O milagre que aconteceu na Vila Nery

ESSA É UMA OBRA DE FICÇÃO

 As mãos ficavam trêmulas e cansadas, os braços pareciam que iam sair do corpo e as pernas não tinham comando.

Albano caiu com o rosto em cima de sua mesa na agência do Banco do Brasil na rua Conde do Pinhal com a Episcopal. Por mais 30 anos foi gerente do local e ajudou muitas companheiras que começaram a dar à luz no estabelecimento, amigos que passaram mal e outras situações inusitadas. Até duas tentativas de assalto o gerente tinha vivenciado, numa delas quase foi pego por bandidos, mas escapou ileso porque a porta automática do banco travou misteriosamente.

Quando viram Albano estatelado com os óculos enfiados na mesa, uma certa baba em cima dos papeis, aparência branca e o corpo parado, Martinha não teve dúvidas e acionou o SAMU.

Rapidamente os socorristas paralisaram o trânsito pesado da região e invadiram o banco. Albano foi atendido e encaminhado para a Santa Casa com suspeita de derrame.

No hospital foi atendido por dr. Heleno que constatou o derrame, mas conseguiu reverter o quadro e não deixar Albano entrar em coma. Ele foi levado para a UTI onde ficou por três dias aos cuidados dos intensivistas que estavam ali.

Sua esposa foi avisada rapidamente do ocorrido e voou para a Santa Casa. Quando chegou no hospital foi logo procurando o dr. Heleno. Depois de uma meia-hora sem informações achou o médico e ouviu que Albano tinha quadro estável, mas que não se sabia quais seriam as prováveis sequelas.

Naquele momento, passou um filme pela cabeça de Jaqueline. Eram 32 anos de casamento, dois filhos criados, e agora essa barra para suportar. Albano não tinha uma vida sedentária, fazia caminhada, era ativo, controlava a alimentação e sempre que podia tentava jogar tênis com seus amigos. Mas aquela situação que o fragilizou também atingiu sua esposa. “Doutor, o que vai acontecer com o Albano?”, perguntou. “Não sabemos ainda se teremos uma sequela, temos que aguardar algumas horas”, essa foi a resposta.

Jaqueline sentou no saguão, depois foi removida para outra sala e ali esperou, as horas passaram e o dia raiou. Os filhos que estavam em outras cidades estudando e trabalhando vieram rapidamente para São Carlos. Ambos estavam com a mãe e tentavam consolá-la.

Dr. Heleno apareceu novamente na sala de espera e foi logo avisando: “O Albano está melhor, porém acreditamos que terá uma espécie de sequela motora que pode se recuperar, mas será de maneira lenta, ele não andará por um tempo, vocês precisarão ajuda-lo!”

O mundo de Jaqueline caiu ao ouvir aquelas palavras que pareciam punhaladas em seu peito. Seu ar acabou, ela teve que sentar, amparadas pelos filhos e não sabia muito bem o que falar. Depois de um tempo pode entrar na sala para ver o marido. Ele a seguia com os olhos e ouvia suas palavras de conforto, sentia a mão da esposa na sua, via que não seria abandonado.

Todos pensam sempre do prisma do paciente, mas nunca do doente. Naquele momento Albano ouvia sua mulher lhe narrar tudo o que tinha acontecido como se ele não soubesse. Desde a manhã do AVC, Albano começou a sentir uma queimação no pescoço, mas tocou o serviço do mesmo jeito.

Na hora do almoço quando se sentou para comer parecia que via as coisa rodando, mesmo assim que não quis alarmar a equipe do banco e começou a segunda parte do dia trabalhando com a rotina normal.

Falou em Brasília sobre contratos da Prefeitura com o banco, acertou detalhes da escala de pagamentos, mas em dado momento caiu. Viu a paulada que deu com o rosto na sua mesa e naquele momento parecia que tinha saído de si mesmo.

Albano se recordava do socorro do Samu na agência, viu o pessoal entrar correndo, as moças que lhe auxiliavam gritar, mas estava paralisado, não conseguia se mexer, foi colocado na maca e a todo momento escutava a frase que seu estado de saúde era grave, e que ele precisaria de muitos cuidados. Ao mesmo tempo que desfrutava dessa sensação estranha de estar em condição grave na ambulância o que era uma novidade, ele se preocupava com os solavancos do caminho para a Santa Casa e parecia que sabia que chegaria logo ao hospital.

