O milagre de Padre Donizetti reconhecido pela Igreja

Padre Donizetti reunia multidões

Roberto Prioste*

            Vinte e dois anos depois da abertura do Processo de Beatificação e da constituição do Tribunal Eclesiástico, o Papa Francisco autorizou, no dia 8 de abril, o decreto que reconhece milagres do padre Donizetti Tavares de Lima. Isso significa a beatificação do padre brasileiro, morto em 1961, aos 79 anos de idade. Padre Donizetti passou os últimos 35 anos de vida como vigário da paróquia de Santo Antônio, em Tambaú, cidade onde repousam os restos mortais dele. Devoto de Nossa Senhora Aparecida, o padre atraia milhares de fiéis em busca de milagres.

A decisão foi anunciada ao fim de um encontro entre o Papa e o cardeal Angelo Becciu, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, responsável pelas decisões em processos relativos a milagres. A Igreja Católica Apostólica Romana analisou pelo menos um milagre atribuído ao padre. É o caso de Bruno Henrique Arruda de Oliveira, ocorrido em Casa Branca. O menino nasceu com uma deformação congênita nos pés. A mãe pediu a intercessão de Padre Donizetti junto a Nossa Senhora e obteve a cura (leia aqui). Durante o processo para a beatificação, o milagre passou por três etapas de avaliação: uma reunião com peritos médicos, com teólogos e, finalmente, a aprovação do colégio de cardeais. A autenticidade foi reconhecida de forma unânime.

AS ETAPAS DA CANONIZAÇÃO

A fase de beatificação é a segunda no processo de canonização. Quando uma causa de canonização é iniciada – no caso do padre Donizetti, isso se deu em 21 de fevereiro de 1992, com pesquisas sobre a vida, virtudes e fama de santidade – a pessoa recebe o título de Serva de Deus. O título quer dizer que a Igreja assumiu oficialmente o julgamento da sua causa.

Existem três estágios numa causa de canonização: o primeiro é o processo das virtudes, ou martírio. O segundo é o processo do milagre para a beatificação e o terceiro é o processo do milagre para a canonização. Existem duas situações diferentes para se considerar alguém santo: ou porque essa pessoa foi mártir, ou porque ela viveu as virtudes em grau heroico. Constatadas as virtudes ou o martírio, a pessoa recebe o título de Venerável.

Segundo o site Santos do Brasil, essa “é a parte mais importante de uma causa de canonização, a mais trabalhosa e exigente. É nesse processo que se estuda minuciosamente, até a exaustão, toda a vida da pessoa, ou, no caso de martírio, todas as circunstâncias do mesmo. Além da vida e das virtudes, analisa-se também se essa pessoa tem realmente fama de santidade, o que é muito importante, pois indica uma moção do Espírito Santo em torno dela”.

Depois dessa fase, é iniciado o processo do milagre para a beatificação. É quando se avalia se ocorreu um milagre a partir da invocação de um Servo de Deus. O processo analisa detalhadamente o caso clínico. Se ao final do processo tudo for comprovado, dá-se o Decreto sobre o Milagre e o Venerável Servo de Deus pode ser beatificado. Foi o que aconteceu com o Padre Donizetti agora: ele se tornou Beato Padre Donizetti.

Ainda de acordo com especialistas do site Santos do Brasil, no processo do milagre para a canonização – que no caso do Padre Donizetti se inicia agora – também vai se analisar um suposto milagre. O processo é exatamente o mesmo, mas existe uma diferença fundamental: deve ser um milagre ocorrido após a beatificação. Quando o segundo milagre é aprovado, ele se torna Santo.

VIDA E OBRA

Padre Donizetti nasceu em 3 de janeiro de 1882, em Santa Rita de Cássia, Minas Gerais. Seu pai era advogado e a mãe professora primária. Depois de residir em várias localidades, a família se mudou para a cidade de São Paulo, onde Donizetti iniciou o Curso de Direto na Faculdade do Largo de São Francisco, em 1900.

