O misterioso túmulo da rua 7 de Setembro em São Carlos

Essa é uma obra de ficção*

Às duas da manhã Ana Claudia acordou assustada. A casa onde morava era um imóvel construído por volta de 1930 na rua 7 de Setembro em São Carlos. Um barulho esquisito a deixou perturbada.

Psicóloga, ela vivia só, há pelo menos cinco anos, tinha deixado a fazenda dos pais para estudar na capital e depois tentar uma carreira, queria ser independente e ter uma vida diferente da que viu ser construída por sua mãe. Odiava arrumar a casa, tinha uma arrumadeira que ela chamava carinhosamente de secretária. Depois de anos, retornou para São Carlos onde se encontrou de vez com seu destino.

Ana olhou para o rádio-relógio e viu o horário. Passou a mão pelos olhos, sentou na cama, calçou os chinelos e aos poucos reunia coragem para descer a escadaria e ver de onde vinha aquele barulho. Em dias de violência acentuada era fundamental sempre ficar de olho no que poderia estar acontecendo.

Desceu com curiosidade, mas não acendeu a luz, já sabia automaticamente o caminho de sua escadaria, sentia as tábuas que estavam mais soltas e por isso sabia onde tinha que pisar para não levar um belo tombo.

Passando a mão pelo corrimão terminou a descida, ainda com aquele sono que Deus lhe deu, Ana percebeu que não havia nada na sala, na cozinha e muito menos no banheiro. Restava apenas abrir a porta e olhar para a rua. Tinha medo.

Vencida pela curiosidade conseguiu abrir a porta e percebeu que no seu capacho havia uma rosa. Um botão de príncipe negro, dos mais bonitos, estava depositado aos seus pés. Com carinho recolheu a flor.

Na cozinha a colocou num copo e por alguns momentos ficou admirando sua beleza. Até que uma pergunta bastante pertinente lhe vinha à cabeça: mas quem colocou essa flor aqui?

Faziam dois anos que Ana havia deixado seu namorado, a traição que ele tinha cometido era das mais dolorosas, a moça havia sido trocada por sua melhor amiga, que já havia sido escanteada pelo mesmo rapaz com outra moça. Um caleidoscópio de maldades.

Depois de um tempo sem conversar com a amiga, agora as duas remoíam pensamentos juntas, sempre tomando um bom vinho e falando mal dos homens. Depois da traição, seu coração ainda não estava preparado para um novo relacionamento, mas a rosa no capacho lhe ativou novas esperanças, mesmo que inconscientes.

Ana era das mulheres que se achavam comuns. Tinha opção pela vestimenta básica, cuidava das unhas e do cabelo, mas não gostava de extravagâncias, era uma pessoa de hábitos simples. Gostava de falar inglês e ver futebol na TV. Sempre que saía com as amigas optava pelo figurino básico, com poucas jóias, não gostava de chamar a atenção.

Esse preâmbulo serve para dizer que não acreditava que pudesse ter despertado a curiosidade de algum homem. Ela preferiu encarar a rosa mais como um engano, mesmo assim achou o presente bem-vindo, afinal mulheres sempre gostam de flores.

No consultório, Ana falava com uma das pacientes que  lhe chamava a atenção. Era Dona Flor, uma aposentada de 76 anos. A mulher era uma enciclopédia, tinha sido casada com um diretor de uma grande construtora e por isso conhecia o mundo, mas não estava feliz com a nova condição de viúva.

Dona Flor sempre buscava uma conexão para tentar falar com seu marido. Não acreditava em espiritismo, mas tinha uma certa noção de que o seu marido, mesmo que apenas na lembrança, estava por perto.

No dia de sua quinta sessão, Dona Flor percebia que Ana estava um pouco absorta. Perguntou o que a motivava a pensar tão longe, disse que aquilo que acontecia com a moça era o que ela sentia exatamente: uma saudade louca de seu marido.

Ana não costumava abrir detalhes de sua vida pessoal com os pacientes, mas para Dona Flor resolveu contar o que mais lhe intrigava. “Uma rosa?”, perguntou a mulher.

Dona Flor ficou encantada com a forma pueril que a psicóloga se engraçava pela rosa. A mulher não entendia que para Ana o trauma de ter sido traída foi grande demais. Apenas disse que todos seus problemas seriam resolvidos se a sua maior dúvida fosse quem teria colocado um botão de rosa em sua porta.

Ana passou o dia todo pensando na frase de Dona Flor: “Se esse fosse meu maior problema…”. Ela não queria que aquilo se transformasse num problema, numa obsessão, apenas pretendia ter a sensação gostosa de se permitir gostar de uma situação inusitada.

