O anjo que surgiu em São Carlos numa noite de inverno

Frio na cidade

*Essa é uma obra de ficção

 

Olhou para o copo com um Martini Seco e pensou: “Por que fui fazer isso?” Saiu às três da manhã sem rumo de sua casa no Santa Mônica e rasgou a 15 de Novembro, na altura da praça viu três moradores de rua que estavam dançando no meio da Praça. Um deles tinha uma tocha na mão e os outros tentavam subir nas árvores.

O frio cortava, a neblina baixou e a iluminação de vapor de sódio dava o tom avermelhado para o céu. Não era fácil dirigir naquele momento com tanta coisa em sua cabeça, tinha bebericado o Martini, comido uns pedaços de queijo e o estômago parecia um pouco revirado, pensava que não queria vomitar naquele momento.

O carro deu uma engasgada perto da avenida São Carlos, o semáforo fechou. Ele suava, pingava, abriu uns botões da camisa para tentar se acalmar. Respirou, mas decidiu continuar sua viagem. Cruzou o posto BR e quebrou a Alexandrina pela direita. Às três da manhã com 9°C no termômetro que assustam qualquer um.

Em frente o Álvaro Guião um morador de rua dormia, coberto com jornais embaixo da parada de ônibus. Ele olhou e ficou pensando na cena e imaginava qual seria a história daquela pessoa que no momento não tinha uma casa para se proteger.

Resolveu dar ré com seu carro. Voltou da Padre Teixeira até perto do ponto de ônibus, baixou o vidro. Nisso o morador de rua acordou. Ele tirou Cem Reais da carteira e deu para o rapaz que deve ter pensado que estava sonhando com alguma coisa ou que aquele homem de óculos e todo suado poderia ser um anjo que apareceu por ali. De qualquer forma, o almoço e as pingas por alguns dias estavam garantidos, sorte a dele, ou azar, porque iria beber mais pouco. A porta do carro estava aberta….

Ainda pela Alexandrina o homem passou pela Câmara Municipal. Naquele lugar havia uma viatura da Guarda Municipal parada. Quando pensou que iria cortar o semáforo da Major José Ignácio só observou que a GM estava atrás dele. Deu aquele olhar trincado pelo retrovisor e viu o reflexo do giroflex bater no seu espelho.

O semáforo, sempre ele, seu maior inimigo, abriu. Diminuiu a marcha para não chamar tanto a atenção, mas essas coisas todos sabemos como funciona. A viatura da GM emparelhou perto da Praça da Catedral e os agentes ficaram olhando para aquele carro solitário, agora com os vidros abertos, e que descia pela madrugada praticamente solitário. Ao volante um homem com a camisa aberta, cabelos desarrumados e uma expressão esquisita.

Por ter diminuído a marcha não foi abordado, mas acompanhado até a Praça Santa Cruz, ali deu sorte porque o semáforo não fechou, mas o cruzamento da Alexandrina com a rua que batiza o Largo é sempre perigoso e uma BMW passou a toda pouco antes dele cruzar. Se a batida tivesse acontecido o estrago seria grande. Imagina um Fiat Uno ser acertado bem no meio por um veículo esportivo? Seria estrago na certa e ferimentos.

Andou, correu, pensou em parar naquela lanchonete onde se faz um lanche gigante na altura da Discasa, mas não tinha forças sequer para comer. A semana foi pesada, as decepções grandes, os dias difíceis e lentos, demoraram a passar justamente porque ninguém ligava para o que ele sentia.

Virou a Raimundo Correa a milhão e chegou ao sinaleiro da avenida São Carlos. Olhou com um ar arrogante, viu que não vinha ninguém e tocou, queria chegar logo, não aguentava mais andar por ali.

Chegou na praça Itália e contornou. Entrou pelo canto e conseguiu parar o carro. Debaixo do banco estava a garrafa de Martini. Resolveu dar uma beiçada no próprio gargalo, bebeu, o líquido escorreu por toda a sua blusa, apesar do frio, o calor em seu corpo era gigantesco, mas tudo seria resolvido em pouco tempo.

