O fim do Café Dona Júlia representa o fechamento de um ciclo histórico em São Carlos

O fim de uma era

O lendário Café Dona Júlia, conhecido por muitos como o local onde muitas articulações e fofocas políticas eram realizadas fechou suas portas. Depois de 40 anos na mais tradicional esquina da cidade, na rua 7 com a Avenida São Carlos, o bar que deu café para vereadores, prefeitos de São Carlos, por onde passaram candidatos, governadores e também presidentes da República vai para o espaço sideral ser apenas uma lembrança na memória do são-carlense.

De uns anos para cá, o Dona Júlia já havia perdido o seu protagonismo político, as reuniões entre pessoas articulando sobre os rumos da cidade ou conversando sobre o que poderia acontecer diminuíram, primeiro porque a internet facilitou a comunicação, depois porque as próprias crises econômicas impuseram um desgaste aos modelos de negócio de forma global e o bar não escapou disso.

Mas o Dona Júlia fez muita história, especialmente na era anterior à internet. Todo mundo sabia que os jornais da cidade ficavam estampados em painéis por ali e os homens se acotovelavam no local para ver o que cada um dizia. Lembro que eu trabalhava na Tribuna e tínhamos uma guerra de concorrência (coisa normal) com o Primeira Página e os dois jornais ficavam estampados ali na frente e eu gostava de ir tomar um café no Dona Júlia e ver o pessoal comentando cada manchete e apontando a diferença entre os dois periódicos.

Foi no Dona Júlia, ao tomar um café com o meu amigo vereador Azuaite França, que acompanhamos o emblemático plantão onde Carlos Nascimento anunciou na Rede Globo um ataque terrorista às torres do World Trade Center em 11 de setembro de 2001 em Nova York. Lembro-me que queimei a língua ao observar aquelas imagens e achei que seria o fim do mundo, neste período a internet estava se consolidando. Ao ver aquilo, larguei o café, peguei o carro, liguei na Rádio Bandeirantes e segui até minha casa onde acompanhei o restante dos acontecimentos.

O Dona Júlia já viu políticos se pegando, teve um que chutou um outro desafeto que depois virou seu amigo e secretário na frente do bar. Houve uma vez que vi Rik Aydar entrar no Dona Júlia com uma cara brava, falando mal de quem era de esquerda e eu pensei que esse cara era um chato sem tamanho. Hoje, o Rik é um grande amigo, um querido, uma pessoa que tem o coração do tamanho de São Carlos, isso mostra apenas que nem tudo é o que parece ser.

O café vendia doces deliciosos, tinha seus antigos proprietários, um deles meu amigo particular há quase 30 anos e ontem nós dois conversávamos sobre esse episódio e chegamos à conclusão que a COVID e as mudanças globais fecharam o estabelecimento.

No Dona Júlia que tinha aquele café Ouro Brasileiro de coador que era delicioso também havia o Agnaldo, hoje saudoso amigo que mora no céu e que certamente não gostou de ver o bar que tanto lhe deu alegrias fechar as suas portas.

O fim do Dona Júlia representa a extinção de uma era de São Carlos, parte da história foi embora, ficamos, mais uma vez, mais pobres em termos de referência e cultura geral, porque por ali desfilaram cabeças pensantes que transformaram São Carlos no que ela é hoje.

Essa maldita pandemia que parece nunca acabar está levando pessoas queridas e também destruindo locais históricos, não sei para onde vamos com tudo isso, mas eu espero que essa maldição acabe logo.

As portas fechadas do Dona Júlia são um sinal dos tristes tempos que vivemos.

Renato Chimirri