O Casal que não se entendia nem em sonho

*Esta é uma obra de ficção

As discussões não paravam. O casal parecia que estava fadado ao fim. Era um relacionamento de 20 anos que estava desaguando pela inoperância. A busca pelo entendimento entre Marília e Gaspar era algo que não vinha de hoje, mas as cobranças da mulher ao marido pareciam intermináveis e as poucas respostas dadas mostravam uma falta de comprometimento sem tamanho de quem era cobrado.

Gaspar tinha uma personalidade curiosa. Inteligente, publicitário de sucesso, vivia imerso no trabalho e ao mesmo tempo distante de casa, mas o interessante é que ele mesmo não via essa distância como problema, pois enxergava em Marília, mulher forte, decidida, psicóloga, a pessoa ideal para cuidar dos seus dois filhos.

As barreiras para Gaspar eram muitas. Ao mesmo tempo que era acusado de pouco envolvimento, ele também não via brechas para entrar na vida dos filhos como realmente queria, sua mulher o sufocava com a personalidade marcante que tinha e ele vivia um verdadeiro dilema: entrar ou não de cabeça na vida dos filhos?

Quando decidia ser mais incisivo era preterido pela mulher, que talvez inconscientemente achava que o marido estava tentando ocupar um lugar que era seu. Mas ao mesmo tempo, ela também clamava pela presença masculina na vida do casal de filhos.

Era o fim. Os dois não se entendiam mais. Numa noite, enquanto os filhos dormiam, Gaspar chamou Marília para conversar e depois de uma taça de vinho falou aquilo que vinha represando há pelo menos uns 10 anos. “Não agüento mais morar aqui! Viver com você! Estou sufocado! Vou morar no escritório e depois nos acertaremos!”

Marília parecia preparada para ouvir aquilo. De uma certa forma, ela já esperava que Gaspar se manifestasse, pois o carinho entre os dois tinha diminuído consideravelmente ao longo dos anos. Porém, a psicóloga não perdeu a oportunidade e chamou o marido de covarde. “Mudar assim é fácil! Eu quero ver você sair da nossa casa de uma vez por todas sem ser o covarde que sempre foi!”

Gaspar suava. As mãos ficaram úmidas, os dentes estavam rangendo, ele queria tomar um atitude contra Marília, pensava, mas não tinha coragem, de usar a força física. “Marília você sempre me sufocou, nunca deixou eu chegar perto de nossos filhos, você me sufoca, nem cozinhar eu posso, o nosso sexo é ruim, nossa vida uma sessão impiedosa de desencontros! Não dá mais, não quero mais você!”

Marília olhava para Gaspar e nunca o tinha visto tão falante. Os dois se conheceram no colegial e tiveram uma relação-relâmpago. Ela foi a única mulher da vida de Gaspar, ao passo que num contraditório mais que diferente, Marília já tinha namorado três rapazes. “Você é que não se libertou, Gaspar! Quando o conheci, nem beijar você sabia! Te peguei pela mão, te ensinei tudo sobre a vida e agora você vem com essa? Continuo lhe achando um baita sangue de barata!”

Gaspar encheu mais uma taça de vinho e avisou Marília que já tinha falado com Antunes, advogado de sua agência de publicidade para tratar do divórcio. Disse que pagaria a pensão necessária para os filhos e que jamais pretendia voltar a pisar em sua casa. “Não quero mais, Marília, você me cansou! Estou farto!”

Marília não balançava, disse que pediria na justiça aquilo que era justo para seus filhos e que uma batalha jurídica viria pela frente. Porém, destacou que não queria dinheiro de Gaspar. “Eu imploro por sua atenção há anos e você só fica enfurnado naquela agência, namora com as peças publicitárias, nem Jasmine, aquela gostosona, você pega! Se tivesse me trocado por ela, ainda nem iria reclamar, mas pelo jeito está me trocando pelo seu laptop, iphone e clientes! Você não passa de um lerdo, um bocó!”

A briga parecia que iria varar a noite. Gaspar mostrou para Marília suas roupas. “Veja! Estão mal lavadas! Nem cuidar de mim, você cuida! Estou um caco! Você tem empregada, faxineira, mas deixa sempre os funcionários fazerem o que bem entendem! Enquanto está naquele maldito consultório nem vem almoçar em casa, como esse lixo que a Ana Maria faz e não reclamo! Você deveria levantar a mão para o céu e me agradecer por ser um bom marido!”