Do seu atendimento até o quarto onde se encontrava foi um prélio difícil. Mas agora Albano estava na cama, meio que sedado, ouvindo sua esposa dizer que ele não poderia se mexer, porém o bancário não acreditava naquilo. Mais um dia, mais uma noite se passaram e a alta chegou.

Numa cama, Albano se deu conta da realidade de como havia sido transportado para a sua casa e dos cuidados que sua família teria com ele. Devagar recuperou o movimento dos braços, mas ainda parecia meio atordoado, somente sua cabeça raciocinava bem. Jaqueline lhe ajudava em tudo. Eram trocas de roupa, limpeza, comida e outras necessidades que a esposa fazia sem reclamar com a ajuda dos filhos e da sogra.

Durante a noite, sua esposa quase não dormia e Albano percebia isso. Religiosa e frequentadora da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora na Vila Nery, Jaqueline também se apegava em sua fé pedindo pelo marido e isso tudo no quarto dos dois. Ele observava tudo e quando estava com a consciência boa acompanhava na oração.

Acontece que pelo menos dois meses se passaram e a rotina era a mesma. Albano na cama, tinha até a visita de um fisioterapeuta, faziam movimentos, mas ele não recuperava sua fala e também o movimento das pernas. Só mexia os braços e fazia gestos com a cabeça e com olhar. Saía as vezes na cadeira de rodas para poder tomar um ar, ouvia a conversa entediante dos vizinhos, e sentia um pouco do sol e do vento. Mas isso tudo era uma tortura para quem comandava uma equipe num banco, tinha uma rotina determinada e outras atividades como jogos de tênis e ajuda na paróquia.

Um dia ouviu uma conversa na sala. Era Jaqueline falando com a sogra. “Albano não melhora Dona Dália, não fala nada! Parece que está sempre na mesma, distante, sem ver as coisas, toma os remédios, mas só balança a cabeça, parece que entregou os pontos, até o fisioterapeuta disse ontem que não acredita na recuperação dos movimentos!”

Albano se sentia impotente e ouvia Jaqueline chorando e soluçando junto com a sua mãe que apenas a consolava e dizia para se manter firme e acreditar na oração. Dália havia perdido seu marido no ano passado depois de um acidente de automóvel. João foi atingido num cruzamento quando vinha em sua correta mão de direção, não resistiu a capotagem e morreu no local. A morte do pai foi um duro baque para Albano, para sua mãe e o resto da família, mas isso foi superado com união e pouco mais de um ano depois Albano estava ali entrevado numa cama como se não fosse mais se levantar.

Num dia desses, Jaqueline estava lendo a Bíblia no quarto e caiu no capítulo de São João: 11, 1-29, quando Jesus ressuscita Lázaro. Ela na hora falou ao marido: “Você precisa ressuscitar como Lázaro!”

Albano pensou: “Não estou morto, tenho vontade de viver, preciso sair daqui, mas não consigo! Minha cabeça está boa, mas não falo, só mexo os braços devagar, apenas isso, falo com os olhos, mas ela não me ouve!”

A casa não era mais alegre como antes, mas os problemas do cotidiano começavam a aparecer e foi bem na noite de Quinta-Feira Santa, dia do Lava-pés, que  Caio, um dos filhos, ficou com o pai em casa para Jaqueline ir à missa.

Ela saiu às 20 horas e voltou por volta das 22h30, depois que o santíssimo foi recolhido à capela. Quando chegou em casa se sentia aliviada, mas só ao entrar no quarto foi que notou que uma água estava escorrendo vinda do banheiro. “Caio você não viu essa água?”

O rapaz respondeu que não havia água alguma, mas foi correndo subindo as escadas para verificar o que a mãe lhe perguntava e de fato havia um vazamento enorme no banheiro da residência.

Á agua escorria debaixo da pia, passava pela porta, entrava no quarto e começava a descer as escadas. “Tudo agora no feriado, o que vamos fazer?” Caio estava preocupado, na Sexta-Feira da Paixão ninguém quereria trabalhar, seria difícil achar um encanador. A primeira solução foi fechar o registro do banheiro, mas com um acamado no cômodo ficava bem difícil, mesmo assim a água continuava escorrendo em menor quantidade já que o registro apresentava também um defeito.

Albano olhava aquilo e sentia aflição. Por dentro estava sendo devorado pela vontade de levantar da cama e não poder. Neste momento viu sua mulher surtar: “Albano, faça alguma coisa! Pelo amor de Deus! Saia desta cama!”

O grito não resultou nada, Albano acompanhou (mais uma vez) com os olhos, mas se mexeu pouco. Contudo, o grito invadiu sua cabeça com muita força. Era um martelo que ficava ali batendo cada vez com mais vigor!

