
Na madrugada mais silenciosa do ano, quando até os cães pareciam guardar luto por algo desconhecido, o telefone antigo da delegacia central tocou. Era 3h17 da manhã. O delegado Antunes, que cochilava sobre relatórios mofados, despertou com o tranco do toque estridente. Atendeu sem pensar.
— Alô?
Do outro lado, uma voz que não devia mais existir respondeu.
— Delegado Antunes… ele foi assassinado. O Érico. Não foi o coração… foi o veneno. O sócio dele… você sabe qual. Siga o dinheiro. Siga o silêncio. E me encontre. Túmulo 413. Cemitério do Carmo…
Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, a linha ficou muda. Um silêncio tão espesso quanto a voz que havia escutado.
Antunes permaneceu imóvel, a mão trêmula segurando o fone. Tentou rastrear a ligação. Nenhum número. Nenhum registro. Apenas a gravação interna que ele escutou repetidamente durante dias: a voz arrastada, abafada, como se tivesse passado pelas raízes debaixo da terra.
Naquela mesma semana, o corpo de Érico Silveira, magnata de São Carlos, foi encontrado na sauna de sua cobertura, morto. Causa da morte: infarto. Mas algo naquilo não batia. O rosto da vítima estava rígido demais, os olhos semicerrados em agonia.
Antunes reabriu o caso. Fez o impossível. Subornou legistas, que reexaminaram o corpo às pressas. Detectaram um sedativo de uso veterinário no sangue. Doses letais, silenciosas.
Foi atrás do sócio. Um homem liso, bem vestido, que chorava em entrevistas com perfeição. Mas escondia contratos alterados, cláusulas de transferência de bens, e um histórico de traições empresariais enterrado sob uma fachada de sucesso.
Enquanto isso, a voz do morto não saía da mente do delegado. Voltou à ligação. Túmulo 413. Cemitério Nossa Senhora do Carmo.
No fim de tarde, o céu carregado de nuvens púrpuras, Antunes caminhou pelo cemitério como quem desce ao inferno por vontade própria. Encontrou o túmulo. Mármore lascado. Inscrição comida pelo tempo:
Miguel Pereira
1947 – 2003
“A verdade, mesmo sob a terra, há de emergir.”
Miguel fora contador da antiga empresa de Érico. Morrera em circunstâncias nebulosas. Alguns diziam que se suicidou. Outros sussurravam em botecos que ele sabia demais.
Antunes sentiu um calafrio ao se abaixar diante da lápide. Havia terra fresca ao redor. Mas ninguém fora enterrado ali há anos.
Naquela noite, terminou de reunir as provas. Confrontou o sócio, que desmoronou. Confessou. Um plano perfeito, não fosse pela voz que voltou do túmulo.
Na coletiva de imprensa, Antunes foi parco nas palavras. Chamou de “denúncia anônima”, como manda o manual. Mas no silêncio da noite, quando o telefone toca às 3h17 — e tem tocado, mesmo com os fios arrancados —, ele não atende mais.
Não por medo do morto. Mas porque teme o dia em que será ele quem terá de ligar.
E alguém, no futuro, precisará escutar.
Se quiser, posso continuar essa história com novos casos ou ampliar esse universo sombrio e surreal.
Este é um conto, portanto literatura.