Ele abandonou a faculdade para entrar no Seminário de Pouso Alegre, cidade do sul de Minas Gerais, pois acreditava ser vocacionado para servir a Deus. Ordenou-se sacerdote em julho de 1908 e foi nomeado secretário do bispo da diocese de Campinas. Dois anos depois, com a criação da diocese de Ribeirão Preto, Padre Donizetti pediu para ser transferido para aquela região e se tornou vigário de Vargem Grande do Sul, onde trabalhou por 16 anos. Se tornou influente, principalmente entre os menos favorecidos. Era ardoroso ao defender os mais pobres, o que atraiu a ira dos fazendeiros ricos e políticos, que o taxavam de “padre irreverente e revolucionário popular”.

Foi nessa época, em Vargem Grande do Sul, que padre Donizetti escapou de uma emboscada. A biografia publicada no site Santos do Brasil conta que seus detratores tramaram a morte do padre quando ele fosse confortar um devoto doente. Ele seria empurrado em um precipício ao atravessar uma pinguela. Era madrugada quando vieram chamá-lo para dar a extrema unção a enfermo. Ao ouvir o pedido, Padre Donizetti respondeu calmamente dizendo que já era tarde, pois o velhinho já havia morrido. De fato, naquela hora exata, o doente faleceu.

Em 13 de junho de 1926 tomou posse como vigário da paróquia Santo Antônio, de Tambaú. Padre Donizetti impressionava o povo pela sinceridade e franqueza. Se dava bem com todos, especialmente com os necessitados. Construiu um asilo e adquiriu terrenos e casas visando obras sociais. Tudo o que recebia em doação era destinado aos mais pobres. Levava uma vida sóbria e modesta.

Exercia na cidade uma autoridade moral muito forte. Sua voz era sempre acatada. Lia jornais todos os dias, estava sempre atualizado com os acontecimentos do Brasil e do mundo. Tinha uma vasta biblioteca. Cuidava pessoalmente de atividades da paróquia, desde o ensaio das crianças para Coroação de Nossa Senhora, no mês de maio, até os problemas municipais envolvendo políticos do cenário nacional.

A personalidade marcante de Padre Donizetti começou a ser conhecida além de Tambaú. Muitas pessoas vinham de longe expor seus sofrimentos. As bênçãos do padre se tornaram famosas. A partir de 1954, as romarias aumentaram e a sua fama se espalhou. Há relatos de que certa vez 200 mil pessoas tomaram conta da cidade para receber as suas bênçãos. Padre Donizetti dizia apenas: “Eu não curo ninguém. Eu peço a Deus e Ele atende por intercessão da Virgem Aparecida”. Estão catalogados milhares de milagres alcançados pela intercessão do Padre Donizetti. Padre Donizetti evitava a imprensa. Se recusava a receber repórteres para entrevistas.

Depois de 35 anos de intensa atividade, a saúde começou a declinar. A partir de março de 1961, a tradicional bênção era dada da janela da sua casa. Já não celebrava mais. Ele morreu às 11h15 do dia 16 de junho de 1961. Estava sentado numa cadeira, assistido por alguns paroquianos. Tinha 79 anos de idade. Milhares de pessoas participaram do velório para o último adeus.

A fama de santidade que tinha em vida continua até os dias atuais. É grande visitação de devotos à Tambaú para agradecer, junto de seu túmulo, as graças alcançadas. Na data de aniversário da morte, Tambaú chega a receber 40 mil romeiros de todas as partes do Brasil.

Existem 3 biografias de Padre Donizetti. A primeira é de 1980 e foi escrita pelo padre Antônio Haddad e tem o título de “O homem do povo sofrido”. A segunda, “As Maravilhas de Padre Donizetti”, foi escrita por Dom Dadeus Grings e publicada em 1996 por uma gráfica de São João da Boa Vista, onde o religioso exercia o bispado. O último trabalho biográfico sobre o padre milagreiro é de 2001. O livro “Padre Donizetti de Tambaú” é de autoria de José Wagner Cabral de Azevedo e foi publicado pela editora Santuário.

(leia aqui)

O MILAGRE RECONHECIDO PELA IGREJA

O milagre da cura de Bruno Henrique, narrado pela mãe do menino, Margarete Rosilene Arruda de Oliveira, foi anexado ao processo de beatificação e está publicado no site do Santuário Nossa Senhora Aparecida de Tambaú. Ela conta que pediu ao Padre Donizetti por um milagre porque o filho, nascido no dia 22 de maio de 2006, apresentou “pé torto congênito”. A mãe, desesperada, pesquisou na internet e verificou que se tratava de uma anormalidade de difícil tratamento. Mesmo com a realização de cirurgias e uso de bota ortopédica, havia a possibilidade de que os pés menino não ficassem normais.