Desceu e começou a andar por aquele matinho, viu um “Noia” que tentou chegar perto, mas da cintura retirou um revólver (era de brinquedo, mas enganava bem!), o homem saiu correndo e resolveu não ficar mais por perto.

Subiu um pequeno barranco, arrancou umas touceiras de mato, começou a se cansar porque estava fora do peso. Quando chegou perto de uma pequena árvore parou e deu uma bufada.  “O que estou fazendo aqui?”

Nem ele sabia, mas depois de alguns minutos parecia novamente possuído pela força demoníaca ou alucinógena que o havia levado até ali.  Enfim conseguiu chegar onde mais queria: a linha do trem.

Poderia ter alcançado o lugar em outro ponto, mas queria que fosse ali. Estava desiludido com sua vida.

Enfim, resolveu deitar, ficar ali estirado e esperar pelo fim. Não aguentava mais aquela vida. Perdeu o emprego, teria que vender sua bela casa, seus bens, pagar as dívidas, iria dar uma vida que considerava ruim para a sua filha, a mulher também havia sido despedida do escritório de arquitetura onde trabalhava, a vida da família desmoronou e ainda por cima havia perdido a mãe há pouco tempo. Não via mais sentido e queria acabar.

Mas nem sempre a esperança nos deixa, ela pode aparecer a qualquer momento e simplesmente nos abraçar. A buzina começou a aparecer, ele estava estirado, de longe o maquinista já o havia percebido nos trilhos, buzinava sem parar, tentou frear a todo custo, mas a sua previsão mostrava que não iria dar tempo. Ele já estava preparado para o pior vendo aquele homem no meio de seu caminho.

Rafael continuou deitado, apenas de olhos fechados e esperava, esperava, esperava. Foi nesse momento que sentiu um teco. Alguém o empurrou, ele rolou para longe dos trilhos e a composição passou.

Ficou deitado, todo sujo, olhando para o céu, depois de uns cinco minutos quando olhou viu aquele morador de rua que ele havia ajudado em frente o Álvaro Guião. “Como você chegou até aqui?” Foi a única pergunta que conseguiu fazer.

O morador de rua explicou que o viu tão maluco, falando sozinho ao dar ré no carro que ele próprio aproveitou a porta aberta e resolveu entrar no banco traseiro. “Entrei, você me convidou, não lembra? Você disse que ia pagar um lanche e uma cerveja!”

Tão transtornado nem lembrava disso, apenas que havia dado R$ 100 para o homem que dormia no Álvaro Guião. “Você queria fazer uma bobagem, eu lhe segui, agora está aqui, não faça isso, você tem casa e eu não! Veja esse frio! Vai para a sua família! Nada pode ser tão ruim assim! Nossa que fome!”

O homem que salvou Rafael era João. Nasceu em Minas Gerais, foi pedreiro e rodou por vários lugares como trecheiro. De cidade em cidade foi empurrado e parou em São Carlos onde conseguiu sua missão mais importante: salvar uma vida.

João levantou Rafael que parecia recobrar o juízo. Chorou copiosamente, contou sua situação para seu salvador e depois ouviu: “Melhor minha vida, não tenho preocupação, mas também não tenho banho todo dia e nem onde morar!”

Rafael conseguiu voltar ao carro e ficou matutando as palavras do seu salvador, levou João até uma lanchonete. Lá tomaram cerveja e comeram. Mas João disse que não iria colocar os Cem Reais na roda, isso era para outro dia.

O mendigo quis ficar perto do terminal rodoviário, queria ir embora de São Carlos, também já tinha salvado alguém. Rafael cumpriu seu desejo, depois tentou voltar, mas misteriosamente não achou mais o homem. Ainda emocionado, voltou para a casa. Refletiu depois de um banho sobre o caos da sua vida. Todos dormiam. Tomou água e resolveu lutar por uma vida melhor. Do caos também pode nascer luz.

Renato Chimirri