O homem que operou a própria esposa em São Carlos

Área precisa de profissionais/Pixabay

*Esta é uma obra de ficção

Tentou demonstrar seu amor de uma forma doce. Antes que ela saísse de casa deixou um pequeno chocolate em cima da mesa da cozinha com um bilhetinho escrito “eu te amo”. Era a sua forma de dizer que a queria bem, depois de uma longa noite de trabalho como plantonista.

Entrou no quarto e tirou as roupas. Foi correndo para o banho, fazia frio em São Carlos naquela manhã, um outono cortante, vento e quase nenhum raio de sol. O banho quente o relaxava sempre. Deixou a água cair em suas costas e passou a observar suas olheiras naquele espelhinho de fazer barba que estava grudado no azulejo.

Da janela, do segundo andar, viu quando ela saiu com o carro em direção à repartição pública perto da Praça Coronel Salles. A todo momento, ficava pensando na mãe acidentada que havia operado na madrugada, foi às pressas, porque um cara cortou um PARE no cruzamento da Major com a Dom Pedro II, acertou a mulher que vinha do trabalho e a jogou no chão. O resultado? Fratura exposta, sangue e uma cirurgia grave.

Sorte que Cristiano era o melhor no que fazia em São Carlos. A operou e conseguiu corrigir o problema. “Nenhuma sequela”, ele pensava. Claro que viriam dias de medicamentos e fisioterapia, mas a jovem ficaria bem.

Ser médico era uma vocação. Filho de um marceneiro, sempre gostava de brincar que estava operando um toco de madeira na oficina do pai que ficava no fundo de sua casa. Sua mãe, uma bordadeira de mão-cheia sempre defendeu que seu garoto procurasse a vocação de infância.

Se formou pela UFSCar e depois buscou especialização na área de traumatologia. Em SP conheceu Ana, uma administradora pública formada pela UNESP. Ruiva, magra e com um sorriso cativante, ela conquistou o coração do são-carlense. Namoraram por dois anos e resolveram se casar de uma forma curiosa. Não fizeram festa, arrecadaram alimentos e doaram para uma instituição de caridade de São Carlos.

Ana lutou e passou em concurso da Prefeitura de São Carlos. Era administradora de um departamento da administração municipal. Sua rotina era sair 7h30 de casa todos os dias, entrar às 8 horas e começar o trabalho.

Naquela manhã, Ana resolveu passar numa padaria que fica na Rocha Pombo e por isso desviou seu caminho. Não desceu pela Praça Itália e pegou a avenida São Carlos como fazia sempre vindo da avenida Sallum, onde morava.

Foi pela Getúlio Vargas e resolveu ir até um posto de gasolina. Entrou, abasteceu e saiu. Tocou o carro alguns metros quando viu seu mundo virar de cabeça para baixo. Um caminhão perdeu o freio no cruzamento que tinha semáforo e estava aberto para Ana e passou. Acertou seu carro em cheio, ele captou três vezes e Ana ficou presa às ferragens.

A cena foi horrível, o combustível começou a vazar, os Bombeiros foram acionados. Chegaram no local, isolaram a área e começaram a trabalhar para retirar a vítima do veículo. Havia muito sangue no carro e a prontidão percebeu que ela estava com as pernas feridas.

“Não sinto as pernas! Tenho vontade de vomitar”, dizia. O soldado Alonso e o tenente Antonio que estavam com Ana pediam para que ela não esmorecesse, não dormisse. Foram necessárias muitas manobras para retirá-la do carro. Depois disso, a estabilização, mas haviam constatado que duas possíveis fraturas expostas nas pernas tinham se configurado.

Ana imobilizada, os Bombeiros suspeitavam de outros traumas. A colocaram na Unidade de Suporte Avançado do Samu que também estava no atendimento. A ambulância rasgou a avenida dirigida habilmente pelo profissional.

Nesse meio tempo, enquanto Ana via seu martírio correr no transporte, Cristiano ligou na repartição, pois queria falar com a esposa. Soube que ela não tinha chegado, pois já havia telefonado duas vezes para o seu celular e só caixa-postal. Começou a ficar desconfiado de algo, mas pensou que notícia ruim chegaria rápido.

Sentou e bebeu um café, foi quando seu telefone tocou. Era a diretoria clínica da Santa Casa. Do outro lado da linha seu amigo, o médico Carlos Alberto. “Cristiano, preciso contar algo!”

O médico sentiu que a coisa era com Ana, pois ela estava sem atender fone e sem estar no trabalho, algo poderia ter acontecido. “Carlão, fala logo! O que houve com a Ana?”

Carlos Alberto era neurologista e um médico competente, humano e que tratava a todos muito bem. “Ana sofreu um acidente grave na Getúlio Vargas acabou de dar entrada na Santa Casa e precisa fazer uma cirurgia nas pernas, são duas fraturas!”

