num almoço. Ela disse que não pretendia levar mais adiante a situação. Sem acreditar, o mecânico achou que Ana estivesse brincando, mas quando percebeu que era verdade suas pernas ficaram moles, sua testa começou a suar e suas mãos estavam trêmulas.

Ana percebeu as reações do agora ex-namorado, mas seguiu firme em seu propósito de colocar um ponto final na relação. Atônito, Gerson deixou Ana falando sozinha na mesa, montou em seu carro e sumiu.

Naquele dia ela tentou saber o que tinha acontecido com o rapaz que sequer havia ido trabalhar no período da tarde. Para piorar a situação um grave acidente na rodovia SP 318 que liga São Carlos até a oficina da TAM, onde Gerson trabalhava deixou Ana em pânico. Entretanto, a vítima não tinha sido seu ex-namorado, ela descobriu que Gerson havia enchido a cara no Bar do Luís que fica perto de sua casa e que simplesmente havia dormido na calçada.

Ela ainda achava que Gerson poderia tentar alguma coisa, que buscaria reconquistá-la, mas que isso não iria adiantar porque seus momentos de felicidade deveriam ocorrer com Recife. Mas quando? A distância era tão grande, a vontade de estar perto, de abraçar, de beijar, maior ainda. Mas quando isso iria acontecer? Essa era a pergunta que mais atormentava Ana e as respostas pareciam que não seriam encontradas com a facilidade que a menina gostava.

IV

Começava uma nova etapa. Tentar de alguma forma encontrar Recife. Um congresso em João Pessoa poderia ser forma mais rápida de se chegar na capital pernabucana. Ana já preparava seus trabalhos e estava feliz por ter a oportunidade como bolsista de ir até a Paraíba.

As conversas para o encontro com Anderson já estavam adiantadas. O passeio de mãos dadas, a caminhada na praia, o beijo em Recife já tinha sido programado.

Ana estava no ponto de ônibus da ala sul da UFSCar aguardando a volta para a casa pensando em tudo isso, quando um carro abriu a porta.

– Aqui Ana! Quer uma carona?

Era Gerson que estava ali. Ana estranhou a cordialidade do ex-namorado que normalmente tomava decisões intempestuosas e ficava carrancudo por um bom tempo até deglutir o que não lhe agradava.

Pensando que as pessoas podem mudar, Ana decidiu aceitar a gentileza. Gerson disse que teve um “estalo” quando viu a chuva caindo e achou que a ex-namorada estava no ponto de ônibus. Foi dito e feito.

Gerson contornou o balão na universidade e entrou na Washington Luís, um caminho que já não era habitual. Ao adentrar a SP 318 que liga São Carlos a Ribeirão Preto, Ana ficou desconfiada e disse que aquele não era o caminho da sua casa. O ex-namorado tentou contornar a situação dizendo que tinha esquecido uma bolsa no seu local de trabalho e que precisava pegá-la.

Ana não engoliu a desculpa, mas não podia fazer nada. Iria pular do carro no meio estrada? O jeito era observar e aguardar. Gerson encostou no pátio da empresa onde trabalhava, o local estava deserto, apenas o guarda na distante portaria. Ele pediu para Ana acompanhá-lo, quando abriu a porta do setor onde trabalhava a maior traição se fez.

Ao entrar, Ana foi atingida por um golpe forte na cabeça. O desmaio foi imediato. Quando acordou estava numa espécie de galpão com as mãos e os pés amarrados e algumas gotas de água intermitentes lhe pingando na cabeça para aumentar um pouco mais sua tortura.

Seu despertar deu de cara com um Gerson sentado em sua frente com um olhar perdido, uma faca na mão e aquele jeito de poucos amigos.

– Só pergunto o porque. Por que, Ana?

– Por que você me traiu? Com um cara da internet….

– Você pensa que eu não sei, seu irmão me contou tudo. Seus e-mails, suas conversinhas, logo você, que sempre foi tão pé no chão dando uma de apaixonadinha!

– Me solta, Gerson! Você vai pra cadeia! Minha cabeça dói!

