O COVID-19 e o vendedor ambulante que queria água e um sanduíche

Uma garrafa de água para um trabalhador porque ele merece

Jardel tem nome de artilheiro do futebol brasileiro. Casado, pai de três filhos. Mora numa cidade da região com muitos casos de COVID-19 (ele pediu para não contar o nome para que suas vendas não fossem prejudicadas) e era funcionário de uma indústria. Aos 44 anos a pandemia de Coronavírus mudou completamente a sua vida.

A indústria onde Jardel trabalhava cortou pessoal e ele foi demitido. O que fez para sobreviver? Passou a trabalhar como ambulante para tentar complementar a renda da casa, já que sua esposa é funcionária pública, mas somente o salário da mulher não é o suficiente e os filhos estão estudando.

Foi na terça-feira, dia de ontem, 21, que ele bateu em casa. “Boa tarde, senhor! Gostaria de comprar um perfumador de ambiente?”

Eu olhei, em princípio não queria comprar nada, estava trabalhando em outra reportagem, mas ele não perdeu tempo e foi logo disparando: “Olha senhor, na verdade hoje nem quero vender, mas estou aqui nesta cidade para tentar ganhar a vida, entretanto estou com fome e com sede”, disse.

Naquele momento resolvi comprar o produto, mas o pedido de comida e água foi o que mais pegou. Respondi que já pegaria a água, fiz um litrão gelado e dei a ele, falei que podia levar pelo resto da caminhada. “Nossa, que coisa boa, hoje vendemos pouco, se eu usar o dinheiro para comprar água, não levo quase nada para a casa”, contou.

Olhando aquele rapaz com uma roupa surrada, uma máscara velhinha de pano no rosto e um boné velho lembrei do pedido de comida. “Ah, como pão sim, senhor! Nessa hora comemos de tudo!”

Entrei, preparei três sanduíches de pão com mortadela, queijo e embrulhei e levei para o Jardel que nessa hora já estava na área de casa se refrescando do dia quente em pleno inverno.

Ele me disse que vende seus perfumes por R$ 15 e esses dias tinha conseguido “desentocar” 50 deles. Me contou de onde vinha a mercadoria e ela chegava de uma fábrica conhecida, porém contou que a vida de ambulante é ingrata. “A gente reza para não chover, mas se o sol como está hoje dura muito tempo, é melhor que chova, o brasileiro não tem sossego!”, afirma.

Perguntei sobre o Coronavírus e Jardel deu uma triste notícia: “Minha cunhada foi infectada e ficou um tempo na UTI, ela saiu, mas está com sequelas, cuidando do pulmão, perdeu o emprego também, não sei como faremos”.

Jardel como muitos pais, disse que teme apenas que seus filhos sejam contaminados. “Não quero que isso pegue nas crianças trabalho de máscara, mas aqui no Brasil as praças não tem lavatórios para o ambulante se limpar, não tem bebedouro, como vou matar a sede, não sou ladrão, sou trabalhador!?!”

Dia desses, Jardel contou que entrou numa praça e vários andarilhos vieram tentar lhe roubar a mercadoria que carregava. “Sai correndo, levei um tombo, ralei o cotovelo”, diz mostrando o lado esquerdo.

Depois de receber o sanduíche perguntou se poderia comer na área de casa e em paz. Eu consenti, não porque me julgo melhor que ninguém, mas porque além de ver um ser humano companheiro, era preciso colher essas informações para um relato nestes tempos de pandemia.

Jardel é esclarecido sobre várias coisas, ele disse que o povo não cumpriu o isolamento e isso tem prejudicado a volta de parte das atividades. “É muito claro isso, churrasquinho, truco, dancinha, tudo cheio de gente, um prato cheio para o vírus”, descreveu.

O ambulante comeu rapidamente dois lanches, então fiz mais um para ele levar e lhe dei refrigerante e ele contou outro episódio. “Um dia desses eu fui numa cidade vender os perfumes e uma mulher quando me viu, jogou água na calçada, eu fui pisar, ela me molhou, a mágoa foi moral, eu sentei numa esquina e comecei a chorar, mas Deus tem sido bom e vendi muitos produtos nessa oportunidade”, ressaltou.

Para o trabalhador essa área de vendas ambulantes é incerta, porém coloca alguma perspectiva para a sua família. “Eu estou tentando crescer nisso, sair para vender nunca fiz, sempre fui operário, mas ou é isso ou nada! Filho tem necessidade, minha mulher me apoiou, a companhia segue”.

Todos os dias ele sai com uma Kombi e mais quatro companheiros para vender, cada um num local.

Jardel se levantou, disse que não me daria a mão, mas falou desse jeito com um sotaque simpático de quem é das Alagoas: “Lhe dou meu coração por esse almoço! Obrigado mesmo!”

Seguiu seu caminho e eu fiquei na dúvida sem saber se chorava ou escrevia. Fiz os dois e fim.

 

Renato Chimirri