O Padre e a Santa Lei Seca

O vinho e uma história engraçada/Imagem de daves19387 por Pixabay

ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO

 

Firme como prego na areia, às 3 horas da manhã, padre Carlos Franchescini, italiano de nascimento e brasileiro de coração vinha corajosamente pela rodovia Washington Luís no sentido interior-capital, entre Ibaté e São Carlos.

 

Naquela noite, padre Carlos havia rezado uma missa na fazenda Santo Antonio na zona rural de Ibaté e depois tinha sido convidado para participar de um jantar à base do famoso porco no rolete, repleto daquela tentadora pururuca.

 

Como não era de bebericar, apenas quando estava em “serviço”, pois aquilo era mais do que sagrado, padre Carlos não se importou em degustar o porquinho que vinha sendo assado desde a manhã daquele dia e serviu para o alívio do estômago dos convidados da festa, depois que o religioso havia promovido o “alívio” da almas de cada um, com um sermão inflamado durante a missa.

 

Dirigindo, padre Carlos tentava controlar sua Kombi, na verdade não sua, mas do seminário onde morava com os outros noviços, na estrada. Com um sono que Deus tinha lhe dado, o padre que era um rotineiro freqüentador da cama por volta das 22 horas, sempre após as completas litúrgicas, estava ainda na luta da estrada voltando para o seminário num horário em que costumava estar conversando com os anjos.

 

Quando estava passando pela altura da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), padre Carlos deu aquela pescada sonolenta, mas voltou a sã consciência logo em seguida, porém percebeu que quase tinha mudado de pista. Corrigiu o traçado, mas o sono ainda o carcomia.

 

Metros adiante ao ser buzinado por um caminhoneiro, o religioso notou que novamente estava fazendo um leve zigue-zague na estrada. Sua sorte é que as três da manhã somente os profissionais do volante (e alguns da fé) estavam pelas estradas brasileiras.

 

Entretanto, padre Carlos resolveu tentar manter-se acordado para chegar inteiro no seminário, afinal tinha aula de filosofia para ministrar no outro dia às 10h30.

 

Quando firmou no volante avistou uma lanterna que ascendia e apagava em sua direção. Pensou: “Mas, o que será isso?”

 

Olhou atentamente, fincou seus olhos nos óculos de armação redonda e notou que era um policial rodoviário pedindo que a kombi encostasse. Já preparado, padre Carlos começou a olhar para o bolso da camisa, viu sua carteira de motorista, os documentos do veículo e encostou calmamente.

 

– Boa noite! Disse o guarda.

 

Com os olhos vermelhos, padre Carlos abriu o vidro e repetiu a saudação:

 

– Boa noite, meu filho!, bocejou.

 

– Por favor os documentos da perua, meu senhor! E quero também que o senhor saia do carro.

 

O padre compreendeu o pedido de documentos da Kombi, mas sair do carro para ele foi demais.

 

– Sair? Por quê? Tem alguma coisa errada comigo, meu filho?

 

O guarda que no alto do peito tinha o nome de Santiago, disse ao senhor apenas para sair. Recolheu o documento e foi até a base consultar de quem seria a perua Kombi. Enquanto isso o padre desceu da Kombi, ficou com as pernas bambas de sono e tratou de voltar ao lugar de motorista.

 

– Agenor da Silva, quem é? Perguntou o guarda de volta.

 

– Quemmmm?!?! Com mil demônios!!, falou o padre.

 

– Meu senhor, é isso que está no documento. Agenor da Silva, veículo registrado em Matão.

 

Surpreso, e já apelando para a milícia celeste, padre Carlos ficou inconformado com a situação e resolveu se revelar para o guarda.

 

– Filhinho- disse com voz de sono, mas bem perto do rosto de Santiago- Sou o padre Carlos Franchescini, italiano que ama este país, estava rezando uma missa na fazenda Santo Antonio, acabei a celebração às 22 horas, depois comemos um delicioso porco no rolete, mas acho que me estendi na conversa e agora estou indo pra casa.

 

Achando o senhor com um ar de sabichão, Santiago o fitou de cima até embaixo, realmente achou que o velhote tinha jeito de padre, mas no ardor da profissão resolveu cumprir o dever, o que estava muito certo em fazer.

 

– Ah….então é padre? Tá certo, cadê a carteirinha?

 

– Dio Santo Benedeto – resmungou em italiano o padre – Que carteirinha, filho? Quer uma assinada pelo Papa?

 

Percebendo a ironia nas palavras do velho, mas querendo dar uma segunda chance para que o infrator pudesse se explicar, pois prender alguém às 3 da manhã é dose para elefante, Santiago resolveu simplificar as coisas:

 

– Tudo bem, se o senhor é padre me mostra a batina?

 

– Ô! É pra já…, balbuciou.

 

Padre Carlos abriu a porta da Kombi olhou pelo banco da frente e nada, olhou no banco do fundo e nada. Irritado com a situação achou que era melhor tentar enrolar o guarda e depois dar queixa de furto de batina.