Durante o almoço, numa padaria com sua prima Maria Lúcia, Ana temia que as horas não passassem para chegar em sua casa. Nem a torta de limão de que tanto gostava, comeu.

Enfim, 18 horas. Ana enfrentou trânsito, chuva, flanelinhas e os famosos buracos das ruas para chegar em sua casa. Abriu a porta e antes de ir para  a cozinha admirar sua bela rosa precisava dar uma passadinha pelo banheiro.

O choque na entrada foi geral. O xixi escorreu pelas pernas e foi todo para o chão. Quando entrou no cômodo viu escrito no espelho do gabinete: Ana, verificar seu quintal, assinado João.

O primeiro sentimento havia sido de invasão do domicílio. A polícia foi chamada. Ana mesmo tinha  feito uma varredura pela casa para observar se alguém havia arrombado a porta de algum lugar ou uma janela. Mas nada, aparentemente, tinha sido violado.

A polícia chegou na mesma conclusão. Vasculhou todos os cantos, inclusive o quintal, conforme pedia a mensagem. Nada foi encontrado. Ana apenas ficou sentada ouvindo as recomendações de que deveria tomar cuidado ao chegar e sair que ao menor sinal de perigo deveria ligar para o 190.

Dormir seria barra pesada naquela noite. Uma sopa e TV até mais tarde, fazia frio. Ana simplesmente queria ficar de olho em quem estava lhe pregando uma peça, mas em determinados momentos é melhor você não brigar com o que não conhece. Como que por encanto, ela pegou no sono em frente a TV, já passavam das 23 horas. A cidade estava envolvida numa névoa. São Carlos e seus famosos nevoeiros e noites geladas…

Ela dormiu, toda torta, acordou novamente por volta das duas horas da manhã. A mesma hora da rosa. Barulhos na cozinha a deixaram simplesmente atormentada, levantou com calma, mesmo com medo e foi observar o que estava acontecendo.

Não viu nenhum fantasma, apenas uma bagunça debaixo de sua pia, as panelas estavam reviradas, as portas abertas e o fogão ligado. Mas dessa vez, a porta da cozinha estava escancarada.

Correu até o quintal, queria pegar quem fosse, com a boca na botija. Nem ligou que calçava  chinelinhos aconchegantes. Eles ficaram um caco com aquele gramado molhado pelo sereno.

Respirando de maneira ofegante, Ana apenas verificou que haviam aberto o seu quartinho de bagunça e fincado uma pá no meio do seu gramado. A interpretação da mensagem foi instantânea: cavar!

Era madrugada, cavar naquele momento, por mais que fosse a alternativa da mensagem parecia que seria um exercício dificílimo de se realizar. Mas Ana Claudia resolveu encarar a tarefa. Arregaçou as mangas e começou a vencer a terra e a grama com suas próprias forças.

Depois de 30 minutos cavando, Ana não encontrava nada. Era terra, terra e mais terra. O cansaço já tomava conta da ofegante psicóloga, porém a mensagem de cavar estava lá em sua cabeça. O trabalho não poderia parar, mas parou.

A campainha interrompeu o trabalho de Ana. O susto foi gigante, a noite mais maluca da sua vida estava prestes a ganhar um novo capítulo. Atender ou não atender?

Ana resolveu que deveria ver quem estava batendo à sua porta, afinal poderia ser o responsável por todos os seus sustos. Sujando todo o trajeto da cozinha até a sua sala, pegadas e pegadas com barro, num frio cortante, foi abrir a porta.

“Dona Flor?!”, disse Ana, agora mais preocupada ainda. A senhora foi entrando e nem pediu licença, apenas disse que teve um sonho com seu marido naquela noite e que não poderia deixar de atender o seu pedido.

Ela contou que o marido lhe disse para correr até a casa da psicóloga e lhe dizer que é para continuar cavando. Depois de ver a cena, Ana toda suja, suas roupas em petição de miséria, Dona Flor teve a convicção que a mensagem do seu marido era das mais sérias.

Contou a história para a moça e se prontificou, mesmo com alguns quilinhos a mais, a ajudar na procura, seja pelo que for, no quintal da casa. As duas correram para o buraco e continuaram cavando.

Mais de uma hora depois da chegada da viúva a pá bateu no fundo do buraco. “Achei!”, era Ana comemorando sabe-se lá o quê!

Mais força, o buraco aumentou e a surpresa de Ana crescia ainda mais. O que parecia ser apenas uma caixa foi ganhando um aumentativo e se transformou numa urna, um caixão. Evidentemente que um caixão antigo, dos anos 30 ou 40.

