O dia em que o diabo veio à São Carlos procurar a jovem com quem dançou no Carnaval

A maior lenda da cidade/Imagem: Divulgação

Às 22h33 atravessou o Jardim Público e olhou para a Catedral toda iluminada com a luz rosa. Andou até o ponto de ônibus e ficou pensando na vida, fazia um calor descomunal naquela noite.

Encostou no poste para esperar o ônibus e ouviu aquela voz: “Boa noite!”

Olhou desconfiado, mas era um homem bem vestido, terno alinhado preto, barba ralinha, branca, um chapéu clássico e um sapato branco. Pensou que seria uma espécie de pastor, irmão ou qualquer outra coisa que quisesse convertê-lo para algumas dessas igrejas. Não ia responder, mas sua educação não lhe deixou recusar. “Boa noite!”

Passou a olhar para o relógio, pois queria seu ônibus para o Cidade Aracy o mais rápido possível. Estava tão cansado do trabalho que só pensava num banho gostoso (se tivesse água em casa!) e depois dormir, no outro dia estava de folga, era um sábado chegando.

O homem do terno foi se aproximando, a cada passo se ouvia um “toc-toc” do seu salto. Ele chegou pertinho da Ismael e falou: “Posso lhe fazer uma proposta?”

Eram 22h40 de uma sexta-feira de verão, a lua estava no céu e Ismael ficou a pensar: O que este cara quer me propor numa noite de sexta?

“Diga senhor, mas se for dinheiro, já lhe digo que estou sem nada!”

O coroa bem vestido chegou mais perto e falou: “Não filho, não se trata de dinheiro. Isso eu tenho de sobra, mas permita que eu me apresente. Estou nesta forma humana para não lhe assustar, meu nome é Lúcifer e como você deve desconfiar, eu sou o demônio, tenho 8500 anos, mas não posso resolver tudo!”

A parada maluca deixou Ismael abobado. Ele achou que se tratava de uma piada e começou a rir. “Como assim você é o demônio? O senhor está maluco, o que um demônio iria querer logo comigo, às 22h40 da noite de uma sexta? Pare com isso, não brinque com coisa séria!”

O velhinho estressou. Chegou perto de Ismael e começou a ficar vermelho, um cheiro de enxofre tomou conta do lugar, fumaça por todos os lados e a voz agradável do homem de terno começou a se modificar. “Você duvida de mim por que, ser repugnante!?”

À esta altura, o demônio em pessoa já estava segurando a gola da camisa de Ismael  com um olhar vermelho sangue e aqueles dentes gigantes saindo da boca, ele não perdoou e mostrou seu potencial. “Estou aqui lhe pedindo ajuda, eu sai de uma prisão onde estava desde 1931 e vi como essa cidade mudou, já estive aqui, andei por essas ruas, mas hoje está tudo diferente, só quero uma pequena força, mas se você quiser posso ir embora com a sua alma, isso me satisfaria também, pode ser?”

Ismael quase fez xixi na calça, mas se conteve. Tremendo igual vara verde resolveu ajudar o homem que mais calmo voltou a ser o rapaz alinhado que lhe pediu um apoio. “Por favor, não me machuque, eu nunca duvidei que você existisse, mas sua aparição por aqui foi anormal, me perdoe, por favor, o que posso fazer por você?”

Lúcifer lhe indicou o banco (queria sentar e conversar) e lhe disse que o levaria para a casa sem problemas, pois podia fazer a mágica que quisesse. “Era um carnaval meu jovem, mais precisamente a quarta-feira de cinzas, e o baile não era recomendado, mas aconteceu, e eu fui convidado!”

Nesse mesmo instante, Ismael se recordou da lenda da “Moça que dançou com o demônio”, a maior das lendas são-carlenses. “Era você que estava naquele baile? Mas isso foi há tantos anos, e pelo poder que demonstrou, como ainda está aqui?”

“A família não queria a festa, mas a jovem insistiu. O baile começou na noite de terça de carnaval e foi se estendendo, mas com a proximidade da meia-noite as pessoas começaram a ir embora, e ela, linda, olhos verdes, corpo escultural, cabelo bem cuidado iria ficar sozinha, como eu poderia deixar?”

Lúcifer disse que a menina ficou extremamente contrariada com as pessoas que estavam deixando sua casa e a todo momento pedia que o diabo aparecesse a levasse embora. A mãe de garota, Laura, foi até o fundo do quintal e acendeu uma vela para tentar trazer coisas boas para a casa, mas o pedido da filha para que ele aparecesse foi tão forte que nem as preces mais sinceras da genitora deram resultado. “Eu já estava na casa há muito tempo, como posso mudar de forma, dancei com várias, até que a vi e notei sua dor, seu desespero, ela era muito sozinha, não tinha ninguém, mas tinha a mim!”