Na medida em que o menino crescia, a preocupação da mãe aumentava. Quando Bruno começou a ficar em pé, ele não conseguia encostar as solas dos pés na superfície. Ele pisava com os lados dos pés e tinha as pernas arqueadas. A deformidade havia sido comprovada por exame de raio-X e laudo pelo pediatra, que orientou a mãe a marcar uma consulta com o ortopedista.

Uma noite, antes do filho dormir, a mãe colocou Bruno de pé sobre a mesa da cozinha e com a mão tentou desentortar os pezinhos. “Eu comecei a chorar e clamei pelo Padre Donizetti”, lembra a mãe. “Por favor, Santo Padre Donizetti, tenha piedade desta vossa filha que vos clama, me ajude: cure o meu filho, cura os pés dele. Sei que terei um caminho difícil pela frente com esse tratamento. Intercede por mim junto a Nossa Senhora Aparecida, sei que Ela não negará um pedido do senhor padre, pois Ela o ama muito. Peça a Ela, por favor, que interceda ao filho Jesus, tal qual nas bodas de Canãa”, pediu a mãe, prometendo ir até o santuário do Padre Donizetti em Tambaú e levar o sapato da criança como testemunho do poder do padre junto à Nossa Senhora.

A mãe conta que pôs o filho para dormir. No dia seguinte, quando todos acordaram, ela decidiu colocá-lo novamente de pé sobre a mesa e houve a surpresa. “Meu filho pisou com os pés retos e as solas tocavam a mesa. Suas pernas ainda continuavam arqueadas, mas, os pés estavam pisando certo. Chegou o dia da consulta com o ortopedista. Levei meu filho juntamente com o Raio-X e o Laudo e o douto José Elias, olhava o laudo e examinava os pés do Bruno e depois de algum tempo, me disse:

– Você acredita em Deus?

Eu disse que sim e ele me disse:

– Então agradece, porque foi “Ele”. Seu filho não tem nada nos pés, está normal!

Saí de lá com lágrimas nos olhos e tão agradecida ao Padre Donizetti, Nossa Senhora Aparecida e a Deus, por terem curado os pés do meu filho”.

“O tempo foi passando e suas perninhas continuaram arqueadas, eu agradecia e pensava que as pernas continuavam assim, para dar testemunho do milagre que havia acontecido. Meu pai, senhor Luiz Arruda sempre otimista, me dizia assim:

– Essas perninhas tortas não atrapalham em nada, pois um dos maiores jogadores do Brasil, “Mané Garrincha” tinhas as pernas tortas.

Ele chamava o Bruno de Garrinchinha do vô. Em 2010, minha avó Terezinha Kill de Melle, veio nos visitar. Ela mora em São Paulo, é muito católica e devota do Padre Donizetti, o qual conheceu pessoalmente. Então fomos fazer esse passeio a Tambaú, leva-la, e cumprir minha promessa de levar os sapatinhos do Bruno juntamente com o laudo e deixei-os sobre a cama do Padre Donizetti em sua casa. Escrevi em um papel a breve história do que havia acontecido e agradecendo para dar testemunho para todos que sofrem possam encontrar amparo nessa alma iluminada e bendita que é o Padre Donizetti. Hoje meu filho Bruno encontra-se em perfeito estado de saúde, suas pernas desentortaram e seus pés são normais sem nunca ter se submetido a nenhum tratamento e nenhuma cirurgia”.

“Não existe nenhuma sequela nele que indique que algum dia teve “pé torto congênito”. Agradeço de todo o meu coração e digo sem nenhuma dúvida: Foi o Padre Donizetti que intercedeu por meu filho junto a Nossa Senhora Aparecida e vosso Filho Jesus”.

*Com informações dos sites http://www.santosdobrasil.org.br (consultado em 9 de abril, às 15h00) e http://www.padredonizettitambau.com (consultado em 9 de abril, às 17h00).

Imagens: http://www.padredonizettitambau.com