A caneca de café de Cristiano caiu no chão. “Eu opero! Eu opero! Ninguém coloca a mão na minha mulher!”

Ele bateu o telefone e nem ouviu que seu parceiro havia dito que um carro o buscaria devido ao fato estressante que havia descoberto. Montou em seu carro e saiu como um maluco, desrespeitou semáforos, quase causou outro acidente, andou a 120 na Marginal, tudo para chegar no hospital o mais rápido possível.

Quando parou, entrou pelo SMU, deu as chaves para um vigia e pediu que o mesmo estacionasse o carro em qualquer lugar. Foi para o Centro Cirúrgico, antes começou um ritual para tentar se acalmar, foi seguro pelas amigas enfermeiras. Doutor Carlos Alberto o aguardava na porta. “Ana está sedada, mas as pernas estão em situação ruim, você precisará operar, mesmo assim, estamos avaliando para ver se não tem ferimentos internos!”

Cristiano entrou no Centro Cirúrgico e encontrou a médica Elisangela, anestesista que sempre o acompanhava em procedimentos, uma parceria de anos. “Já está sedada, Cris. Tente esquecer que é a Aninha e faça o que você sabe de melhor que é salvar as pessoas de traumas severos!”

A testa de Cristiano suava mais do que normal, um filme passava por sua cabeça, ele  operava a mulher que conheceu há tempos e que era a companheira de sua vida, eles tinham planos para filhos, queriam rodar o mundo, conhecer lugares bonitos, mas naquela hora, a jovem dependia do seu trabalho.

A situação encontrada era de trauma severo nas pernas, duas fraturas expostas. Cristiano operou, reconstruiu, colocou pinos, mas sabia que Ana demoraria meses para poder andar novamente, que precisaria de um amplo trabalho de fisioterapia. Foram pelo menos cinco horas de cirurgia e o médico tentando fazer o seu trabalho da maneira mais impecável possível.

Terminado o procedimento, Cristiano desceu as escadas, saiu do Centro Cirúrgico e viu Ana sendo levada para a Sala de Recuperação, dormindo, sem nem saber onde estava. “Foi duro, Carlão! Não sei, não! Acho que ela vai mancar, uma perna pode ficar mais curta que a outra, só depois que vamos saber, o acidente foi muito feio, o que houve com o motorista do caminhão?”

O médico amigo contou: “Não se feriu, foi uma falha mecânica pelo jeito, mas isso vai ter apuração policial, o senhor que pilotava está arrasado, está aqui no hospital, não o culpe, tem testemunhas, várias, alegando que o caminhão se desgovernou mesmo de maneira estranha!”

Cristiano foi aconselhado a ir para a sua casa, os pais de Ana receberam a informação do acidente e dos procedimentos, estavam em SP e deveriam chegar no outro dia. O médico foi embora dirigindo seu próprio carro.

Ele não dormia fazia 24 horas e então entrou pela Francisco Pereira Lopes e começou a tocar seu utilitário. A chuva passou a apertar, Cristiano queria chegar em sua casa logo e foi fazer uma ultrapassagem perto do cruzamento do antigo restaurante Casa Branca, mas havia um buraco na avenida, ele estava em velocidade considerável, o pneu estourou e o carro caiu dentro do córrego.

Porém, a pancada foi forte. O carro tombou de lado, em cima de uma pedra, que bateu, quebrou o vidro e acertou a cabeça do médico. Curiosos chamaram o Resgate, os Bombeiros novamente entraram na água para tirar a vítima, mas quando chegaram nada podiam fazer. O médico estava morto, um ferimento grande na cabeça, foi morte instantânea.

A vida é curiosa, ele correu para salvar a esposa, mas ninguém pode salvá-lo. A notícia caiu como uma bomba no hospital e coube a Carlão contar para Ana o que havia acontecido. Ele esperou dois dias, quando ela estava melhor e foi direto ao assunto.

Ana passou muito mal, precisou ser sedada novamente. Depois de uns dias foi para a casa junto com os pais, mas não tinha coragem de entrar no seu quarto, ficava no quarto de hóspedes, enquanto a mãe e o pai dormiam no quarto que seria do futuro bebê do casal.

Quando o funeral passou, os pais de Ana ganharam o aval para ir embora. A jovem resolveu abrir a porta do seu quarto e quando entrou viu que havia um pacote em cima da cama. Correu para abrir, viu que havia um pacote de bolachas finas que ela tanto gostava e  nele  um bilhete que dizia:

“Não sei quanto tempo nosso amor durará, mas sei que você me completa de uma maneira doce, te amo tanto que se um dia eu for embora antes de você, irei espera-la na porta do Paraíso!”

Ana passou a acreditar que Cristiano a esperava todos os dias. Tocar a vida não estava sendo fácil.

Renato Chimirri