O dia em que o trenó de Papai Noel ficou preso num buraco de São Carlos

*ESSA É UMA OBRA DE FICÇÃO

 

Papai Noel sofre para entregar seus presentes no Brasil, não? Imagina ser abatido por tiros quando passa com seu trenó na periferia sendo confundido com alguém de uma facção rival ou então preso numa dessas casas de ricos que exploram os mais pobres e compram políticos para continuarem a corromper a sociedade e sempre levar vantagem em tudo, né?

Dessa vez, Papai Noel estava na periferia de São Carlos e faltavam alguns minutos para a meia-noite, a hora mágica do Natal em todo mundo, momento em que os anjos clamam pelo nascimento do Salvador para a humanidade cristã. Suas renas que são: Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago, estavam cansadas, pois haviam rodado boa parte do planeta e resolveram fazer aquele quarteirão da periferia a pé, tiveram uma grande surpresa.

“Ih, velho Noel, o que houve?”, perguntou Rodolfo.

Noel, do auge dos seus 125 kg, com aquela portentosa barriga, a roupa vermelha, suas botas, deu um salto, quando houve o solavanco e notou o tamanho da desgraça.

“Ora, ora, ora, caímos dentro de um buraco!”, falou desesperado.

Cometa, uma rena sempre mal humorada, já soltou aquele suspiro e falou. “Ah, Noel agora vai sobrar para nós retirar o trenó dessa cratera, o que vamos fazer?”

Noel sabia que pela mágica do Natal onde ele estivesse o horário congelava e portanto, aquelas 23h45 ficariam daquela forma até que a caravana do Polo Norte prosseguisse viagem, não ficou tão preocupado. “É isso mesmo, vamos fazer todo o esforço para retirar o trenó, precisamos passar por boa parte da América do Sul, ainda, vocês, minhas renas, precisarão de um esforço contumaz!”

As renas suspiraram, pois praticamente tinham dado a volta ao mundo e viam o trenó preso dentro uma cratera, no bairro Romeu Tortorelli, local que já foi palco de inúmeras denúncias da imprensa são-carlense, mas que nunca ganhou a devida atenção por parte da Prefeitura. “Fico aqui pensando, como os prefeitos, os políticos brasileiros e do mundo, deixam uma rua com esses buracos enormes, minhas renas, nem meu trenó mágico, num momento em que vocês não podiam voar para repor as energias conseguiu escapar”, disse o velho tomando um gole de licor feito pelos elfos de sua oficina no Polo Norte.

Noel viu que as renas estavam sofrendo com o trenó preso e decidiu que era o momento de retirá-las dali. Usou as palavras mágicas e as alinhou, o pavilhão fez o primeiro esforço e nada conseguiu, puxaram uma segunda vez, e nada também, tentaram uma terceira e a coisa não rolou. “Esperem, o que está acontecendo? Vocês parecem sem força? Sei que o buraco é grande, o desleixo dos governos gigantesco, mas para vocês isso não é nada, afinal são alimentadas com as castanhas mágicas que meus elfos coletam há mais de dois mil anos no Pará, o que há meus amiguinhos?”

Trovão, a rena mais forte de todas, teve um lampejo. Recordou que a última vez que haviam comido das castanhas que lhes davam energia tinha sido na passagem pela Oceania. “Precisamos de mais castanhas, velho Noel, pegue em sua bolsa e não no seu saco de brinquedos!”

Noel tinha uma  bolsa pequena onde estavam seus documentos e também as castanhas mágicas que eram coletadas no Brasil, depois levadas para a Mamãe Noel que as preparava para a viagem em quantidade suficiente para a noite mágica.

Eis que o bom velhinho foi até sua bolsa e uma cara de espanto tomou conta dele. “Com mil ursos polares! Onde estão os demais pacotes de castanhas para dar energia às minhas renas!”

Olhando desconfiadamente, Cometa falou: “Eu disse que o velho Norte anda esquecido, Noel, meu filho, você não ouviu sua mulher dizendo que os dois pacotes estavam em cima da lareira!?”

Era isso, as renas estavam presas num buraco em São Carlos e Papai Noel não tinha mais as castanhas da energia para que elas pudessem sair daquele local. O velho não sabia muito bem como proceder, mas ficou imaginando o que um são-carlense sentia todos os dias quando passava naquele lugar e via seu carro cair num buraco gigantesco. Noel também tentava compreender o que os políticos fazem com os impostos pagos pela população e o que acontece ao longo dos anos para que eles deixem as ruas de uma cidade tão mal cuidadas e cheias de cratera como as que encontrou em São Carlos.

Papai Noel, um dos símbolos do Natal, estava preso em São Carlos e não tinha literalmente para onde correr ou voar. As renas não conseguiam retirar o pesado trenó carregado de presentes do buraco, pois não dispunham da força mágica das castanhas, ele com mais de 125 kg não conseguia ajudar para empurrar o trenó, embora tenha tentado e a coisa não deu muito certo. “Vamos gente, vamos tentar, eu empurro e vocês puxam!”

A cena era hilária, Papai Noel estava dentro do buraco empurrando o trenó e as renas tentavam tirá-lo daquela horrenda cratera, mas não deu certo. Papai Noel levou um tombo e caiu de bunda no chão e ainda molhou sua roupa, pois há dias chovia em São Carlos.

