O boiadeiro assassino de Santa Eudóxia

*Esta é uma obra de ficção

“Viajar” todo dia para Santa Eudóxia era algo natural para Vilmar. Ele voltava de mais um dia de trabalho em São Carlos pela SP 318, a rodovia Thales de Lorena Peixoto Jr. A estrada que já foi palco de muitos acidentes recebeu algumas melhorias e um pequeno trecho duplicado, mas mesmo assim precisava da atenção do motorista quando se passava por ela.

Caminhões abarrotados com cana eram comuns no trecho entre São Carlos até Cabaceiras onde depois seguiam para a usina da região. Vilmar já havia perdido as contas de quantas vezes havia feito ultrapassagens para adiantar seu retorno para a casa. Numa dessas, ele passou numa faixa proibida, naquela época ainda tinha um ômega, e quase bateu de frente com outro treminhão. Jurou pela sua mãe que jamais arriscaria a vida dessa forma, nem um copo de cerveja tomava se estava perto de voltar para o distrito.

Na verdade, Vilmar morava na Fazenda Sete Espadas, um local que abrigou escravos e que depois se transformou em ponto turístico. Seu pai era de uma linhagem de fazendeiros, mas que hoje tinham percebido que investir na produção (eles plantavam laranja) era tão importante quanto abrir a propriedade para a visitação. Em sua fazenda era permitido ver os locais onde os escravos trabalhavam e como eram produzidas toneladas de café, o chamado ouro negro do interior paulista. Aquilo fazia a fazenda prosperar em tempos de crise econômica como os que vivemos hoje.

Ocorre que Vilmar estava voltando para a sua casa e tinha muito sono. Quando passou pelo Varjão o tempo estava com o semblante bastante carrancudo e resolveu descontar nos mortais sua arrogância já declarada.

Uma chuva muito forte começou e o motorista simplesmente reduziu a velocidade. O vento era forte, parecia até que empurrava a robusta caminhonete para fora da pista. Vilmar estava ouvindo o futebol, queria chegar em casa logo para ligar a Sky e acompanhar a partida, mas sabia que ainda tinha pelo menos 20 a 25 minutos de viagem.

Entrou em Água Vermelha, cortou o lugarejo e passou a viajar pela vicinal Abel Terrugi. A chuva apertava ainda mais, o primeiro susto veio quando um cavalo apareceu na estrada, mas por sorte deu tempo de reduzir a velocidade. “Malditos donos que não prendem seus animais!”, pensou.

Fez uma curva, outra curva, passou por um buraco e visualizou a frente, não via nada, apenas escuridão que começava depois que o farol da caminhonete perdia força. Foi nesse momento que sentiu um toque no carro. “Cacete, será que atropelei alguém!”

Correr ou parar? A chuva era forte demais, porém resolveu arriscar, não poderia ficar de consciência limpa se não tivesse parado. Voltou, debaixo de uma chuva gigante, caminhou uns 20 metros e encontrou o corpo.

Um homem estava estirado, parecia morto. Ele usava uma camisa xadrez, botas, calça jeans e na cintura tinha um revólver calibre 38. Vilmar queria chamar socorro, embora já notasse que o óbito era flagrante. Pegou o celular e ligou, não havia comunicação, a tempestade de raios era grande, o sinal não funcionava.

Mesmo sob um toró fenomenal sua garganta secou. O que fazer? O desespero nessas horas parece ser um parceiro estranho e que dá ideias absurdas. Vilmar se certificou que o homem já tinha passado dessa para uma melhor e o colocou na caçamba da caminhonete e entrou numa quebrada à esquerda da estrada.

Parou perto de um rancho velho, mesmo com o aguaceiro continuando e entrou na casa. Ascendeu um lampião antigo e se sentou por uns instantes. Não sabia o que fazer, não pensava, não concatenava raciocínios, até que olhou para uma velha pá que estava encostada na lareira da cabana.

“Era isso!”, imaginou. Enterrar o dito cujo, sair correndo dali e ir para a casa. “O que eu posso fazer? Não achei documentos, o cara tá morto!”

Vilmar tomou a pá em suas mãos, passou pela porta, a chuva comendo solta votou a molhar sua cabeça. Porém, ele não conseguiu nem olhar para o carro e levou uma coronhada. A pancada foi forte.