– É pra doer mesmo. É a sua consciência que está doendo. Trair um cara que sempre te deu tudo! Que sempre lhe tratou como uma rainha.

Ao desferir um bofetão na cara de Ana, Gerson começou a chorar e disse que ele mereceria uma surra ainda maior.

– Gerson, as pessoas tem o direito de amar. De ser felizes! Eu não era feliz com você. Nunca fui! Será que você nunca percebeu que a gente só brigava? Olha onde estamos agora?! Veja o que você fez! Me bateu, me magoou, me solta Gerson!

Desesperado, Gerson agarrou Ana pelos ombros e falou que dali só sairia morto e que ele já havia avisado a família dela que sua linda filhinha estava em seu poder.

A polícia de São Carlos estava mobilizada para encontrar Ana.  A família de Gerson já havia sido questionada sobre possíveis locais para o esconderijo do desesperado ex-namorado. A mãe aos prantos dizia que o filho não era bandido, pedia clemência e falava se encontrasse Gerson conseguiria demovê-lo de fazer qualquer besteira.

Não demorou para os policiais direcionarem a investigação para a empresa onde Gerson trabalhava. O guarda da portaria confirmou que o rapaz havia entrado com uma moça no local e que ainda estava lá.

– Ele disse que iria pegar uma sacola e que não demoraria, mas já toquei em seu setor por diversas vezes e ele não respondeu. Já comuniquei a direção da empresa.

Rapidamente a empresa de manutenção aeronáutica estava cercada. Gerson percebeu que a polícia estava no local e disse para Ana que ambos morreriam como Romeu e Julieta.

– Não quero ser sua Julieta. A Julieta de um Romeu sem amor, egoísta que só pensa em si. Caia na real e veja o que você está fazendo!

Noutro tapa Gerson não perdoou:

– Cala a boca sua vagabunda!

Com a faca que estava em suas mãos fez um risco na perna da garota, o sangue escorreu. Gerson disse que nem o cerco policial iria tirar sua vontade de morrer, se preciso, ao lado de Ana.

O salão vazio onde ele mantinha a garota como refém foi cercado e a polícia cortou a energia e o fornecimento de água. Gerson exigia um negociador, carro e armas para fugir com Ana. A polícia não lhe cedeu um milímetro. A situação no galpão era mais do que tensa.

Gerson saiu no segundo andar, numa espécie de varanda que existia no prédio levando Ana consigo. Usando-a de escudo humano, ele gesticulava para a polícia, ameaçava jogá-la, estava fora de controle.

Correndo novamente para dentro decidiu tentar a cartada final.Iria sair com Ana pela porta da frente para conseguir entrar em algum carro e fugir. Gerson já esperava o pior. Mas enquanto pensava em sair a polícia já havia invadido  pelos fundos, uma tocaia dentro do prédio havia sido preparada.

Ao descer pela escada segurando Ana, Gerson pisou em falso, derrubou a garota. Foi neste espaço de tempo que a polícia agiu. Ele foi completamente dominado, mesmo assim não queria se entregar entrou em luta com os policiais. Chegou a ferir um deles com uma facada, mas seu destino foi selado ao ameaçar puxar uma arma da cintura.

O gesto impensado lhe rendeu tiros. Três no peito que foram fatais. Gerson caiu morto em frente a Ana. Ali, estatelado,  estava o seu ex-namorado e ao mesmo tempo algoz.

O drama havia acabado, os familiares de Ana estavam esperando a polícia sair com a garota do galpão. A mãe a abraçou, a beijou, junto com o pai e o irmão. O estado era de choque.

O corpo de Gerson foi levado pelo rabecão. A história de Ana virou manchete em toda a região.

Depois de alguns dias, Ana pensou em retomar o contato com Recife. Lhe mandou um e-mail, a resposta veio rapidamente. O rapaz ficou sabendo de tudo pela internet, mas já não estava mais no Brasil, ele tinha aceitado uma bolsa de estudos na Inglaterra e disse à Ana que um amor é eterno, eterno enquanto dure. Ana seguiu seus estudos na UFSCar e ainda não se apaixonou novamente. Vale a pena amar pela internet?

ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO

Renato Chimirri