 

– Olha meu amigo, você não acreditará, mas eu esqueci minha batina e os paramentos da missa na fazenda Santo Antonio, o que posso fazer é mostrar Nossa Senhor Aparecida que está pregada no painel da perua para você crer neste discípulo do Senhor.

 

Dando de ombros, pois o sono também o apertava, Santiago foi até Kombi, vasculhou tudo procurando Nossa Senhora e não achou nada, nem um anjinho sequer.

 

– Meu senhor, o que apenas posso fazer é deter o veículo e o senhor o retira amanhã, afinal eu pedi para você encostar depois de dois zigue-zagues feitos na estrada. Isso é um perigo…

 

– Aliás- completou Santiago- Não posso deixar o senhor passar sem fazer o teste do bafômetro, agora é lei!

 

Com a careca vermelha de raiva, mas ainda tentando demonstrar auto-confiança, padre Carlos suspirou no bafômetro e o resultado deixou o guarda de olhos arregalados.

 

– Mas que padre é o senhor? Todo cachaçado!?! Que vergonha! Ainda dirigindo na estrada! Padre? Padre coisa nenhuma, o senhor é mais um bebum ao volante…Vai preso agora mesmo…

 

Depois da intimada, a testa de padre Carlos suava e o calor a deixava cada vez mais quente e diante da ordem de prisão o padre ainda retrucou:

 

– Porca miséria! O raio do bafômetro deu positivo porque eu estava rezando missa, não sei se você sabe, mas na missa bebemos uma pequena quantidade de vinho!

 

Ouvindo a história do padre, Santiago coçou a cabeça, e arrematou:

 

– Quando morava na Vila Nery, o padre João bebia vinho na missa, mas não saía dirigindo por aí.

 

– Você tá falando do Padre João Ribeiro?- disse Padre Carlos- Foi meu aluno no seminário, menino aplicado.

 

Nisso o rádio do policial começou a chamar passando recado do roubo de uma Kombi que havia ocorrido na fazenda Santo Antonio, ao olhar a chapa: bingo! Colocando as algemas na mão do padre, Santiago resmungou:

 

– Além de cachaceiro, é um ladrão!?

 

Ao ser levado para a base da polícia rodoviária e passar a noite no local, padre Carlos acordou com o soldado Santiago o sacudindo e já pensando no que poderia acontecer depois daquele banzé.

 

– Acorda, padre! Acorda! O bispo tá aí?!

 

– Meu Deus! O bispo?

 

O superior de Padre Carlos estava na base. Ao entrar na sala olhou bem para a roupa desarrumada do sacerdote, sacudiu a cabeça e disse em alto e bom som:

 

– Que isso não se repita mais! A polícia disse que o senhor estava bêbado! Agora devolva a Kombi errada que o senhor pegou na fazenda e volte para o seminário! Afinal de contas só me faltava um padre bêbado e ladrão na minha diocese!

 

As palavras do bispo reascenderam a memória de padre Carlos. Ao sair da fazenda, já com sono, ele havia trocado suas chaves com uma Kombi semelhante que estava no pátio e por isso tocou para a estrada sem perceber nada, afinal o sono lhe consumia.

 

Misericordioso, o sacerdote foi até Santiago lhe agradeceu e convidou o policial para assistir missa na capela do seminário.

 

– Só se o senhor não bebericar mais…..

 

Uma semana depois do ocorrido, Santiago foi até a missa e por cargas d’água o Evangelho do dia eram as famosas bodas de Caná, quando Jesus transforma a pedido de sua mãe, a Virgem Maria, água em vinho. Ao terminar de ler o Evangelho e começar seu sermão durante a missa, padre Carlos olhou para o público e percebeu que Santiago estava entre os fiéis, por isso começou logo dizendo:

 

– Hoje, meus caros irmãos, quero falar de um tema relacionado às bodas de Caná, e pedir flexibilização da lei seca imposta pelo governo federal, pois a polícia anda sendo intolerante com aqueles que trabalham para o Senhor…

 

Ao final da missa, o policial foi até a sacristia, encontrou o padre e sapecou:

 

– Vim aqui para devolver isso que estava na kombi, naquela noite.

 

Tirando da sacola, Santiago tinha uma garrafa de pinga de engenho. O padre olhou para aquilo e assustado tratou de explicar:

 

– Isto não é meu. Já disse que não bebo!

 

Santiago nem quis saber, deixou para o padre a garrafa e foi embora. Quando estava indo para a casa recebeu uma chamada no telefone. Era da base da polícia, o dono da Kombi confundida pelo padre havia chegado para buscar a garrafa de pinga que estava embaixo do banco. Era uma pinga especial que seria levada para uma exposição. Na mesma hora. Santiago ligou na igreja.

 

– Padre Carlos, posso marcar uma confissão?

 

– Pode, filho. Depois a gente toma um guaraná…

Por Renato Chimirri