O dia em que Cardoso Natal narrou um Gol Biônico

Cardoso Natal nos deixou nesta terça, 12

Era o ano de 1989 e o Grêmio São-carlense vinha numa campanha para conseguir seu acesso para a Divisão Intermediária. A partida foi contra o União Agrícola Barbarense e lá estava Cardoso empunhando o microfone da Rádio Progresso num jogo marcado pela chuva e pelo tento adversário que nos deixava em desvantagem.

Mas foi numa dessas arrancadas heroicas que o centroavante mais famoso do Lobão, Roberto Biônico, passou pelos adversários, venceu a chuva, bateu Narezzi e marcou o gol de empate do Grêmio. Esse foi maior gol da história do time, a maior narração de Cardoso Natal, naquele grito ele levou milhares de torcedores são-carlenses ao delírio debaixo de uma chuva que Deus mandava.

O Grêmio empatou a partida, foi para o triangular com Sertãozinho e Araçatuba, acabou campeão e subindo para a Intermediária, foi uma glória de um narrador que depois de muitos anos veria o próprio Lobão morrer, voltar com um time que não é o mesmo, aquele que todos torciam, e que também narrou as glórias do São Carlos Futebol Clube, uma equipe que teve seus momentos, mas que ainda pode render mais no futuro.

Cardoso era um narrador rápido, que as vezes lembrava o folclórico Dirceu Maravilha e também encarnava o espírito do esportista de São Carlos. Lembro que numa partida que era apitada por um árbitro negro, forte, do qual não me recordo o nome, um pênalti não foi marcado a favor do Grêmio e o time ficou no empate. Cardoso que viu o penal não titubeou: “Chama a políciaaaaaaaaaaaaa!!!” Foi assim que ele homenageou o juiz naquela noite!

Mas não eram só com críticas que Cardoso lembrava dos árbitros, ele também gostava especialmente que Silas Santana, ex-policial militar, viesse apitar na cidade. Quando Silas apitava, sempre tinha entrevista com ele antes da partida e Cardoso cumprimentava efusivamente seu amigo.

Um outro episódio que sempre lembro é do centroavente Eliseu. Ele não conseguir fazer gols, não tinha jeito, o Grêmio não marcava com Eliseu. Cardoso não perdoava e lembrava do seu amigo João Japonês: “Alô, caniço curto! Não foi dessa vez!” E dizia que estava na hora de chamar o Kilão e o Mentchó, jogadores famosos da cidade para atuar pelo Grêmio.

Também tínhamos nas transmissões de Cardoso os cordiais abraços para ilustres são-carlenses como o Zé Cibalena, Fred Sapateiro e o Sargento Garcia. Aliás, com o Sargento Garcia sempre existia uma brincadeira que todos que estavam na transmissão morriam de rir.

Cardoso Natal também gostava que os amigos, e eu fiz isso várias vezes, ligassem na rádio antes da partida e dissessem que haviam “benzido” o jogo. Ele achava que isso dava sorte, mas nem sempre o nosso time ganhava e Cardoso tascava: “É Renato, hoje sua benzida não deu certo!”

Uma outra boa de Cardoso foi numa transmissão, se não estou enganado, em São José do Rio Preto. Chegaram na cabine e disseram que iriam deixar umas frutas para ele comer, assim como para os demais membros da transmissão, e ele não perdoou: “Pô, tá pensando que sou um assanhaço?” Perguntou lembrando do passarinho que adora frutas.

Mais uma: Cardoso Natal era um piadista impagável. Quando a equipe viajava para a transmissão, o narrador não gostava de ver as janelas do carro abertas. Sempre dizia: “Fecha essa janela, porque aqui está entrando um canudo de vento, uma ventarola!”

São tantas histórias para contar de Cardoso que poderia ficar aqui dias e dias narrando seus feitos no esporte e também recordando o ser humano simpático e cordial que ele era. Gosto de lembrar que a primeira vez que o ouvi na emissora de rádio do Cruzeiro do Sul foi quando ele substituiu Affonso Celso Gobatto que estava em férias e apresentou o RP é Notícia.

Porém, essa não foi a primeira vez que ouvi Cardoso Natal. Meu primeiro contato com ele foi quando participativa do movimento dos Focolares. Cardoso fez uma entrevista comigo sobre o movimento e eu expliquei para ele o que estávamos propondo, naquele dia senti algo diferente, talvez por isso tenha enveredado pelo mundo da imprensa.

Vá em paz, Cardoso Natal! Você fez parte da minha história!

Renato Chimirri