O casal de São Carlos que deu certo e morreu pelo WhatsApp

*ESSA É UMA OBRA DE FICÇÃO BASEADA EM UM CASO REAL

Ele tomou um café numa famosa lanchonete da Carlos Botelho. Estava de malas prontas para ir embora. Voltaria à Mogi Mirim, sua cidade natal, o tempo de pós-graduação tinha acabado e  ainda aguardava respostas de empresas da região e de São Carlos. Não sabia muito bem o que faria no futuro, por enquanto, apenas esperava para comer o feijão da mãe novamente.

Nesse tempo que esteve sentado na mesa aguardou uma resposta à mensagem que havia mandado. Fica ansioso, se a resposta chegasse, talvez chutasse tudo e fosse ser feliz em São Carlos, mesmo que precisasse trabalhar em algo fora de sua área. Mandou às 13h18, mas não vinha a resposta.

Fernanda era o alvo. Loira, bonita, olhos azuis, dona de uma personalidade forte, mas também de muitas dúvidas. Ele, mulato, alto, com uns quilinhos a mais, um sorriso bonito e a força de estar sempre presente quando ela precisava.

Fernanda usava aquela aplicação GB do WhatsApp que permite à pessoa visualizar mensagens e não responder, assim Leonardo ficava sempre sem saber se a amada havia visto ou não seus recados. Aquele era um amor conturbado.

Ele conheceu Fernanda enquanto ainda tinha um relacionamento com uma jovem da UFSCar, mas o amor pela loira veio à primeira vista, com isso deixou a primeira namorada. Ela também simpatizou com o jovem de Mogi Mirim rapidamente, se apresentaram pelo Facebook e depois trocaram WhatsApp. Eram mensagens enviadas, corações, poemas, músicas, a vida dividida pela tela do celular.

Ficaram assim por pelo menos um ano. Até que resolveram marcar um café. Tinham escolhido a Le Gaban, a pandemia tinha arrefecido. Lá se foi Leonardo, sentou à mesa e esperou por pelo menos uma hora e meia. Nada de Fernanda, mensagens e mais mensagens e nada de resposta.

Naquele dia, Leonardo se levantou e voltou para a casa jurando que nunca mais falaria com a garota, pois se sentia desprestigiado. Horas depois, chegou uma mensagem da jovem se desculpando e dizendo que uma pessoa da família tinha passado mal e que ela precisou acompanha-la no médico. Desculpas aceitas por Leonardo, a vida seguiu.

Mais mensagens, mais fotos, áudios do que vocês fez hoje, vídeos engraçados, conversas sobre religião, vida, namoro, casamento, sexo e futebol. Leonardo achava que Fernanda era a mulher ideal. E Fernanda? Será que achava Leonardo o homem ideal? Ela sempre dizia que sim, que ele tinha uma importância gigante em sua vida e que o amava.

Resolveram novamente se encontrar. Dessa vez tomaram um café no Espaço Lavi na rua 15 de Novembro, onde tem um bolo de paçoca delicioso. Leonardo olhava para as madeixas loiras, lindas, sedosas, mas não tinha coragem de chegar, não sabia o que poderia fazer. Tomaram dois cafés, comeram bolo e falaram da vida. Ali, foi a primeira vez que se viram de verdade.

Quando se despediram teve um abraço, mas o beijo foi só no rosto. Ninguém sabia o motivo de não terem se beijado para valer. Leonardo se sentiu renovado e foi para a casa pensando que tudo era possível, que o final da pós estava próximo, mas que o amor era mais perto ainda.

Um dia, depois de algumas mensagens, Fernanda contou que sua casa estava insuportável e que não tinha para onde correr.

Leonardo mais do que depressa se ofereceu. Falou que ela poderia ficar em seu quitinete o tempo que quisesse e que ele cozinharia para ela. Fernanda respondeu que gostaria sim, que seria maravilhoso.