Rodolfo, a rena do nariz vermelho, estava iluminando a situação, afinal além de buracos horríveis, a Prefeitura e a concessionária de energia não deixavam a iluminação pública como tinha que ser.

Mas em dado momento, em outro esforço para retirar o trenó daquele lugar Noel ouviu um grito. “Aí meu Deus, que dor no meu lombo!”

Era sua rena mais velha, a Raposa, ela sentiu uma contusão. O velho soltou todos os animais da fila em que ficavam e os liberou para tentar ver o que podia fazer. Pegou seu celular da Norte Telecom e viu que Mamãe Noel havia feito umas 400 ligações e mandado milhares de WhatsApps tentando avisá-lo sobre as castanhas. “Vixe, nessa hora da mensagem estava na Ásia!”, disse o velho.

A situação era essa. Papai Noel tinha um trenó carregado em São Carlos, o que ele ia fazer? Bebeu uma água, sentou numa mureta de construção e resolveu descansar, junto com as renas.

Não se esqueçam que o tempo estava parado, o Natal não estava (ainda) comprometido, mas Papai Noel precisava arrumar aquilo, e seguir viagem. Adultos não o ajudavam, porque não o viam ou não acreditavam nele, quem podia ver Noel eram somente as crianças, mas naquela escuridão qual seria a criança que passaria ali?

Pois bem, Nico passou. Nico era um menino que morava no bairro, mas deu uma saidinha de sua casa para olhar a rua. Tomou um susto daqueles quando viu Papai Noel e suas renas, o trenó e as coisas de Natal todas encalhadas por causa do buraco e correu para o velhinho. “O senhor tá fazendo o que aqui? Vai me dizer que foi vítima do buraco?”

Papai Noel estava cansado e só balançou a cabeça. “Ah, Papai Noel meu pai quebrou a suspensão seu Fusca 85 neste buraco na semana passada, gastou todo o seu décimo-terceiro para consertar o carro e com isso não ganhei um presente de Natal dele, tava esperando o seu, mas pelo jeito a coisa aqui vai demorar!”

Papai Noel ficou triste ao ver aquilo e explicou para o Nico que a situação era difícil, porque as renas não tinham as castanhas do Polo Norte que eram preparadas com o amor da Mamãe Noel. Perspicaz, o menino disse para Papai Noel que sua mãe havia comprado castanhas do mesmo lugar na feirinha do bairro e que talvez elas pudessem ajuda. “Ah, meu filho só se estiverem encantadas!”

“Seriam benzidas?”, perguntou o jovem. Papai Noel disse que até poderia ser, mas quem benzeria? “Dona Ofélia, ela benze todo mundo! E as pessoas se sentem bem, dizem que ficam em paz!”

Dona Ofélia era uma senhora de mais de 80 anos que morava no bairro e que fazia uma oração para quem passasse por ali.

Noel titubeou, mas resolveu ir com Nico até a casa da velhinha. Eram quase meia-noite, Dona Ofélia estava dormindo, mas veio atender o rapaz. “O que foi menino, jogou a bola a essa hora no meu quintal?”

Nico disse que não, explicou o caso, a falta de castanha. A velhinha quando viu Papai Noel em sua frente, sentou, arregalou os olhos e disse que era apenas uma pessoa que pedia a Deus por outros, mas que não podia ajudar, logo que sempre acreditou no velho gorducho. “Ô Noel, o senhor tem WhatsApp e a se Mamãe Noel ensinasse a Dona Ofélia?”, disse Nico.

Abracadabra! Papai Noel fez uma chamada de vídeo por seu telefone com a Mamãe Noel. A velhinha do Polo Norte agradeceu a disponibilidade de Dona Ofélia e disse que não usava nenhum encantamento para as castanhas, apenas AMOR. Que ela pedia para a bondade universal abençoar as castanhas para alimentar as renas.

Dona Ofélia teve medo, mas junto com Mamãe Noel estendeu suas mãos sobre as castanhas, elas repetiram palavras juntas, ficaram em silêncio, depois todos que estavam na sala daquela casinha simples deram suas mãos e puderam sentir a bondade e o amor naquele lugar. “HOHOHOOHOOOHOHOHO! Vejam, as castanhas estão vermelhas! Iguais as que são feitas pela Mamãe Noel! Agora vai!”, bradou Norte!

Nico abraçou Dona Ofélia e voltou correndo com Papai Noel para o local onde estavam as renas. Desconfiadas, elas queriam saber de onde ele havia tirado aquelas castanhas, mas perceberam que o cheiro era de Natal. “Vamos comer tropa, vamos tentar!”, afirmou Rodolfo.

Todos comeram e começaram a sentir aquela força que só vem em dia de Natal. Pediram para que Noel as atrelasse novamente no trenó e como que por brincadeira saíram voando e removeram o “veículo do buraco”.

Papai Noel agradeceu Nico e lhe convidou para terminar aquela viagem astral. O jovem voou por todo o Cone Sul com o bom velhinho e depois foi colocado em sua cama para dormir calmamente. Mas antes, Papai Noel passou pela Prefeitura e deixou um vídeo de suas renas na portaria e seu trenó atolado no buraco para mostrar as autoridades.

No caminho de volta, Noel pesquisou pela internet o nome de Nico e viu que o rapaz se chamava Nico Noel da Silva.

Há pelo menos uns dez anos, Papai Noel já estava pensando que era o momento de alguém ir morar no Polo Norte para começar a aprender a função.

Renato Chimirri