Para retirá-lo do buraco seria outra aventura. A ideia foi única: amarrá-lo no carro e puxar. Ana amarrou e Dona Flor acelerou. O carro deu uma rateada, mas foi. O caixão saiu do buraco, a velha corda que estava guardada no quartinho de bagunça de Ana suportou o peso. “Ufa!”, pensou.

Dizem que depois de um certo tempo o medo não faz mais tanto efeito nas pessoas do que quando no começo do susto. As duas já tinham perdido o medo do caixão e do que tinha dentro. Com mais um esforço abriram a tampa cheia de lama e acharam o corpo mumificado de uma mulher, num vestido amarelado de renda enterrada provavelmente há um bom tempo.

Todavia, um detalhe fundamental se fez perceber: um botão de rosa tão belo quanto o que Ana havia ganhado estava nas mãos da mulher. Como seria possível? O botão estava vivo, a mulher morta, o contraste entre dois mundos se fazia berrante naquele momento. Ana não sabia o que fazer e Dona Flor apenas procurou engolir o choro. Era o momento para se refletir sobre tudo o que vinha acontecendo.

No crânio da defunta havia uma perfuração que parecia ser um tiro. Ana, suspeitava, pelo menos que fosse um tiro. Dona Flor concordou com a psicóloga, mas não sabia o que fazer com tudo aquilo. Ana, mais fria e calculista, já tinha pensado no que seria possível realizar. Pediu para sua paciente a ajudar a levar o caixão para a cozinha, o colocaram em cima da mesa. Era barro e minhoca por todos os lados.

Ana disse que precisava fazer uma pesquisa a respeito de sua casa, sabia apenas que o imóvel havia sido construído nos anos 30. Correu para o banheiro, precisava trocar as roupas sujas, o dia já tinha clareado, o banho era bem-vindo. Um banho, com um caixão na cozinha. Surreal.

Dona Flor queria saber o que Ana realmente iria fazer. A psicóloga contou que estava indo ao cadastro da Prefeitura saber quem foi o dono da sua antiga casa. Pediu a Dona Flor que descansasse, pois a morta que estava na cozinha não iria atrapalhar. A viúva seguiu o conselho.

No cadastro da Prefeitura, Ana levantou a história da casa e descobriu  que o imóvel pertencia à família de João Quaresma. Essas eram as informações que a Prefeitura dispunha. Não contente, deu um pulinho até a biblioteca da cidade e passou a pesquisar jornais antigos com o nome de Quaresma.

Ela achou uma infinidade de artigos que tinham sido escritos pelo advogado e jornalista, ele havia sido importante para a história da cidade, mas um lhe chamou a atenção particularmente. Era um artigo que falava de um assassinato e a cena do crime tinha sido a sua casa.

O agente funeral Hamilton Carlos havia assassinado Valéria Nobre com um tiro na cabeça naquela casa. O motivo do crime seria a mulher de Carlos manter um romance com o jornalista João Quaresma. Hamilton numa manhã no ano de 39, invadiu a casa de Quaresma e achou Valéria vestida de camisola e não perdoou a traição: acertou um tiro certeiro em sua cabeça e depois fugiu.

A família do agente funeral ficou chocada com a história, assim como a cidade. A funerária da família de Carlos seguiu o desejo de Quaresma que pediu para enterrar a amada no quintal da propriedade. Hamilton Carlos foi para um sanatório. Na foto de capa do jornal o amante dilacerado pela dor aparece segurando uma rosa nas mãos em frente ao caixão da mulher.

Depois de 10 anos do ocorrido, João Quaresma, perturbado pela paixão, vendeu o imóvel para uma incorporadora e foi morar na Europa. O túmulo que existia no fundo da casa foi destruído, mas história não tinha sido apagada.

A lenda dizia que Quaresma, que morreu na Islândia, queria que o túmulo fosse reconstruído e que teria explicitado seu desejo para a família que comprou a casa antes de Ana Claudia, mas seu desejo não foi  atendido.

Ana Claudia tinha ficado comovida com a história de Quaresma e rapidamente voltou para a sua casa. Chegou na velha residência e encontrou Dona Flor assistindo TV na sala, enquanto Valéria dormia em seu repouso eterno sobre a mesa. A viúva já tinha se habituado a noite maluca.

A psicóloga passou a manhã toda em contato com pedreiros para reconstruir o túmulo e atender o pedido de João Quaresma. As duas decidiram manter segredo sobre a história. As rosas misteriosas continuavam lindas e passando sua mensagem de amor. Ana continua morando na casa.

Renato Chimirri

Imagem de Susan Cipriano por Pixabay