Pronto! Leonardo tinha armado um jantar. Comprou vinho, era bom nisso! Escolheu um Casal Garcia, aquele que você deve apreciar gelado. Preparou estrogonofe, salada, arroz, batalha palha e ficou preparado para receber Fernanda.

Ela chegou às 20h. Linda, de preto, olhos cativantes. Admiradora de paisagens foram ver a vista da cidade. Ali mesmo, ela tomou a coragem que ele não tinha e os dois se beijaram, se amaram e foram felizes. Jantaram beberam, riram, foram um casal que o destino selou.

Depois disso, Leonardo nem dormiu, Fernanda também não. Às 6h30 do outro dia mensagens e comentários sobre a noitada, sobre a vida, sobre o amor. Estavam felizes. Mas depois de dois dias Leonardo mandava mensagens e Fernanda não respondia, não falava, não conversava. A aflição foi ficando maior, maior e maior.

Esse vácuo de Fernanda durou sete meses até que ela soube que Leonardo tinha perdido seu cão de estimação, o Bartira. Desolado, o jovem entrou numa depressão por um tempo e Fernanda resolveu mandar mensagem.

Reataram a amizade. Ela soube consolar o rapaz, as conversas foram evoluindo e eles novamente estavam juntos, conversando trocando papos e confidências. Se encontraram novamente em uma praça e não resistiram. Ali ficaram juntos, na Praça Brasil, aquele onde tinha Maria Fumaça. Mataram a saudade na Vila Nery.

Depois de um tempo, Leonardo contou que a pós estava acabando e que se Fernanda quisesse ele ficaria em São Carlos. Ela balançou a cabeça que sim, mas o papo descambou e eles passaram a falar de outras coisas.

No outro dia, Leonardo tentou retomar a conversa por WhatsApp, mas não conseguiu resposta. Nenhuma! Não vinha nada, não se falava nada, ele sabia do WhatsApp GB e achou que estava novamente sendo ignorado por sua musa.

Mas dessa vez, no dia que era o da partida para sua cidade natal, resolveu tomar um café. Mas viu que dava tempo de passar na casa de Fernanda.

Foi correndo, criou coragem e bateu na porta. Uma senhora grisalha atendeu, ele se identificou como amigo de Fernanda.

Cristina pediu para que entrasse. Então Leonardo contou que mandou mensagem, mas que não obteve resposta. Foi quando Cristina deu a notícia derradeira: “Ah, Leonardo! A Fernanda sempre falava de você, até com um ar de possessão, ela era sentimental, as vezes não respondia, gostava de ignorar as pessoas, queria ser ela mesma, falava que fazia o que bem entendia, mas minha menina na noite passada se sentiu mal e gritou, fui correndo ao quarto e quando cheguei a encontrei caída no chão, chamei socorro, mas nada pode ser feito, Fernanda infartou, ela tinha um problema de nascença e não resistiu!”

Aos prantos, Cristina contou e arrematou: “Ela amava você, mas fugia, porque achava que morreria antes!”

Os dois se abraçaram na casa que fica avenida Carlos Botelho quase esquina com a Ruy Barbosa por um longo período.

Leonardo deixou Cristina e lhe entregou uma foto que enquadrou e daria para Fernanda. Era dela fazendo brigadeiro em sua casa.

Andando em prantos até a rodoviária, Leonardo subiu no ônibus e ficou sozinho. Só lembrou da letra de Algo Parecido, música do Skank que diz:

“….E se eu falasse nessas coisas que vejo em você

Me atravessam num segundo sem eu entender

E tudo que me faz ver

E tudo que me faz ter

Aquilo que eu sinto por você parece ser maior

Que o destino que me passa e te passa

E há de ser um só

A gente é diferente quando sente

Mas pode ser que mesmo assim

A gente até se ajeite

Você bem que podia vir comigo

Para além do final dessa rua

O outro lado da cidade

Ou algo parecido…”

Renato Chimirri