O curioso caso da “amiga invisível”

Por Frida Fernandes

As lembranças são tão confusas quanto antigas, por isso não sei precisar quando começou ou quando foi a primeira aparição. Mas, se fechar os olhos, é como se estivesse aqui na minha frente.

Era uma menina linda. A pele morena, olhos pretos e bochechas muito vermelhas, como se eternamente chegasse de uma corrida ao sol.  Vestida sempre as mesmas roupas: o antigo uniforme escolar da época. Camiseta branca, bermuda vermelha com elástico na cintura e nas pernas, boné e tênis da mesma cor e meias sempre na altura da canela  – com o detalhe de que na perninha direita a sempre estava mais tornozelo. Me lembrei desse detalhe agora!

Não precisava abrir a porta, simplesmente chegava para brincar comigo.

Não sei o que se passava pela cabeça da minha mãe ao me ver falando sozinha, é que a minha amiga era visível apenas aos meus olhos.  Os adultos poderiam achar que era coisa da primeira infância. Mas mesmo tantos anos depois ainda tenho as minhas dúvidas se era uma amiga imaginária, fruto da criatividade e da pureza típicas da infância, ou se era um espírito que se sentia bem em minha companhia.

O fato é que eu adorava!

Passávamos tardes inteiras juntas seguindo formigas pelo quintal, descobrindo formatos de bichos em pedras e fazendo bonequinhas com argila.  Ainda sinto sua mãozinha morena ajudando as minhas na moldagem de cabecinhas e bracinhos de barro.  Colocávamos para secar ao sol, mas a bonecas sempre quebravam depois. E ríamos!

Uma noite estávamos todos juntos assistindo a velha TV na sala de casa, um trambolho enorme com imagens em preto e branco cheias de faíscas. Eu, pai, mãe e minhas duas irmãs, como sempre fazíamos.  Ela saiu do quarto, bem devagarzinho, ficou nos olhando com olhos tão tristes, como que a sentir saudades  de algo que poderia ter vivido. Daquele olhar não me esquecerei jamais! Até que voltou, sozinha, para o escuro do quarto.

Numa manhã acordei e vi que ela brincava com o pequeno rosário que ficava pendurado na cabeceira da cama da minha irmã do meio.

Aliás, era muito comum eu acordar e ser ela a primeira coisa que eu via.  Às vezes me olhando bem de pertinho, outras sentadinha na beirada da cama como que a esperar meu despertar e já saíamos em busca dos caminhos das formigas no quintal.

Foi assim durante anos.

Da mesma forma que não sei como as visões começaram, não sei quando terminaram. Talvez eu tenha crescido e a minha amiga invisível partiu junto com a minha infância, talvez ela tenha procurado outra criança para ser sua amiga, talvez…

Nunca mais a vi. 

Me pergunto, até hoje, se tudo não passou da minha imaginação fértil ou se ela era meu anjo, um espírito que me acompanhava…

Jamais terei a resposta. 

Mas ainda tenho esperança de revê-la nem que seja mais uma vez.

Imagem de Benjamin Balazs por Pixabay