O rapaz caiu no chão e deu de cara com um par de botas no seu nariz. Ainda tonto com o que havia acontecido olhou para cima e viu quem era o seu algoz.

Justamente ele, o boiadeiro que havia sido atropelado. Vilmar não acreditava. “Como? Como você pode estar aí? Eu atropelei você ali atrás!”

O boiadeiro tinha os olhos avermelhados, um bigode grosso e estava com cara de poucos amigos. Ele juntou Vilmar e o levou puxando-o por uma das pernas, no meio do lamaçal e da tempestade até um descampado ao lado da cabana.

Neste local, havia uma espécie de tronco, arrastando sua vítima até lá, o boiadeiro o amarrou com as mãos para trás e depois lhe deu dois tapas no rosto. “Acorde, acorde!!”, disse ele.

Vilmar com o nariz quebrado, a cabeça sangrando por causa da coronhada fixou seus olhos e viu o homem em sua frente. Quando perguntou o que estava acontecendo levou murros na barriga, chutes e tapas. “Você está aí porque não quis pagar a sua dívida e agora eu vou lhe cobrar!”

Quando o boiadeiro enfatizou a palavra “cobrar” raios e trovões iluminaram e rasgaram o céu. Parecia um filme de terror “B” tudo aquilo que ele estava vivendo. “Quero seu sangue Alberto! Você me deve!”, diz o boiadeiro.

Aquilo causou uma lembrança em Vilmar, antes de levar mais um tapa e outra coronhada, ele se recordou de seu avô, Alberto Marques, ele foi sequestrado por um homem, nos anos 30, porque havia se casado com a sua mulher, justamente aquela que viria a ser sua avó Dona Gracinha.

A mulher era linda, morena de olhos verdes, havia chegado do interior do Paraná junto com o boiadeiro para trabalhar na fazenda, mas se engraçou com o patrão.

Diz a lenda que o boiadeiro morreu de desgosto por causa disso no meio de um matagal, mas nunca encontraram seu corpo, pois depois do sequestro ele foi demitido da fazenda. “Amigo, eu não tenho nada com isso, seu problema é com meu avô, aliás você nem deveria estar vivo!”, disse Vilmar.

O boiadeiro ouviu e retrucou com mais um soco no rosto de Vilmar: “Seu discurso não me convence, eu a       quero de volta!!”

Após muitos socos e com Vilmar amarrado e caído, o boiadeiro começa a chorar. “Nunca mais vi Gracinha, perdi a vida, perdi meu amor, nada mais me interessa!”

Tomado pela dor, pelo ódio e pela frustração, o homem saca o seu revólver e o apontou para Vilmar. Era o fim, ele terminaria ali, morreria com um tiro amarrado no meio de um tronco perto da fazenda da família.

Porém, num gesto inesperado, o próprio boiadeiro pega a arma e dá um tiro na própria cabeça. Antes de atirar, ele mesmo com um canivete solta Vilmar.

O barulho e os miolos ecoaram e espirraram para todos os lados. Vilmar assistiu a tudo quase sem forças, ferido, se arrastando.

Depois de lembrar da antiga história de família, resolveu fazer justiça ao corpo do boiadeiro. O recolheu, mesmo mancando e todo machucado, e o enterrou numa cova que ele mesmo cavou perto da cabana. Dentro da casa achou uma pequena cruz de madeira e a fincou no lugar.

Andando com muita dificuldade, Vilmar foi até a caminhonete e as duras penas dirigiu até sua casa.

Quando chegou sua mãe e seu pai estavam desesperados porque ligavam a horas para o filho e nada ouviam. Vilmar ganhou os primeiros socorros, mas não quis ir ao médico, se deitou e ficou refletindo sobre o que tinha vivido.

Um mês se passou e o rapaz continuava fazendo o mesmo caminho. Certa noite, quando entrou na fazenda viu que o tempo estava fechando e recebeu uma ligação de seu irmão Valmir. “Vilmar, acho que atropelei alguém, um cara, parecia um boiadeiro!”

Aos gritos Vilmar disse ao irmão: “Não pare! Não pare! Venha embora!! Embora!”

Renato Chimirri