Caio acalmou sua mãe, a tirou do quarto e disse que o assunto teria que ser resolvido no outro dia. Jaqueline dormiu na pequena cama que estava colocada no quarto do casal, mesmo vendo um fiozinho de água passando por perto. Albano caiu no sono por causa de um remédio.

O dia amanheceu, Caio e Jaqueline começaram a ligar para os contatos e não encontravam ninguém para consertar o vazamento que estava acabando com o carpete de madeira da casa e impedia que Albano pudesse ser melhor atendido naquele banheiro.

Apelaram a todos, nenhum resultado e então partiram para os grupos de facebook. Num deles, Jaqueline postou que precisava de um encanador para consertar um vazamento no quarto de um doente e dez minutos depois recebeu a resposta de uma empresa chamada MM.

Ela ligou e falou com Marcelo. Ele disse que estaria em sua casa dentro de meia-hora e, de fato, depois deste tempo chegou uma Kombi com vários santos no vidro dianteiro estacionou na frente da casa.

Desceram dois homens. Um negro, alto, sorridente e careca e um outro branco, olhos claros, um pouco mais baixo, com um cabelo encaracolado. Bateram na casa e disseram: “Somos a MM, Marcos e Marcelo e viemos curar o vazamento que há nesta casa!”

Os dois entraram, passaram pela porta e se benzeram. Encontraram Jaqueline que os levou até o local. No lugar, viram Albano, Marcos perguntou o que havia acontecido com ele e Jaqueline explicou sobre o AVC e as dificuldades que eles tinham desde então. Marcos foi logo falando: “Que ele se cure!”

Marcelo levou a caixa de ferramentas para o quarto e disse para Jaqueline que seria necessário fazer barulho, mesmo que isso fosse irritar Albano.

A dupla entrou e saiu do quarto algumas vezes, porém a água continuava escorrendo no mesmo lugar, o que começava a intrigar a mulher.

A residência do casal era no formato da letra L, por isso era possível olhar de um outro quarto os aposentos onde estavam Albano e os encanadores e em dado momento Jaqueline fixou seus olhos e viu algo que achou literalmente estranho.

Marcos estava sentado ao lado da cama e Marcelo havia levantado Albano, passava a mão em suas costas e pareciam que recitavam algo. Jaqueline se levantou e ao ver aquilo queria invadir o quarto, porém não conseguia sair de onde estava, sua porta emperrou e ela estava presa, se sentia angustiada chegou a pensar até que seu marido estava sendo abusado. Batia na porta, mas ninguém ouvia, ficou assim por uns 15 minutos.

Depois disso conseguiu estourar a porta e foi correndo para o quarto onde estava o marido. A porta estava entreaberta e Albano não estava mais na cama, o peito de Jaqueline se apertou, ela entrou no lugar, foi até o banheiro e viu Albano sentado, puxando o cano, apenas de pijama, como se fosse um dia normal. “Albano, o que faz aqui? Como se levantou?!” Nisso Jaqueline quase desmaiou.

Albano respondeu serenamente: “Calma, Jaqueline estou consertado o cano! Vaza muita água, os encanadores deixaram a instrução do que fazer!”

Jaqueline chorava, abraçava o marido e gritava pelo filho que havia saído para fazer compras. “O que houve? Como você se levantou?!”

Colocando a mão na cabeça e ficando em pé com desenvoltura, Albano afirmou que ouviu dos dois: “Nós somos pessoas de fé viemos aqui para lhe curar, a pedido de sua esposa, estamos aqui para lhe impor as mãos e fazer uma oração, você ficará curado, foi isso, ele fizeram suas preces e eu perdi toda a trava que me impedia de levantar!”

Curado, Albano disse que os dois tinham lhe contado que a missão de ambos estava cumprida. Foi com eles até a porta, os dois montaram na Kombi e disseram que iriam curar outras pessoas. “Foi isso, achei que o chamamento deles havia sido obra sua!”

Jaqueline apenas refletia e agradecia pelo marido estar em pé. Procurou os fones dos encanadores, ligou, mas não obteve sucesso. Enquanto isso, Albano colocou uma roupa e foi até uma loja que estava aberta comprar um cano para realizar o reparo no seu banheiro. Quando chegou em casa foi abraçado por filhos, esposa, vizinhos e parentes. A cura tinha chegado naquela casa.

Renato Chimirri

Imagem de Stefan Keller por Pixabay