
No coração do Jardim Brasil, em São Carlos, havia um lugar que o povo chamava de “Mato de Santo Antônio”. De dia, era só um pedaço esquecido de mato alto, com árvores retorcidas e galhos que pareciam mãos congeladas em gritos silenciosos. Mas, à noite, a história era outra.
Diziam que ali dentro viviam criaturas esquisitas — não bichos comuns, mas seres com olhos que brilhavam roxo no escuro, corpos disformes, pescoços compridos demais, e uma risada que ecoava como se o próprio mato estivesse zombando de quem ousasse passar por perto.
— Besteira! — diziam os mais céticos. — Assombração é coisa de quem tem consciência suja.
E então, desafiando o medo coletivo, alguns atravessavam a trilha que margeava o matagal depois das onze da noite. Voltavam pálidos, alguns mudos por horas, outros com tremores que duravam dias. Teve um rapaz que nunca mais falou; ficou só apontando pro mato e murmurando “eles viram, eles viram…”.
Dona Iolanda, que morava ali desde 1963, jurava ter visto uma criatura com três bocas e seis olhos flutuando entre as árvores, pendurada de cabeça pra baixo. Mas ninguém levava muito a sério. Até que sumiram dois meninos. Irmãos. Tinham ido buscar pipa que caiu na beirada do mato. Nunca mais voltaram. Só acharam os chinelos deles, lado a lado, bem na entrada do capim.
Depois disso, ninguém mais ria das histórias.
Às quartas-feiras de lua cheia, diziam que o mato respirava. Era possível ouvir um som abafado, como se o chão estivesse roncando. As folhas tremiam sem vento. Os postes da rua que iluminavam a beira do mato piscavam como olhos cansados e às vezes simplesmente apagavam.
Seu Antero, o padeiro, tentou cortar caminho por ali pra economizar tempo. Encontraram ele andando em círculos, já de manhã, com os bolsos cheios de terra e uma cruz feita de ossos pequenos na mão. Não lembrava o próprio nome.
Numa dessas noites, um grupo de adolescentes resolveu gravar um vídeo para provar que era tudo mentira. Entraram no mato com celulares, lanternas e arrogância. Só uma voltou. A garota apareceu dias depois, no quintal da igreja abandonada, coberta de folhas e com uma coroa feita de dentes de bicho. Não falava nada com nada. Cantava músicas que ninguém conhecia, numa língua que parecia feita de água correndo e grilos gritando.
O Mato de Santo Antônio seguiu ali. Crescendo, mesmo sem chuva. Às vezes, parecia mais perto das casas do que na noite anterior. Como se estivesse andando.
Ninguém mais ousava dizer que era só lenda. E, mesmo quem não acreditava, preferia dar a volta no quarteirão, só por precaução. Porque, naquele pedaço de São Carlos, o medo não era superstição. Era aviso.
E, se você for até lá, só vá de dia. Mesmo assim… não olhe direto entre as árvores. Às vezes, elas olham de volta.
Baseado numa lenda urbana de São Carlos.


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