O milagre da regressão

Fonte imagem: http://jardinsdeminhalma.blogspot.com/2010/12/fatiando-o-tempo-feliz-2011.html

“Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem.”

(Marcel Proust)

Dizem que ano eleitoral parece ser milagroso. As coisas começam a “funcionar” e as cidades passam a ganhar certo fôlego devido aos investimentos exponenciais que são feitos repentinamente como num passe de mágica. Sim, esses políticos são verdadeiros mágicos que podem tirar coelhos da cartola para impressionar o povo, através de ludibriações que apesar de todos saberem serem truques, ainda caem no mesmo golpe, parece que quase fazendo parte do folclore brasileiro.

Mas, atualmente a tecnologia está dando mais poder para qualquer indivíduo possibilitando-o deslumbrar um pouquinho mais dos contornos das sombras projetadas na parede da caverna de Platão. Qual seriam os comentários de Platão sobre o direito de perguntar a um oráculo, praticamente particular, os sites de busca, qualquer dúvida em qualquer momento? Seria bem interessante imaginar uma formulação platônica a respeito disso, talvez ele tivesse um orgasmo gnosiológico. Mas além do “conhecimento” (pois depende de como é utilizada) que a tecnologia pode proporcionar, ela também pode ser uma arma letal contra qualquer tipo de maldade, como também pode servir para a engenharia do mal.

Talvez haveria alguém corajoso, que enfrentasse esses poderosos enclausurados naquelas construções criadas pelo magnânimo, secular e curvilíneo Oscar Niemeyer (1907-2012), que pudesse propor um novo projeto de lei: a lei da instantaneidade avaliativa. Um nome bem bonito e com um toque sutil de tecnicidade do jargão político, mas trocando em miúdos, seria analisar os políticos em tempos mais curtos, isto é, reduzir o tempo de avaliação da gestão, custando os cargos concedidos.

O Brasil, como o primeiro e único país com sistema de eleição 100% eletrônica, poderia seguir a tradição e colocar as eleições na internet, dando mais agilidade e autonomia aos eleitores. A contabilização seria realizada pelo título de eleitor somado a outros documentos (C.P.F., Cadastro de Pessoa Física, por exemplo) e através de algum sistema que evitasse fraudes, como o uso de alguma senha e contrassenha (apenas um exemplo).

Entretanto, o mais interessante desse circo popular, seria colocar os políticos como atrações onde o povo orientaria seus atos, indo de encontro, de maneira verídica, com o provérbio “vox populi vox deux”, do latim, “Voz do povo, voz de Deus”. As eleições seriam realizadas de tempos em tempos cada vez menores, em um primeiro momento, uma regressão gradativa, em um regime de “transição”, termo que causa regozijo nos ouvidos dos políticos: de 2 em 2 anos, de 1,5 em 1,5 ano, de 1 ano em 1 ano e assim por diante, conforme a degustação do povo, para ver até qual período seria o mais adequado (nesse caso o período de 4 em 4 anos já foi descartado, por ser assaz longo).

Os “likes” e os “deslikes” poderiam não só serem motivos de monetização para conteúdos na internet mas também uma arma ultra democrática anticorrupção. Seria um verdadeiro pesadelo para os políticos serem julgados de tempos em tempos cada vez mais curtos, passando por um sistema de provação enclausurador.

Assim, com o passar do período de transição, todo ano seria eleitoral, todo mês, toda semana, todo dia, toda hora, todo minuto ou todo segundo… daí a instantaneidade. Cada ato de cada político seria avaliado com “likes” e “deslikes”. Um verdadeiro golpe popular. A infinitesimalidade faria sentido até para os leigos em conhecimentos requintados da Matemática, através de uma verdadeira aplicação prática e eficaz. Voltaríamos então aos tempos dos gladiadores romanos, onde o povo assistiria a luta “sangrenta” entre os políticos para ver quem se manteria por mais tempo dentro do Coliseu, o círculo político. No final de cada luta, perguntariam então ao imperador, agora o povo, se aprovava ou desaprovava com o polegar para cima ou para baixo.

O tempo político iria regredindo, regredindo e regredindo cada vez mais, causando uma grande pressão temporal contra esses que acreditam “possuir” o poder, grande devaneio, usurpando-o e redirecionando-o, como de costume, com más intenções, aquilo que lhes foi concedido democraticamente. Assim, a compressão lhe tiraria o fôlego até moribundos caírem em sua ineficiência funcional. Da mesma forma, que eles fazem com o povo, usurpando seus direitos e privando-o dos bens públicos, suprimindo o fôlego democrático através da corrupção. Isso sim seria uma progressão ainda que fosse uma regressão. Uma progressão para a melhoria do país, através de um milagre da regressão. Desta forma, ironicamente, a famigerada, e muitas vezes esquecida, frase do positivismo do francês Auguste Comte (1798-1857) contida no interior da cúpula celeste do Brasil poderia ser alterada com algumas maracutaias esculhambadas ocultadas em palavras poeticamente constitucionais, já que são doutores nisso, para “regressão e progresso”.

Como no velho ditado popular “Tudo acaba em pizza”, o tempo político seria fatiado e restaria uma fatia cada vez menor para os políticos, logo não teriam nem tempo para saborear nenhum tipo de poder, evitando qualquer tipo de megalomania psicológica, e logo cairiam por não satisfazerem o povo.

Um leve toque de dedo somado aos outros poderia resultar em uma martelada nos líderes políticos que não correspondessem aos anseios sociais. Aliás, não há nada contra eles, devemos ter misericórdia, assim como eles têm pelo povo.

* * *

O relógio tocou e mais um sonho se completou, apenas como um mero sonho.

 

Sara Oliveira de Carvalho Loss

São Carlos – SP, 24 de maio de 2020