O Coronavírus, a Semana Santa e o Salmo que não cantei

Ramos na porta

Há pelo menos 25 anos dou voz ao Salmo 21 da Missa de Domingo de Ramos em minha paróquia, mas neste ano de 2020 estou mudo, a pandemia do Coronavírus calou minha voz e parece que morri um pouco nesta abertura da Semana Santa para os católicos. Uma tristeza imensa, de morte, tomou conta de mim, justamente por não saber o que fazer, por não poder está lá dando minha pequena contribuição num momento tão significativo para quem vive esta fé.

Faz muito tempo que canto na igreja e confesso que essa é uma das poucas coisas que me deixa calmo e assertivo nessa vida, mas a pandemia de Coronavírus chegou realmente para bagunçar tudo e em São Carlos já são nove mortes suspeitas investigadas. Não podemos esmorecer, a decisão de ficarmos sem a presença na Missa é a mais acertada, assim como em outros serviços religiosos, não podemos ceder à tentação de passar a doença para outras pessoas.

Mas fiquei vendo tudo que acontecia e segui o pedido da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e coloquei ramos no portão da minha casa. Foi uma experiência diferente, caminhei até o bosque que existe perto da residência com um facão nas mãos, um vizinho ficou olhando com cara desconfiada, um casal que erradamente (por causa do distanciamento social) estava sentado na mureta do bosque e bebia cerveja se assustou ao ver que eu estava chegando com um faca daquele tamanho e um rapaz que passou por ali perguntou se eu ia plantar o que havia cortado. Para ele, apenas disse que sim, e na hora imaginei que esse seria um plantio espiritual. Sobre o vizinho assustado, quando voltei ele estava cortando ramos de sua árvore, fiquei feliz!

Fiz a minha pequena procissão de Ramos, fui até o bosque e voltei, cantando “Hosana ao Rei” na minha cabeça e ergui sozinho os ramos que havia cortado da árvore e mais uma vez lembrei de outra música:

 

Da cepa brotou a rama

Da rama brotou a flor

Da flor nasceu Maria

De Maria o Salvador

 

Em frente de casa imaginei como iria colocar os Ramos no portão e então lembrei de Jesus dizendo para o discípulo: “Você encontrará um homem e diga a ele que “o senhor precisa dele””.

Foi isso, fui até o quartinho e achei um manto vermelho. Isso mesmo, vermelho cor de sangue, cor de sacrifício, cor de Semana Santa e neste momento enrolei os ramos e os pendurei no portão da minha casa, não sem antes cantar: “Hosana ao Filho de Davi!”

O Padre Joãozinho, SCJ, definiu bem o que será a Semana Santa em 2020: Esse ano viveremos a Semana Santa muito semelhante a primeira Semana Santa da história. Não aconteceram muitos ritos… mas a salvação aconteceu passando pela lágrima, suor e sangue… a morte foi vencida pela ressurreição! Oremos!

 

Para finalizar essa pequena reflexão fica aqui o Salmo 21 que abre a Semana Santa:

— Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

 

— Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

 

— Riem de mim todos aqueles que me veem,/ torcem os lábios e sacodem a cabeça:/ Ao Senhor se confiou, ele o liberte./ E agora o salve, se é verdade que ele o ama!

 

— Cães numerosos me rodeiam furiosos/ e por um bando de malvados fui cercado./ Transpassaram minhas mãos e os meus pés/ e eu posso contar todos os meus ossos.

 

— Eles repartem entre si as minhas vestes/ e sorteiam entre si a minha túnica./ Vós, porém, ó meu Senhor, não fiqueis longe,/ ó minha força, vinde logo em meu socorro!

 

— Anunciarei o vosso nome a meus irmãos/ e no meio da assembleia hei de louvar-vos!/ Vós que temeis ao Senhor Deus, dai-lhe louvores,/ glorificai-o, descendentes de Jacó,/ e respeitai-o, toda a raça de Israel!

Ainda sobre o Salmo, você pode pensar: Deus nos abandonou? Não. Nós que o deixamos, diante de nossa fraqueza e desrespeito com o próximo, que tudo o que passamos se transforme em solidariedade.

Renato Chimirri