Artur saiu caminhando da USP numa manhã tão densa que a neblina parecia mastigar o campus, dobrando as árvores do Monjolinho em ângulos improváveis. Cada passo parecia deslocá-lo não apenas pela cidade, mas por fendas invisíveis do tempo. Seguiu pela Carlos Botelho, onde as casas se inclinavam levemente, como se cochichassem umas às outras sobre segredos que ele jamais entenderia. Os carros passavam sem fazer barulho, deslizando como pensamentos de alguém que sonha.
Quando começou a descer a Avenida São Carlos, tudo ficou ainda mais estranho — e São Carlos, ele sabia, tinha um talento peculiar para exagerar na estranheza. As vitrines pareciam se deslocar alguns centímetros para frente e para trás, como se respirassem. Os semáforos mudavam de cor não por regra, mas por humor. As pessoas caminham sem fazer sombra, enquanto outras sombras caminhavam sem ter pessoas.
Foi nesse cenário que Artur, tomado por um chamado que não sabia explicar, sentiu que Clara estava perto.
E ela realmente estava.
Ali, na Praça Coronel Salles, sentada num banco cujo concreto ora parecia sólido, ora parecia líquido. O mundo ao redor dela parecia se reorganizar, como se a praça fosse apenas um palco e Clara, a personagem principal de um universo que não reconhecia limites. Ela estava iluminada por uma claridade que não vinha do sol — vinha dela mesma.
Artur parou. Piscou. Ela sumiu. Piscou de novo. Voltou, sorrindo como se já o esperasse desde sempre, desde antes de qualquer tempo que ele pudesse compreender.
Ele caminhou até ela sentindo o chão mover-se como um tapete ondulante.
— Você existe? — perguntou, já sabendo que aquela pergunta perdera o sentido no momento em que a fizera.
— Só às vezes — respondeu Clara, com a voz que parecia ter ecos de lembranças que ele nunca viveu. — Hoje é um dos dias.
Daquele instante em diante, Artur entendeu que a cidade não era apenas cenário: era o caminho para ela. E, talvez, o limite entre os dois mundos que jamais conseguiriam se tocar. Mas naquele dia, naquele banco da Coronel Salles onde a realidade parecia dobrada como papel, ele sabia que tinha encontrado o impossível — e que o impossível estava sorrindo para ele.