O ataque frontal a autoridade de “rainha do lar” de Marília foi grande demais para ela suportar. O saquinho de batatinhas ruffles que estavam suas mãos voaram para cima de Gaspar que ficou com seus cabelos pretos todos cobertos por pedacinhos amarelos de batatinha. Ele não era dado à violência, não revidou, apenas encheu mais uma vez a taça de vinho, notava que já começava a ver em duplicidade a sua ex-companheira. “Pois é, Gaspar! Seu bundão! O meu carro estava com problemas elétricos faz meses e tive que falar com o Marcelão sozinha e ainda por cima passei um suplício de ver aquele colosso de homem olhando para mim com cara de má intenção! Não fiz nada! E isso foi por você! E o que eu ganho? Um pedido de separação de um derrotado, isso pode até ser bom, quem sabe o Marcelão não resolve meu problema, não é?”

Marília quando estava verdadeiramente irritada começava a pisar duro. Ela caminhava da copa para a cozinha no seu andar habitual. Pisava duro, aquilo normalmente deixava Gaspar com medo, contudo, por incrível que parecesse, ele não estava intimidado pelo andar de potranca indomada da (ex) mulher. Seria o efeito do álcool? “Pensa que nunca vi seus olhares para outros homens? Você só se casou comigo por causa da minha estabilidade financeira! Minha família sempre me resguardou era nisso que você pensava quando se casou! Queria sair da loucura, daquela casinha velha que seu pai tinha! Olha hoje o palácio que você mora! Você nunca me agradeceu! Agora, não quero mais nada com você, sua megera!”

Gaspar havia secado a garrafa e no meio da discussão ligou para Antunes, queria uma hora logo às 8 horas da manhã com o advogado. Falou com ele pelo celular  e o próprio Antunes havia percebido que o publicitário estava alterado, pediu calma e profetizou: “Não faça nenhuma besteira!”

Ele se levantou deu quatro tapas em cima da mesa e disse que estava farto daquela discussão infrutífera e queria iria dormir na sala e ver um bom filme antes de abraçar Morfeu. Quem bebia agora era Marília, ela estava com um copo de Uísque nas mãos e comia um queijinho, quando brigava com o marido tinha fome. “Quero comer, pois assim fico bem gorda e não arrumo ninguém depois de você, seu pária! Sinceramente, o homem só veio para atrapalhar a vida da mulher, gostaria de ser lésbica, mas não sou! Não consigo! Mas depois de você, não quero mais saber dessa raça!”

Marília, que quando bebia fica estabanada, levantou-se foi até a mesa da copa e juntou todas as contas da casa que haviam sido colocadas, como de hábito, pela faxineira no mesmo lugar. Fez um bolinho com os papeis e atirou-os em Gaspar. “Pode jogar! Pode jogar! Esse é o seu fim! Você sempre foi isso! Uma pessoa sem controle!”

Não demorou e o dois estavam discutindo frente a frente, falando alto e, assim, descambaram para os impropérios. “Babaca! Asno!” O ofendido: “Você que é uma infeliz! Nem ligo para os seus xingamentos! Sua bruaca! Bruxa!”

O espetáculo dantesco durou por mais alguns minutos e terminou interrompido por Artur e Ana Clara. “Dá para vocês dois pararem de brigar? Amanhã temos prova na escola!”

Ana Clara estava com as mãos na cintura, enquanto Artur apenas balançava a cabeça em tom de desaprovação. “Meninos, temos algo para lhes contar!” Ana Clara ergueu as mãos e pediu o silêncio do pai. “Amanhã, pai! Agora temos que dormir, se vocês querem se largar o problema é de vocês, esse casamento está doente faz tempo!”

Gaspar e Marília se olharam mutuamente e decidiram ir para a cama. Ele ficou na sala, enquanto que a (ex) esposa foi para o seu quarto.

A noite terminou com uma chuva e frio que se abateu sobre a cidade. No outro dia, Gaspar acordou em sua cama. Viu sua mulher abrir os olhos e pedir para ele desligar o despertador. Ele levantou olhou ao seu redor, não viu seu copo de vinho. Estranhou estar deitado em sua cama e depois foi até a sala. Viu tudo arrumado, as contas em cima da mesa e o saquinho de batata ruffles intocado como ele havia deixado no dia de ontem. Os vinhos não haviam sido abertos. Tomou um copo de água, respirou fundo e percebeu: simplesmente tinha sonhado.

Será que seu sonho se transformaria em realidade? Naquela mesma manhã, Marília mandou as crianças para escola e fez uma surpresa para Gaspar, os dois passaram uma manhã romântica, como há muito tempo não ocorria naquela casa. Intuição feminina?

A idéia de separação ainda existia, porém tinha ficado mais distante. Gaspar era medroso, só conhecia Marília como mulher em sua vida.

Por M.A.