Ainda emocionado, o demônio continuou sua narrativa: “Eu sabia que ela precisava de alguém e então cheguei perto, estava com essa mesma roupa, segurei em sua mão e pedi licença para dançarmos, isso foi das dez até meia-noite quando fomos interrompidos pela família, o pai veio para cima de mim, me acusou de seduzir sua filha, ela começou a chorar!”

Lúcifer contou que o pai tinha um crucifixo sacramentado pendurado em seu paletó e que aquilo encostou nele e fez sair fumaça. “O homem começou a me chamar de demônio, ele estava certo, eu sou mesmo, mas a jovem entrou na minha frente para me defender, foi neste momento que seu pai, num destempero sacou de uma arma, ele queria me acertar, mas cravou a bala no peito da filha”.

Ismael quase chorando ao ouvir o demônio apaixonado não titubeou em perguntar: “Como o chifrudão, o capeta, o coisa-ruim, o coisa mandada, você não tinha o poder de ressuscitá-la?”

O velho capeta balançou a cabeça, deixou uma lágrima escorrer do seu rosto, ela virou sangue e caiu no chão, mas não se irritou com a pergunta e pacientemente respondeu: “Me chamam de tudo isso por aqui? Então, Deus tem o poder da vida, eu só tenho o poder sobre as trevas, Deus não me faria esse favor de ressuscitar alguém eu O desafiei no paraíso e acabei expulso, o velho de barba branca não gosta de mim, a moça morreu e o meu coração ficou preso aqui!”

Lucífer lhe disse que por se apaixonar pela coragem da moça de querer contrariar a tradição e fazer um baile na quarta de cinzas se amarrou de verdade na jovem e isso lhe custou uma profecia. “Quando me apaixono fico preso neste local, sem poder sair daqui em espírito, por 89 anos, essa foi minha sentença, mas justamente nesta noite eu me libertei, porém preciso de sua ajuda para sair daqui, eu não sei mais onde era casa, preciso ir até o local para poder dizer as frases de libertação e voltar para o meu inferno!”

Ismael sabia da lenda, sabia onde era a casa, na esquina da Ruy Barbosa com a Major José Ignácio e já estava afeiçoado pelo capeta, por isso resolveu comprar a briga. “Eu sei onde é e não é longe daqui, você quer caminhar até lá? Eu levo você, vou lhe ajudar porque acho que merece!”

O coisa ruim ficou impressionado com a solidariedade do rapaz, não precisou sequer lhe colocar qualquer medo, além daquele inicial. “Vamos caminhando, em espírito vaguei por quase 90 anos por essas ruas!”

Eles andaram até o referido cruzamento, Lúcifer passou a olhar para a cidade com outra impressão, pois estava num corpo de carne. “A cidade é bela, porém aquela Catedral me deixa impressionado, você precisa entender que não posso passar por ali, mas gostei de ver isso aqui se desenvolver, mas os políticos são ruins, aparecidos e egoístas, não que eu não goste de um egoísmo e de uma mentira, mas eles exageram!”

A noite agradável fez Ismael refletir que estava caminhando ao lado do diabo, porém havia perdido o medo e notou que isso está na cabeça de cada um.

Em frente do local, hoje um terreno vazio, Ismael contou para Lúcifer que nenhuma casa foi construída na área e que o lugar era visto como amaldiçoado. O diabo já falou logo: “Amaldiçoado? Tinha amor aqui, até o demônio ama, mas as pessoas não entendem isso, preferem me ver apenas como o pai da mentira!”

O demônio foi até o meio do terreno e afirmou que já estava sentindo as energias daquele dia. Mas antes não esqueceu de sua promessa: “Ismael, você vai dormir quando eu estalar os dedos e acordará na cama de sua casa, não conte isso a ninguém e você será sempre meu amigo, não lhe farei mal, não lhe protegerei, porque isso é coisa de anjo, mas saiba que se eu ver algo injusto ocorrer contigo, vou interferir!”

O enxofre voltou a aparecer, a noite que era estrelada ficou escura, nuvens no céu, raios e trovões. Ismael começou a ficar com muito medo, mas antes de correr, Lúcifer estalou os dedos, ele dormiu.

No meio do terreno, na esquina da Ruy Barbosa com a Major José Ignácio, o diabo proferiu as seguintes palavras: “Aqui meu amor ficou enterrado, hoje desenterro a minha vida que por aqui esteve presa e volto ao inferno, minha casa, meu lar, vou tomar o reinado daqueles que estavam no controle de tudo!”

Lúcifer ergueu os braços, um raio lhe acertou e ele sumiu.

Ismael? Sim, ele dormiu. Acordou em sua cama no outro dia. Pela manhã levantou e sua mãe fazia café. Ela disse que um homem bem apessoado lhe deixou um pacote com seu nome. Ismael o abriu e viu que haviam escrituras de cinco imóveis em regiões nobres de São Carlos e um bilhete: “Aceite essa oferta pessoal, não quero sua alma, mas sim sua amizade!”

E se fosse com você? Você aceitaria?

 

Renato Chimirri

 

Esta é uma obra de ficção*

Crédito da imagem: Divulgação