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O homem que namorou a Morte

Vicente, que vivia à sombra de um relógio que nunca marcava horas. O relógio, pendurado na parede de sua pequena casa, era um presente de sua avó, que sempre dizia: “O tempo é uma ilusão, Vicente. A morte é quem dita os ponteiros.” Ele nunca entendera bem o que aquilo significava, até o dia em que a morte apareceu em sua porta.

Ela não vinha de capa preta nem com uma foice na mão. Não, a morte era uma mulher de cabelos longos e prateados, vestida com um vestido que parecia feito de névoa. Seus olhos eram dois buracos negros, mas Vicente não sentiu medo. Sentiu apenas uma curiosidade absurda, como se tivesse encontrado algo que nem sabia que procurava.

— Você não veio me buscar? — perguntou Vicente, encarando-a de frente.

— Ainda não — respondeu a morte, com uma voz que ecoava como o som de um sino distante. — Vim porque você me chamou.

— Eu? — ele franziu a testa. — Nunca te chamei.

— Todo mundo me chama, Vicente. Uns com gritos, outros com silêncios. Você me chamou com seus sonhos.

Vicente não sabia o que dizer. Era verdade que ele sonhava muito, mas nunca lembrava dos sonhos ao acordar. Apenas ficava com uma sensação estranha, como se tivesse visitado um lugar onde o tempo não existia.

— E por que você veio? — perguntou ele, finalmente.

— Porque você me intrigou — disse a morte, sentando-se em sua poltrona desgastada. — Você sonha com lugares que nem eu conheço. Lugares onde o tempo se dobra e se desfaz. Eu quero entender.

Vicente riu, um riso nervoso que ecoou pela casa vazia.

— Então você não sabe tudo?

— Ninguém sabe tudo — respondeu a morte, cruzando as pernas. — Nem eu.

E assim começou um estranho relacionamento. A morte visitava Vicente todas as noites, sentava-se em sua poltrona e conversava com ele sobre sonhos, tempo e a natureza do fim. Vicente descobriu que a morte era curiosa, quase infantil em sua busca por respostas. Ela queria saber por que os humanos temiam tanto o fim, por que lutavam tanto contra algo que era inevitável.

— Talvez porque não entendemos — disse Vicente uma noite, enquanto olhava para o relógio parado na parede. — Talvez se entendêssemos, não teríamos tanto medo.

A morte olhou para ele com seus olhos negros, e pela primeira vez, Vicente viu algo neles: uma centelha de tristeza.

— Eu não quero que me entendam — disse ela. — Eu quero que me aceitem.

Os dias passaram, e Vicente começou a notar mudanças. As flores do jardim murchavam quando a morte se aproximava, e os pássaros fugiam ao ouvir sua voz. Mas ele não se importava. Ele estava fascinado por ela, por sua curiosidade, por sua solidão. E, de alguma forma, ela também parecia fascinada por ele.

— Você não deveria se apegar a mim — disse a morte uma noite, enquanto observava Vicente preparar chá. — Eu sou o fim, Vicente. E você ainda não está pronto para o fim.

— E se eu estiver? — perguntou ele, olhando-a nos olhos. — E se eu quiser ir com você?

A morte hesitou. Nunca alguém lhe fizera uma pergunta assim. Todos lutavam, todos resistiam. Mas Vicente… Vicente estava disposto a seguir.

— Você não sabe o que está pedindo — disse ela, sua voz quase um sussurro.

— Talvez não — admitiu Vicente. — Mas eu sei que não quero viver em um mundo onde você não está.

A morte ficou em silêncio por um longo momento. Depois, levantou-se e estendeu a mão para ele.

— Então venha — disse ela. — Mas saiba que não há volta.

Vicente pegou sua mão. Era fria, mas não desagradável. Era como segurar uma brisa noturna. Ele olhou para o relógio na parede e viu que, pela primeira vez, os ponteiros estavam se movendo. Giraram rapidamente, marcando horas, dias, anos. E então pararam.

Quando Vicente olhou para trás, sua casa estava vazia. A poltrona, o chá, o jardim… Tudo havia desaparecido. Ele e a morte estavam em um lugar sem tempo, um lugar onde o céu era uma tapeçaria de estrelas que nunca piscavam.

— Onde estamos? — perguntou Vicente.

— No lugar entre os lugares — respondeu a morte. — Onde nada começa e nada termina.

Vicente sentiu uma paz que nunca havia conhecido. Ele olhou para a morte e viu que ela estava sorrindo, um sorriso triste, mas verdadeiro.

— Você está feliz? — perguntou ele.

— Eu não sei o que é felicidade — respondeu ela. — Mas estou… contente.

E assim, Vicente e a morte caminharam juntos, por um lugar onde o tempo não existia e o fim era apenas o começo de algo novo. E, em algum lugar distante, um relógio parado começou a marcar as horas novamente.

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